O Espalha Factos esteve à conversa com algumas das bandas e projectos portugueses que participam na edição deste ano do FMI – Festival de Música Independente, a decorrer de 16 a 18 de Setembro em Braga. O Coelho Radioactivo, que actua amanhã no festival, termina o ciclo de entrevistasLê aqui.

Espalha Factos: Como é que começou este teu projecto?

Coelho Radioactivo: Eu sempre gostei muito de música, devido a uma grande influência do meu pai, que é professor de pintura, e que sempre esteve muito ligado às artes. Isso explica o porquê de eu, desde muito cedo, ouvir coisas muito pouco habituais para crianças: Tom Waits (o artista de eleição do meu pai), Leonard Cohen e Pascal Comelade, de quem tenho muitos discos e que ainda sei de cor, mesmo que já não os oiça há 5 cinco anos ou mais. Por isso, partir disso para este projecto pareceu-me uma coisa óbvia. Comecei com aulas de órgão com mais ou menos 8 anos. Depois, passei para a guitarra e ignorei por completo a teoria musical, ajudado por um professor brasileiro que dava mais importância à prática e que me ensinou muito Bossa Nova. E foi assim que começou o Coelho Radioactivo; a partir do momento em que me “safava” na guitarra, preferia ser eu a “inventar” uns acordes e tocar, do que estar a “sacar” coisas do Jobim e outros (apesar de ele ter coisas muito boas). O momento em que tudo começou a ganhar forma foi com a Polónia Colónia; fiz uns acordes e escrevi a letra numa aula de Português, um bocado no gozo. E depois fui gravando músicas, sem pensar onde elas ficariam. Só com a Sem Nome é que cheguei à conclusão que iria ser um EP. Depois veio a Sem Nome 2 e a Bom Inverno, que serviu para “unir” o ep 1.

EF: Qual a origem do nome Coelho Radioactivo?

CR: Sabes, eu só pensei na origem do nome quando me fizeram essa pergunta pela primeira vez. Pode muito bem ter vindo do Radioactive Man (dos Simpsons). Mas a primeira vez que surgiu esta ideia, eu estava na minha antiga banda, os Tchau Chicken. Como eu não gostava do nome do grupo, sugeri “Coelho Radioactivo”, que foi rejeitado. No entanto, fiquei com isto na cabeça, e quando a banda acabou (nunca chegou a dar em nada) e chegou a altura de fazer um projecto só meu, fui pelo nome Coelho Radioactivo.

EF: Quais são as tuas principais referências musicais?

CR: Eu gosto de um pouco de tudo, e oiço muita coisa. As minhas principais referências musicais, dentro da música pop internacional, são, sem dúvida, o Bob Dylan, Leonard Cohen, Tom Waits e Pascal Comelade. O meu disco preferido é o Mark Hollis, o álbum homónimo a solo do vocalista dos Talk Talk, que é a coisa mais incrível que alguma vez foi feita na história da música. Também gosto muito dos próprios Talk Talk, os últimos álbuns (a cena mais experimental) e dos Radiohead e de todos os seus álbuns (menos o Pablo Honey). Coisas novas, gosto imenso dos Deerhunter e dos Arcade Fire. Ultimamente ando a ouvir os Ash Ra Tempel, apesar de eles serem um bocado fascistas, o que me irrita um bocado, mas que se f*da, eles têm músicas boas. Também gosto dos “clássicos” (Jimi e etc.), mas não sinto que sejam influentes para a minha música. Dentro da cena portuguesa, tenho a referência dos Ornatos Violeta, mas isso é um bocado transversal aos artistas da minha idade. O que também oiço muito são as pessoas com quem trabalho, os meus colegas cantautores: O Cão da Morte,  Éme,  João Nada,  Pega Monstro, Os Passos em Volta, Filipe da Graça. E depois também tens os “cotas”: Tiago Guillul, e o João Coração, com quem estou muito ligado. Quando o conheci, já tinha a Polónia Colónia, e ele tratou de me introduzir “no meio”.

EF: Depois de um EP de originais (ep 1,de 2009) e um de “versões” (Para Adivinhos, um EP com uma faixa original e versões de Éme, O Cão Da Morte e João Nada, lançado em Julho deste ano], quais são os teus planos a curto-médio prazo?

CR: Para começar, vou ter a reedição do Para Adivinhos, em cassette, limitada a 50 exemplares, e com dois temas extra que serão surpresa, em Outubro, pela Martelo Pneumático, uma editora underground “da cena”. Depois, também tenho o meu segundo EP, que está a ser gravado há dois, três anos. Ele começou a ser gravado há dois, três anos, na casa do João Coração, que estava encarregue da produção, mas a vida não lhe correu como ele esperava, e eu tive de ficar encarregue de acabar a obra. Também deve sair lá para Outubro, e vai ser o EP “fofinho” do Coelho Radioactivo, com músicas que foram feitas no meu 12º ano, muito calminhas e bonitinhas para as meninas.

EF: Como funciona o teu processo criativo de escrita e composição das canções?

CR: Eu acredito muito na verdade artística. Acho que na música, tal como na Arquitectura [o Coelho estuda Arquitectura], tal como em qualquer forma de arte, as obras, para serem boas, têm de ser verdadeiras e de fazer sentido, não de forma literal, mas sim no sentido de significarem algo para o criador. E quando isso acontece, nós sentimos.

[Mas falando do método], no meu caso, a inspiração é a coisa mais importante, é o que dá uma boa música. Mas para a inspiração dar em qualquer coisa é preciso trabalhar muito, pois a inspiração é uma coisa que tu não sabes quando aparece, e se não se estiveres a trabalhar quando ela chega, desaparece, e não é canalizada para uma canção. O método que eu acho que resulta em melhores canções é eu sentar-me, com a guitarra ao colo, e estar a tocar durante meia hora e a certa altura caí-me uma cena em cima da cabeça, saco uns acordes incríveis, uma melodia muito boa e a letra, tudo ao mesmo tempo.

EF: Achas que o facto de cantares em português poderá ser um entrave a uma eventual internacionalização da tua música?

CR: Acho, mas não me preocupo com isso. Preocupo-me antes com a “nacionalização” da minha música. Eu faço muitas coisas que sei que nunca vai ser muito bem aceites no nosso panorama musical. Por exemplo, não posso chegar e “cair em cima de toda a gente” com uma coisa instrumental (que gosto muito de fazer) enquanto que, se fosse do Canadá, ou da Suécia, talvez fosse mais aceite. Pelo menos, é essa a minha sensação, que em Portugal a música instrumental não é muito bem aceite. É claro que gostava de um dia ver Coelho Radioactivo na “net internacional”, como por exemplo a Pitchfork, mas não é algo como que me preocupe muito. Centro-me mais em fazer com que as pessoas consigam perceber o que eu digo, porque eu próprio já sou um público bastante difícil.

EF: Achas que existem muitas dificuldades na vida dos novos artistas?

CR: Não. Ao dizer “novos artistas”, estás a comparar com os “velhos artistas”, e acho que, assim sendo, até existem muitas facilidades. Por exemplo: a internet, que é uma das coisas mais incríveis que há. Há muita gente que me conhece por causa da net e do MySpace. Claro que existem dificuldades monetárias, mas acho que quem faz música, como eu, precisa de fazer isto, não por dinheiro ou reconhecimento, mas sim porque precisa de deitar cá para fora o que pensa por outra maneira que não o falar. E se tu fazes música, tens a possibilidade de a tocar para outras pessoas e ainda recebes por isso, o que é que podes pedir mais?

EF: Já te sentes reconhecido dentro do circuito musical português?

CR: Minimamente. É complicado responder, porque não me sinto muito reconhecido, mas vejo que já há algumas pessoas que me conhecem, pelo menos aqui em Aveiro (onde costumo ter casa cheia). Já tive um episódio, antes de lançar o ep 1, em que alguém veio ter comigo e disse-me que me conhecia e que gostava da minha música, mas para além disso, não houve muito mais. Pode ser que o meu público seja um bocado como eu, pouco expansivo nesse sentido.

EF: O que é que achas do “estado” da indústria musical, particularmente em Portugal?

CR: Lastimável, talvez seja essa a palavra mais indicada. Porém, eu não sou muito de fã da expressão “se não estás bem, muda-te”, vejo que devia ser mais “se não estás bem, fazes para que fique bem”. Por isso, acho que é um grande valor o conseguir dar a volta à situação, e conseguir ultrapassar as dificuldades. Exemplos disso são as editoras como a FlorCaveira, a Amor Fúria ou a grande Cafetra Records, que têm bons projectos, boa música, e acabam por florescer, ao passo que tens as majors, ou a abrir falência, ou a lançar só m*rda e foleirada e cenas comerciais. Acho que o futuro da música em Portugal passa muito por estas novas editoras, que tentam dar a volta à situação.

EF: O que é que pensas de conceitos como o FMI?

CR: Acho que eles estão a fazer uma cena muito interessante, uma espécie de “festival temático”, inspirados pela facto de estarmos em crise e querermos ir ver música boa e barata. Claro que não é uma coisa infalível e à prova de falhas, mas eles ainda estão um pouco a começar, e o facto de eles ainda não serem muito profissionais dá carácter à coisa, e creio que vai produzir um ambiente muito bom.

httpv://www.youtube.com/watch?v=3rumRzGsjog

Entrevista realizada por João Morais.

Fotografias do MySpace e Facebook do Coelho Radioactivo.