Independentemente da idade que temos, estamos sempre a aprender e a conhecer coisas novas. Somos constantemente ‘beginners’, caloiros, principiantes, novatos, nas diversas experiências da vida. Assim é o Amor, estreado esta semana nos cinemas portugueses, mostra de forma simples mas peculiar a descoberta do amor por parte de Oliver, à medida que vai recordando a relação com os pais.

Oliver é um homem de 38 anos que perdeu o pai há alguns meses e conhece uma rapariga misteriosa numa festa. A relação com Anna vai-se desenvolvendo e, em simultâneo, Oliver relembra o pai Hal, que após a morte da esposa, aos 75 anos, assume que é homossexual e começa a namorar Andy, um rapaz muito mais novo. A doença de Hal e as memórias de infância são o pano de fundo da vida de Oliver em 2003, enquanto descobre o que é o verdadeiro amor.

É interessante acompanhar os flashbacks de Oliver, quase imperceptíveis mas plenamente compreendidos, ao revisitar o seu passado. A relação forte com a mãe quando era criança, o distanciamento sentido em relação ao pai, a fraca ligação entre os pais – tudo isto contrasta com a relação forte com o pai após a tomada de conhecimento do seu segredo, bem como da doença de que padece, e com o amor existente entre Hal e Andy.

Em todas as relações amorosas que teve e falharam, o modelo de romance que Oliver tinha era o dos pais, que nunca se amaram plenamente, dada a orientação sexual de Hal. Quando conhece Anna, é dessa relação que lhe chegam as hesitações, mas é de um segundo exemplo – a relação de Hal e o namorado – que lhe chega igualmente a esperança. Assim, a pouco e pouco, Oliver vai aprendendo a amar, ao lado da irreverente Anna, e a perder o medo do fracasso das relações.

Ao mesmo tempo, Oliver confronta o mundo em que vive em 2003 com o contexto social em que o pai descobriu a sua homossexualidade, nos anos 50. Hal nunca teve a oportunidade de viver a vida que queria, pois gostar de alguém do mesmo sexo era visto como uma doença. Já Oliver tem a vida facilitada, no entanto acaba por a complicar com a elevada consciencialização das coisas, de que tem de se libertar de modo a dar espaço às emoções.

Assim é o Amor relata uma história muito simples, aparentemente sem muito para contar. Contudo, há um enorme significado nos pormenores que vale a pena ser relatado, e que felizmente Mike Mills soube ver e transmitir, o que não podia deixar de ser, já que viveu e escreveu o argumento. O que vemos é o mundo através dos olhos de um homem que ainda se está a descobrir, apesar dos já 38 anos. E à medida que Oliver se vai ‘entranhando’ nos espectadores, também estes se sentem numa aprendizagem constante, sendo obrigados a reflectir sobre a vida.

Ewan McGregor mostra, uma vez mais, a sua versatilidade enquanto actor, interpretando um Oliver sofrido, receoso, mas também curioso. Parece que escolhe a dedo os papéis que interpreta e fá-lo sempre de forma a dar o seu toque pessoal, o que é sem dúvida louvável, para além de ter compreendido perfeitamente a intenção do realizador. O talento de Christopher Plummer já é bem conhecido, mas o actor não deixa de surpreender, no papel de Hal, mostrando uma grande capacidade de adaptação ao texto. Quanto a Mélanie Laurent, é uma excelente actriz, com uma aura francesa que só a favorece, oferecendo-lhe sempre um ar misterioso e sensível que agrada a qualquer público.

Do elenco principal faz ainda parte Arthur, uma personagem que, apesar de não ser humana, acaba por ser uma das mais importantes do filme: trata-se do cão de Hal que, após a sua morte, fica a viver com Oliver e protagoniza grandes momentos de diversão. A faceta cómica do filme advém sobretudo do animal de estimação, conjugando-se na perfeição com o drama e a tragédia do resto da história. Ao mesmo tempo, pode ser visto como uma aventura de Oliver pelos caminhos do amor; uma espécie de aventura interior.

Mike Mills realiza aqui um filme original, interessante, que capta a atenção até ao final e que deve ser revisto para poder ser verdadeiramente assimilado. O tom, talvez documental, que o realizador vai introduzindo ao longo do filme através de pequenas introduções sobre cada período histórico referido, são de uma originalidade que foge a todas as convenções do cinema. E a banda sonora que acompanha a imagem é maravilhosa, recheada de música clássica e instrumental.

Assim é o Amor é sobretudo um filme sobre as relações humanas, a confiança, as expectativas, a descoberta. É um filme sobre a vida; no fundo, um filme sobre começos. Porque nunca é tarde para (re)começar.

7,5/10

Ficha Técnica

Título original: Beginners

Realizado por: Mike Mills

Escrito por: Mike Mills

Elenco: Ewan McGregor, Mélanie Laurent, Christopher Plummer, Goran Visnjic, Kai Lennox

Género: Comédia, Drama

Duração: 105 minutos