Wouter De Backer, mais conhecido por Gotye, é um artista de nacionalidade australiana, nascido em Bruges, na Bélgica, que desde 2001 se dedica à música, com especial foco no rock e pop experimental e independente. Tendo lançado dois discos que passaram relativamente despercebidos pela crítica, Boardface (2003) e Like Drawing Blood (2006), Gotye chega-nos em Agosto deste ano com Making Mirrors, que promete ser uma rampa de lançamento para vôos mais grandiosos. 

Começo por dizer que não fiquei muito fã dos dois primeiros discos de Gotye, talvez por serem muito experimentais e pouco acessíveis, o que me levou a ficar com as expectativas em baixa para este terceiro LP. No entanto, quando ouvi Making Mirrors, confesso que fiquei maravilhado. Mostrando uma mudança completa de postura e de sonoridade, este álbum é dos melhores que já ouvi este ano.

Ao passo que Boardface e Like Drawing Blood eram difíceis e muito cerebrais, este Making Mirrors mostra um Gotye muito mais acessível, com uma abordagem muito mais pop do que nos seus antecessores. Apesar de se notar uma certa continuidade na forma como Backer se expressa, especialmente ao nível das letras e dos vocais, a verdade é que a sonoridade e a abordagem musical diferem substancialmente, e isso fez com que este disco me agradasse imenso.

Não se pode dizer que Making Mirrors seja um álbum que tenha uma linha condutora ou um som que abranja todo o disco, mas é, isso sim, uma colecção de canções que muitas vezes contrastam directamente entre si. Contudo, Gotye conseguiu usar esta heterogeneidade a seu favor, atingindo um balanço perfeito entre géneros tão díspares como o rock cheio de distorção de Easy Way Out,  o soul que pisca o olho à motown vista em I Feel Better, ou ainda a electronica de Giving Me a Chance.

Contudo, há  um élan de indie pop que percorre todo o disco, e mesmo que a canção chegue a ser um “desvario” electronica com toques de dub, como é o caso de State of the Art, a verdade é que Gotye nunca perde a identidade, e a sua assinatura musical está sempre presente. A juntar a isto está a produção (a cargo de Backer) clara e límpida, e que se enquadra perfeitamente no ambiente do álbum. Todos estes factores fazem de Making Mirrors um disco brilhante e quase perfeito.

Na hora de apontar defeitos, não posso dizer que tenha muitos argumentos. A faixa-título Making Mirrors, que serve de introdução ao álbum, podia ser mais apelativa, e duas canções presentes no disco não estão tão do meu agrado quanto as outras. No entanto, são apenas dois pequenos reparos num álbum de grande categoria.

As tais duas faixas “menores”, Smoke and Mirrors e Don’t Worry, We’ll Be Watching You, apenas pecam por não estarem, a meu ver, à altura das restantes do álbum. Mas não admira, quando no resto do LP temos peças como a enérgica Easy Way Out, a poderosa Eyes Wide Open, a viciante Save Me, ou a minha preferida, Somebody That I Used To Know, uma faixa verdadeiramente tocante, e uma das melhores canções que já ouvi este ano.

Resumindo, Making Mirrors é a obra-prima de Gotye, e mostra um salto criativo tremendo em relação a Like Drawing Blood. A originalidade, e acima de tudo, a qualidade das canções do álbum fazem deste registo um dos melhores de 2011, e sem dúvida material digno do meu Top 10 de final de ano. Só é pena que estes 42 minutos me saibam a pouco. Mas felizmente, este Making Mirrors é daqueles álbuns que nunca cansam. Sem dúvida, um LP obrigatório.

Nota Final: 9,0/10