Foi Roberto Benigni que nos mostrou, num tom amargurado, penoso, mas, à sua maneira, belo, que a vida, na sua generalidade, é bela, apesar de todos os tormentos. Passados 13 anos do sucesso do seu contemporâneo realizador de A Vida é Bela, Daniele Luchetti tenta comprovar a mesma teoria, com o seu filme A Nossa vida.

Com uma narrativa já contemporânea, Luchetti recorda a imprevisibilidade e a efemeridade da vida, na tumultuosa história de um jovem italiano que, como qualquer mortal, apenas ambiciona uma coisa: a felicidade, sua e dos seus. A Nossa  Vida é o retrato disso mesmo, a luta inconsciente e desalmada pela luz vital, pela oportunidade de ser feliz. O espelho realista de uma vida que pode muito bem ser a nossa. Uma vida de todos nós.

Claudio, o protagonista, é um trabalhador da construção civil que, ao lado da sua mulher, Elena, tenta criar o melhor ambiente familiar possível para criar os seus filhos. Porém, logo à partida, depara-se com a maior das tragédias, a morte da sua companheira. A partir desse momento, Claudio tenta, desesperadamente, recolher da vida o máximo possível, no menor espaço de tempo. Do nada, sente a necessidade de dar tudo o que pode e o que não pode aos seus filhos. Viver no carpe diem. Para isso, traça altos objetivos para o seu negócio. Objetivos esses que se revelam ambiciosos demais. Perigosos demais.

A emotividade extraída de A Nossa Vida é conseguida através da prestação de Elio Germano, que interpreta Claudio. Germano, revelando-se um ator de primeiro nível, encara a sua personagem com total realismo, expondo com máximo afinco os sentimentos e emoções contraditórias usuais no ser humano, quando se depara com situações tão extremas. Aliás, foi essa sua maturidade no grande ecrã que lhe valeu o prémio de melhor ator no festival de Cannes de 2010. Germano coloca em Claudio toda a raiva e negação inicial, nascida da morte da sua mulher, mas transformando-a, com naturalidade, nessa já referida vontade imensa e inflectida de mudar a sua vida, de forma quase radical.

Não estarei a exacerbar se concluir que esta película vale o que vale pela sua interpretação e pela personagem de Claudio, fazendo desta obra um filme de personagem. A verdade é que o próprio argumento, apesar de sólido, é pouco rico em ações. Nada de extravagante acontece na narrativa e, ao sairmos da sala de cinema, não podemos dizer “Isto só no cinema“. Assim, perante a pobreza do argumento, a narrativa envolve-se na riqueza da personagem que, com as suas voltas e reviravoltas emocionais, dá o encanto ao filme.

Na perspectiva técnica, trata-se claramente de um filme criado sobre os padrões europeus. A câmara quase constantemente ao ombro, planos fechados, cores contrastadas e pouco iluminadas. Todos estes fatores vêm acrescentar um certo realismo à obra, requerido à partida, tendo em conta a sua temática. É, no geral, um filme constante, na forma como é filmado e exposto a quem o vê. O seu conteúdo, reflecte-se, portanto, no dinamismo e ritmo dos seus planos.

A Nossa Vida não é o “ultimate” do seu género, nem vem acrescentar nada de novo. Contudo, por ser uma construção cinéfila muito segura e madura, torna-se numa experiência bastante agradável.

Um filme de autor para ver sem grandes expectativas.

6.5/10

Ficha Técnica

Título original: La Nostra Vita

Realizado por: Daniele Luchetti

Escrito por:Daniele Luchetti e Sandro Petraglia

Elenco: Elio GermanoRaoul BovaIsabella RagoneseLuca ZingarettiStefania Montorsi, Giorgio Colangeli e Marius Ignat

Género: Drama

Duração: 98 minutos