Esta semana o Cultura, Precisa-se? vai levá-lo a passear por outros trilhos e caminhos. Desta vez passamos pelo Auditório dos Oceanos, no Casino de Lisboa, para vermos o trabalho de Tiago Guedes com Bruno Nogueira e Miguel Guilherme. É como diz o outro? Não. Falam Frederico Pombares e Henrique Dias (Textos), Tiago Guedes (Encenação), Bruno Nogueira e Miguel Guilherme, que não fazem mais do que revelar toda a sua maestria em palco e fazer rir a quem por direito o merece: o público.

A peça estreou ontem e o Espalha-Factos esteve presente. É como diz o outro é uma peça que passou da televisão ao teatro, tendo tudo começado pelas mãos de Frederico Pombares e Henrique Dias que escreveram a rubrica para o 5 para a Meia-Noite e que viram agora ser adaptada aos palcos.

Apesar de não terem intervido em nenhum momento nesta transição, Frederico Pombares conta que “Sendo nós guionistas/argumentistas, estamos habituados a escrever para profissionais da representação. Aventuramo-nos a fazer aquela brincadeira, a pedido do Fernando Alvim, para que aparecesse no 5 para a Meia-Noite e nós, naquele ambiente de escrita que é o real, decidimos que o que podia ser que ocupasse pouco tempo, fosse simples e que não implicasse deslocação, nem caracterização, era aquele formato. Aquilo que são os skectches era o que efectivamente acontecia na nossa vida. Escrevíamos os textos para os outros, pegava-se numa câmara, filmava-se e nós continuávamos a escrever para os outros. E a nossa ideia a dada altura foi: ok, isto é giro connosco, já nos aventuramos, já brincamos tudo… agora vamos fazer isto com pessoas a sério, com actores a sério!”.

E foi assim que efectivamente tudo se sucedeu, tendo surgido os nomes de Bruno Nogueira, com quem Frederico Pombares e Henrique Dias dizem que “pessoalmente identificamo-nos muito a trabalhar e está muito na nossa onda de humor. Isto sai-lhe com muita naturalidade”; e de Miguel Guilherme, que “era a cereja no topo do bolo”.

Perante a pergunta do Cultura, Precisa-se? sobre a confiança nos resultados da passagem da televisão para o teatro,  Henrique Dias afirma que “pelas pessoas tínhamos logo um grau de confiança muito elevado, mas também estávamos na expectativa de saber como é que tudo ia resultar. E quando vimos pela primeira vez, apesar de já sabermos como era, ficamos muito surpreendidos mesmo assim, porque conseguiram algo ainda melhor do que estávamos à espera”.

Podendo o espectador procurar pelas posições originais, este irá encontrar algumas trocas nos textos derivadas da necessidade de fazer transições e de haver cortes. Pelo que, por vezes, o discurso do personagem Henrique pode ser dito por Frederico, e vice-versa. “O Bruno trata o Miguel por Henrique mas durante a peça há muitos diálogos que o Miguel diz que não eram meus, eram do Frederico, portanto o Tiago seleccionou os textos para conseguir o conseguiu que foi uma caracterização diferente dos dois personagens e a criação da dinâmica que é necessária num espectáculo”.

Acerca da escrita dos textos, Frederico e Henrique, que dão os nomes às personagens, revelam: “é algo que nos sai naturalmente e com alguma rapidez, até porque tem aquela ausência de lógica, em que se for preciso passar de mil folhas para uma raia, passamos. Desde que faça rir. O nosso objectivo não é fazer crítica social nem algo parecido, é unicamente fazer humor. Pelo que isto se torna intemporal, é daquelas coisas que tanto se pode ver agora como daqui a 40 anos. E se já gostavam dos sketches, agora é multiplicar o nosso por cem, com o talento do Miguel e do Bruno por cima, mais o do Tiago“.

O estreante encenador em comédia foi quem se seguiu. Tiago Guedes afirmou desde logo não ter visto todos os skectches mas, relativamente a estes, referiu que “na sua base são os dois autores a falar um com o outro, num plano fixo. Sabíamos que a passagem para o palco teria que deixar abrir um pouco, mas que não podia ser em demasia. A opção foi arranjar um enquadramento para os poder situar mas de forma a que se pudessem mexer minimamente para não termos dois actores um em frente ao outro o tempo todo. Foi um trabalho de contenção mas com um certo espaço de manobra”.

Perante o facto de nunca ter feito “humor puro e duro”, Tiago frisa o quão ” importante é sentir as pessoas, saber como é que as coisas lhes estão a chegar e o que é que funciona ou não”. Na pergunta sobre a possibilidade deste formato se esgotar, Tiago Guedes explicou que “este é um escritório do nada, tendo formalizado um bocadinho ao torná-lo mais cinzento e com isso mais abrangente. No original é um escritório mais criativo, de dois escritores, e nós quisemos aumentar o leque e não especificar, entrando num campo estranho que pode ser uma seguradora, ou sei lá o quê… Esse formalismo é depois cortado pelo modo como eles (Miguel Guilherme e Bruno Nogueira) agarram isto, a sua maneira de estar”. Fazer rir é mais difícil? “Não sei se é mais difícil, mas que é mais imediata a sensação se funciona ou não, sim essa é mais rápida e também mais clara. O riso não se disfarça. Ou se ri ou não se ri”.

Miguel Guilherme foi o inquirido seguinte. O versátil actor começou por falar das personagens: “são dois tipos muito parecidos que têm o mesmo tipo de linguagem e então, naquele momento de trabalho que nós não sabemos se não têm nada para fazer, ou se têm muito e são calões, atrevem-se a falar de tudo sobre a vida e com teorias muito próprias que cada um deles vai expondo e o outro vai rebatendo. E assim se vai estabelecendo uma espécie de duelo um bocadinho imbecil. No fundo todos nós temos este tipo de conversas, que todavia eles exageram. Mas a verdade é que nós muitas vezes gastamos palavras demais para não dizermos nada, e julgo que isso é para encobrir a realidade, levando a perpetuar ainda mais esse vazio de conteúdo”.

Trabalhar com o Bruno? “Nós já trabalhamos juntos e é sempre diferente de peça para peça, mas é evidente que ajuda imenso ter uma pessoa com quem se gosta de trabalhar e com quem se tem uma boa inter-relação. Começamos a criar uma linguagem comum de uma forma mais rápida. Mas para se manter essa ligação, é preciso que haja muita concentração, na medida em que esta peça não é uma peça física, não tem história”. Indagado sobre se haveria espaço para o improviso, Miguel responde que “dá espaço ao improviso, mas neste momento não o fazemos muito. Apesar desta peça dar largas à improvisação e os próprios autores o incentivarem, nós ainda temos que apanhar o centro da coisa. Só depois de alguma maturidade na peça e de se perceber bem o que se está a fazer e de que é que se está a falar.”

Miguel afirmou também ter feito questão de não ver os sketches pois diz que “principalmente se forem bons, fico só a pensar naquilo e não consigo desenvolver as minhas próprias ideias. Posso ver depois, mas nunca antes”. Desiludiu-se? “Já, mas também já tive o contrário. E a verdade é que também não há assim muitas coisas que eu tenha feito que tenham originais”.

O actor diz também que a sua natureza é a de comediante e não um humorista, mas o certo é que “estes últimos anos tenho sido escolhido para fazer coisas que até nem são totalmente cómicas, pelo contrário: ou são trágico-comédia  ou drama, como o Conta-me foi e o Blackbird“. Com personagens tão semelhantes, aquilo que na essência as distinguia “era o facto de eu ser mais velho. Depois também era muito obsessivo com os meus rituais, mais metódico. Já o personagem do Bruno é completamente baldas e mais brincalhão. Mas depois ia de arrasto…”.

Finalmente, e para encerrar o ciclo de entrevistas, aparece-nos Bruno Nogueira. A sua figura, que por si só o torna tão cómico, tinha um ar cansado, tendo nos dado a sua perspectiva acerca do trabalho com o Miguel: “a nível de trabalho foi muito simples. Entendemo-nos muito bem, juntamente com o Tiago. A verdade é que achávamos que a passagem dos textos para teatro seria mais simples do que efectivamente é, mas acabam sempre por surgir complicações pelo caminho que, contudo, fazem falta e são importantes para se evoluir. Mas aquilo que eu acho mais difícil é descomplicar”.

À reacção do público que já via os sketches, perante esta peça, Bruno afirma que “nós damos-lhe uma roupagem diferente. Não quer dizer que seja melhor ou pior. Este projecto só fez sentido porque um dos autores, neste caso o Frederico, sugeriu que isto fosse feito”.  Acerca dos sketches eleitos, Bruno refere que “havia unanimidade demais, tanto é que tivemos que cortar para fazer o tempo certo. A nossa maior dificuldade não foi juntar textos para formar o espectáculo, foi mesmo reduzir”.

Porquê a escolha de Tiago como encenador? “Eu já tinha trabalhado com o Tiago uma vez em cinema e o Miguel trabalhou com ele recentemente na Blackbird, e sempre quis voltar a trabalhar com o Tiago  porque para além de gostar muito dele em termos profissionais, é uma pessoa que tem uma maneira de ver as coisas como eu tenho e como o Miguel tem. E é isso que me move para trabalhar com as pessoas: que estejamos a rumar para um mesmo caminho e que tenhamos o mesmo ponto de vista sobre aquilo que se está a fazer. Por isso a maior parte das vezes andamos em cardume”.

Foi assim então que terminamos uma das primeiras conversas do Cultura, Precisa-se?, desta vez com o elenco da peça É como diz o outro. Esperamos que nos continue a seguir e que esteja sempre atento às nossas sugestões culturais que diariamente lhe fazemos no Facebook. Nós voltaremos ao Espalha-Factos já no próximo sábado com mais um leque diversificado de ideias para fazer do seu fim-de-semana um descanso cultural. Até lá, boa semana!