Corações Imperfeitos é um livro que mais parece um filme de acção. Atente-se na descrição da contra-capa: “Sedução, Droga e Adrenalina. Noites levadas ao extremo. Pelo gozo de desafiar a morte, de testar os limites. Ou apenas uma forma diferente de sobreviver?”. Quase que podemos visualizar o trailer tipificado, tão comum aos sucessos de bilheteira onde figuram estrelas de Hollywood.

A Hollywood de Francisco da Costa Oliveira também não se faz rogada e neste livro é o homicídio que aparece como pano de fundo das várias histórias contadas, sempre acompanhadas por uma escrita frenética, agitada. Por vezes chegando mesmo a ser excessiva, por exemplo, na utilização de palavras escritas em maiúsculas, ou de onomatopeias, numa tentativa de conferir expressividade.

Essencialmente são seis as histórias que acompanhamos ao longo do livro, contadas de forma fragmentada ao longo das 170 páginas. Nenhuma delas tem relação entre si a não ser a temática, e só no fim do romance é que se estabelecem elos na acção.

Corações Imperfeitos começa a ritmo lento e de forma pouco clara quanto à sua estrutura, de tal forma que o leitor pode mesmo chegar a pensar que está perante um livro de contos. A inaugurar é-nos apresentado o caso de Miguel, um jovem pai, advogado e católico, que tem tudo para ser um exemplo de vida: “Fora marido dedicado e o pai ideal. Inexcedível. Não havia nada a apontar-lhe. Tão bem-disposto, tão corajoso. Tão humano e reflectido. Incapaz de uma palavra incorrecta, de uma atitude, jamais uma desconsideração”. O plottwist acontece quando a mulher o abandona e às suas filhas, para “fugir” com outro homem. Retorna dois anos mais tarde, decidida a compensar o tempo perdido longe dos seus rebentos e afastando Miguel do seio familiar que lhe restava. Este passou a ver-se obrigado a uma vida solitária, que lhe traz uma revolta só mais tarde expressada por via de uma shotgun.

Em simultâneo são contadas as aventuras dos irmãos Valerie e Victor, que partem numa viagem intercontinental à procura de testarem os seus limites e decididos a viver novas experiências. Entre festas, bebidas e drogas, pouco resta nos diálogos a não ser as superficialidades de jovens focados apenas em “apanhar” a melhor trip.

A leitura ganha novo fôlego no momento em que nos é apresentado o caso da Serena Viúva. A fluidez da leitura aliada à perspectiva na primeira pessoa e a certos maneirismos, faz-nos sentir na pele da mulher que quer matar o seu marido, surtindo num certo efeito tragicómico pela ingenuidade e leveza com que encara este homicídio, apenas, e só, porque se “fartou”.

Segue-se a história do miúdo que gosta de se fingir de morto, numa tentativa de angariar atenções sobre si; também a de Vera, uma “mulher fatal” que engata nos chats e via SMS; e finalmente a de Victor, um pseudo assassino que anseia pelo dia em que satisfaz o fetiche de matar uma mulher durante o coito.

Em geral, Corações Imperfeitos é um livro que entretém, embora por vezes pareça pouco inspirado: Falta essencialmente densidade psicológica às personagens, tão necessária para as sentirmos vivas e não apenas bonecos literários. O autor vai, no entanto, cativando, principalmente porque percebemos a intenção de captar a violência de forma crua, honesta e nem por isso desprovida de humor aqui e ali.

 Corações Imperfeitos
Autor: Francisco da Costa Oliveira
Editora: Oficina do Livro
N.º de Páginas: 171

Avaliação:

5.5/10