O Espalha Factos esteve à conversa com algumas das bandas e projectos portugueses que participam na edição deste ano do FMI – Festival de Música Independente, a decorrer de 16 a 18 de Setembro em Braga. Hoje é a vez d’ O Cão da Morte e do Éme. Lê aqui as entrevistas.

 

Cão da Morte

Espalha Factos: De que forma é que a música dos Mão Morta Cão de Mortee o livro homónimo de Agatha Christie te influenciaram na escolha do nome para o teu projecto?

O Cão da Morte (Luís Gravito): Penso que os dois influenciaram um pouco. Li primeiro o livro e ouvi depois a música. Na altura em que queria escolher um nome para este projecto pareceu-me fazer sentido porque sempre tive tendência para escrever letras tristes. E ao não ser um projecto com o meu nome próprio abria também espaço para a participação de outros músicos. Ou seja, isto nunca foi uma “banda” mas também nunca foi bem um projecto a solo. Geralmente chamo-lhe simplesmente “projecto” (apesar de também não ser uma palavra que adore).

 

EF: Que outras bandas/músicos do panorama nacional te influenciam?

CM: É sempre difícil para mim reconhecer as influências. É claro que elas existem e que sou tão ou mais influenciável que todos os músicos. O que acontece é que não penso nelas quando estou a criar. Ultimamente tenho sentido que sou muito influenciado pelos amigos com quem vou tocando e trabalhando. Há o caso do Coelho [Radioactivo] , do João Nada, da malta da Cafetra [Records], e por aí fora… Depois há outros músicos no panorama nacional que admiro, dentro de vários estilos musicais.

EF: Odivelas, nomeadamente o teu bairro, Casal do Chapim, é uma forte influência nas tuas canções (tanto do primeiro álbum como do segundo). Que outros ambientes e espaços te influenciam quando escreves e compões as tuas músicas?

CM: Vejo o espaço como uma componente da história que quero contar. Se a história que invento ou vejo me parece interessante, o espaço em que ela se passa irá tornar-se automaticamente uma influência.

EF:Como te sentiste ao ler que eras “o messi do novo nacional-cançonetismo”, na crítica do Ípsilon?

CM: Fiquei um bocado envergonhado e surpreendido porque não estava à espera de tanto. Mas gostei de ler… o Messi é um grande jogador.

EF: Nessa crítica do Ípsilon, João Bonifácio deu 4 estrelas ao teu mais recente trabalho, Ainda sem nome, e diz que os teus sons fazem lembrar Nick Cave e Leonard Cohen… O que tens a dizer sobre estas afirmações?

CM: Já ouvi muito Cave e Cohen. Penso que o Cave é uma influência mais directa naquilo que faço. Penso ainda que para este disco fui buscar influências às coisas mais rock que ouço. Mas como já disse, é difícil para mim descrever a minha música. A pergunta mais difícil que me podem fazer é “tens uma banda? e é que estilo?“. Acho que no meu caso as influências variam um bocado de música para música.

EF: Como músico e compositor, sentes uma evolução imensa entre o Trovas Intravenosas e o teu álbum de Maio deste ano?

CM: Sim. E ainda sinto mais agora com as novas coisas que estou a fazer. Não sei se sou sempre bem-sucedido mas tento que cada novo trabalho acrescente qualquer coisa ao que já fiz.

EF: O que achas do conceito do FMI (Festival de Música Independente), sendo tu mesmo um músico “independente” que tenta dar a conhecer o seu trabalho (também gratuitamente)?

CM: Acho um conceito muito interessante e adequado aos tempos que correm. É um prazer para mim fazer parte do cartaz. Tento dar a conhecer o meu trabalho gratuitamente por achar justo as pessoas terem acesso à minha música sem qualquer custo. Claro que ao mesmo tempo vou fazendo umas edições físicas que “compra quem quer”. Mas ninguém precisa de pagar para ouvir e ter este meu novo disco em mp3.

EF: Trabalhas sempre com várias parcerias nos teus discos, entre elas O Coelho Radioactivo, Éme, as Pega Monstro, Silas (Pontos Negros), João Coração (…) O que poderemos ouvir no FMI do Cão, juntamente com Éme, no dia 16?

CM: Vou tocar duas canções novas. De resto, tocarei principalmente o segundo disco, Ainda sem nome. O Éme vai tocar em todas as minhas músicas e eu em todas as músicas dele. A Júlia, baterista das Pega Monstro e d’Os Passos em Volta, também faz parte da nossa “banda improvisada”.

EF: Tens também um EP com O Coelho Radioactivo a estrear, não é verdade? Fala-nos dele.

CM: Está a ser gravado, produzido e arranjado a meias entre mim e o Coelho. De qualquer forma vai ter muitas participações, como os outros discos. Deve sair lá para Dezembro, ainda não sei, não tenho muita pressa. A autoria das canções é quase sempre minha, tudo o resto é pensado a meias entre mim e ele (até mesmo os outros convidados que chamamos).

EF: Para quando um novo álbum do Cão da Morte?

CM: Vou fazer alguns EP’s com calma, meio caseiros, como é o caso do EP a meias com o Coelho. Quanto a discos compridos como este último que lancei, não tenho nenhum em mente para os próximos tempos. A ideia de EP anda a fazer mais sentido nesta fase em que estou.

EF: Tencionas disponibilizá-lo também online?

CM: Sim, o disco Ainda sem nome está a pedir companhia no bandcamp.

EF: Em que outros projectos musicais paralelos estás envolvido?

CM: Estou a começar uma banda que são os Egícios, com amigos da Cafetra. De resto, vou usar este ano lectivo que está a começar para gravar alguns amigos de uma forma caseira e familiar no estúdio que ando a montar na minha garagem. Muita malta da Cafetra vai passar por lá, entre outros projectos. Se o João Coração voltar a agendar concertos talvez ainda volte a ser teclista dele. Adorava que isso acontecesse porque gosto muito de tocar as canções dele.

EF: Sei que existe uma página “Queremos ouvir O Cão da Morte no Paredes de Coura?” Era este um dos teus sonhos para o futuro, isto é, estar num grande festival de Verão?

CM: Gostava de experimentar tocar num grande festival, mas compreendo que ainda não tenha existido essa possibilidade. Há outras bandas com muito mais discos, anos e estrada que nunca passaram por nada disso. Ou seja, faz sentido ir fazendo as coisas de forma progressiva e se calhar ainda não chegou a altura de dar esse passo. Hoje toco em bares para 40 pessoas. Não posso esperar que amanhã me liguem de Paredes de Coura a convidar para ir lá tocar. De qualquer forma, é muito engraçado ver que houve gente a criar esse grupo.  E aliás, eu para o ano devo ir a Paredes enquanto espectador, portanto, não me importo nada de dar um concerto no parque de campismo para o pessoal que se juntou a esse grupo.

EF: Apesar da crise e dos problemas que existem sempre em vingar no mundo da música em Portugal, como vês O Cão daqui a 10 anos?

CM: Não sei, não tenho planos a longo prazo. Neste momento quero experimentar coisas na minha música, evoluir mais um bocado, e gravar os tais EPs. Depois disso não sei… não sei se as músicas vão continuar a sair e se vou continuar a ter vontade. É esperar para ver.

Entrevista realizada por Susana Pacheco.

 Éme

EF: As tuas músicas transparecem tristeza. O Éme é uma personagem fictícia ou acaba por ser a melhor forma que encontras para te exprimires?

Éme (João Marcelo): Não, o Éme sou eu, é como os meus amigos me costumam tratar e é uma das duas melhores formas que encontro para fazer música. A outra são Os Passos Em Volta, uma banda na qual me incluo. Claro que quando estou sozinho faço canções mais tristes, nem que seja só pelo facto de estar sozinho, de qualquer modo, serve para guardar ali as partes tristes em gavetinhas que, por serem canções, em vez de serem tristes também servem como forma estética que me podem agradar a mim e, sabe-se lá, a mais pessoas. Mas também tenho canções que não são tristes.

 EF: De que fontes bebes a inspiração?

Éme: Não sei se lhes chamaria fontes mas gosto muito, por exemplo, do Woodie Guthrie e toda essa folk americana (Cisco Hou, Leadbelly etc.), do Johnny Cash, Bob Dylan, Donovan, Syd Barrett e Neil Young, claro. Também adoro o Daniel Johnston e gosto muito do Elliott Smith, Bill Callahan e de tudo o que o Will Oldham faz. Depois, as coisas que ouço mais actuais são, por exemplo, os Deerhunter, Wavves, Times New Viking, Harlem e outros nessa onda de rock lo-fi (se bem que os Deerhunter não são muito lo-fi). Ouço muito, também, os Fleet Foxes, Jeffrey Lewis, Woods, Scout Niblett ou os Ganglians. De resto todos os meus amigos da Cafetra Records me influenciam!

Ah! E claro, toda a cena beatnick e os Mutantes. E muito mais coisas que não são sequer música mas se dissesse tudo o que me influencia ninguém ia querer ler isto.

 EF: Fala-nos do papel de cada um dos amigos na Cafetra Records e do teu em particular.

Éme: Os papéis de cada um nem sempre são muito bem definidos, excepto em alguns aspectos dos quais destaco a parte estética, dos cartazes e etc. que são sempre feitos pelo Francisco Correia. Os EPs são feitos à mão por todos e o booking também é feito por muitos, ou seja, sem contar com algumas actividades que requerem mais perícia contribuímos todos para o mesmo.

 EF: Quais os palcos mais importantes que já pisaste e como tem sido a reacção do público?

Éme: Nunca pisei palcos muito importantes. Quer dizer, para mim foram todos importantes mas nunca toquei em sítios muito grandes. Destaco o lançamento do meu EP, no Botequim do Largo da Graça que, apesar de ser muito pequeno, encheu e até ficou gente de fora. O concerto que dei no Porto com os amigos Coelho Radioactivo (toca dia 17 no FMI), João Nada e O Cão da Morte (Divide palco comigo no FMI) no Maria Vai Com As Outras foi brutal, estava imensa gente e eu achava que não ia ninguém, correu tudo impecavelmente bem e eles são todos músicos por quem tenho muita estima. De resto, os concertos d’Os Passos em Volta são sempre muito fixes! Este que vou dar no FMI, dia 16, vai ser muito fixe, eu e O Cão da Morte vamos funcionar quase como uma banda com dois vocalistas e compositores alternando entre as canções de um e de outro, a Júlia (Pega Monstro e Os Passos em Volta) vai tocar bateria em quase todas.

EF: Passa-se alguma coisa estranha aqui é o nome do teu EP. Achas que se passa alguma coisa estranha na música portuguesa?

Éme: Não sei bem. Se calhar até acho que se passam poucas coisas estranhas na música portuguesa e isso habituou as pessoas a ter sempre o mesmo mas oferecido por pessoas diferentes. As pessoas não estão habituadas a coisas estranhas, querem sempre as mesmas coisas e quando aparece algo novo, se não gostam à primeira, não gostam de todo. A música, portuguesa ou não, ganha sempre com a variedade e se não houver coisas estranhas não há variedade. Espero que possamos todos apreciar a variedade de toda a música e que quem ainda não aprendeu a desfrutar disso aprenda.

 EF: Achas que o FMI – onde vais actuar no dia 16- e a música indie, abraçados, têm muita margem de progressão?

Éme: Claro, e era fixe que o FMI, não só continuasse mas se alastrasse e que as pessoas pudessem organizar eventos de qualidade, elas próprias em todo o país. No ponto em que estamos, é preciso que as pessoas se mexam e façam coisas por elas próprias!

 EF: Que novidades podemos esperar do teu trabalho nos próximos tempos?

Éme: O primeiro álbum da minha banda, Os Passos em Volta, vai sair em Outubro, estamos todos muito entusiasmados, até porque é o primeiro longa duração da Cafetra. Também os Kimo Ameba acabaram agora o seu primeiro disco, ou seja, a Cafetra vai ter agora muitos lançamentos e isso também é parte do meu trabalho. Com Éme tenho um primeiro disco que está a ser mais difícil de fazer mas que está quase composto, devo gravá-lo ainda este ano. Podem esperar também bastantes concertos, tanto d’Os Passos em Volta como só meus.

Entrevista realizada por Pedro Pereira.

 Créditos fotográficos: Rita Sousa Vieira