Já se sabe que juntar dois dos maiores nomes da comédia só poderia dar bom resultado. Bruno Nogueira e Miguel Guilherme estreiam amanhã É como diz o outro, baseada na rubrica homónima do talk show 5 para a Meia-Noite, e prometem fazer rir até não se aguentar conter as lágrimas nos olhos. Sobretudo nos tempos que correm, não se diz por aí que rir é o melhor remédio?

Henrique e Frederico são colegas numa empresa incógnita, num trabalho igualmente desconhecido. Passam o dia frente-a-frente, partilhando a secretária, conversando sobre tudo e nada, mas nunca os vemos realmente a trabalhar. Mudam de tema de conversa a cada minuto que passa: a vida de cada um e as suas dúvidas existenciais vão ocupando o tempo à medida que a conversa cai no ridículo e faz o público rir às gargalhadas.

É como diz o outro é uma boa peça, uma comédia que não aspira a ser mais do que é na realidade, e por isso mesmo concretiza os objectivos propostos. Não podia deixar de o fazer, dado que é interpretada por dois grandes actores e humoristas que, por mais diferentes que sejam, trabalham muito bem juntos.

Tiago Guedes, encarregue da encenação, compreendeu bem a capacidade cómica dos textos e deu-lhes o toque necessário para a adaptação teatral no espaço. O cenário é perfeito para a peça: um escritório absolutamente vulgar, sem nada que o distinga, que parece localizado ali no Parque das Nações; observamos a acção dentro do edifício e fora dele, com os carros a passar – só dentro do escritório dos intervenientes na peça é que nada parece acontecer para além daquela conversa contínua e ‘inteligente’.

Os ‘verdadeiros’ Henrique e Frederico são os argumentistas do 5 para a Meia-Noite que criaram a rubrica É como diz o outro. Adaptados ao teatro, os textos de Henrique Dias e Frederico Pombares ganharam uma valor humorístico consideravelmente superior ao que tinham na televisão, nomeadamente pela mudança de ‘mãos’. Bruno Nogueira e Miguel Guilherme souberam pegar bem neles e adaptá-los ao seu humor próprio, o que acaba por ser a alma da peça.

A verdade é que Bruno Nogueira tem piada mesmo quieto, sem fazer nada, só com aquela figura alta e magra que o caracteriza. O seu Frederico é confiante, convencido, vai almoçar e volta com alucinações, conta piadas secas e dá explicações nonsense para as coisas mais banais. Há alturas em que conseguimos ver nele um Pombares fisicamente diferente, mas com a mesma facilidade em dizer parvoíces. No entanto, é fantástica a forma como personaliza cada piada e como consegue torná-la sua, por exemplo quando fala (mal) inglês ou fazendo lembrar a sua ‘personagem’ no programa Último a Sair.

Quanto a Miguel Guilherme, é um excelente actor, tanto no drama como na comédia, embora tenha uma figura mais austera, derivada do cabelo grisalho que, supostamente, lhe daria mais juízo. Mas não. A sua personagem é complexa – um homem super organizado que tem um programa de rádio, um piercing no rabo e está a tirar um curso de hipnotismo. Destaca-se totalmente do Henrique ‘original’, no bom sentido, e o seu talento revela-se em pequenos momentos como o fast forward da hora de almoço.

Uma história de um retiro espiritual, uma sessão falhada de hipnotismo, uma tentativa de escrever uma canção sem a palavra ‘velha’, uma teoria sobre o nascimento dos gémeos verdadeiros e falsos, uma anedota deliciosa, uma outra história sobre uma raça de cão… Tudo faz parte das conversas que temos com os nossos amigos e que, sem nos apercebermos, e apesar de começarem bem, acabam por cair no ridículo. É como diz o outro troça dessas situações e leva-nos a rir delas, dos protagonistas e de nós próprios, ao mesmo tempo.

Chorar a rir é inevitável, sobretudo quando nem os actores conseguem manter a compostura e acabam por se desmanchar com as palavras que lhes saem da boca. São quase duas horas muito bem passadas, recheadas de boa disposição, e que valem particularmente pela cumplicidade entre Bruno e Miguel, dado que é uma peça de interpretações. São tão diferentes física e intelectualmente, mas é maravilhoso ver como se conseguem encaixar tão bem no humor. Que não tenhamos de esperar outros quatro anos para os ver juntos em palco.

É como diz o outro, o melhor é verem com os vossos próprios olhos. No Auditório dos Oceanos do Casino de Lisboa, a partir de 6 de Setembro.

Créditos fotográficos: Ricardo Alevizos

Ficha Artística

Título Original: É como diz o outro

Textos: Frederico Pombares e Henrique Dias

Encenação: Tiago Guedes

Cenografia: José Pedro Penha

Vídeo e desenho de luz: Artica.cc

Com: Bruno Nogueira e Miguel Guilherme