O cartaz foi equilibrado e houve concertos muito marcantes, como o de Gabriel o Pensador. Mas o que distinguiu o Festival Serra da Estrela de todos os outros foi a beleza natural que o envolveu, a animação na praia fluvial e o carisma de quem nele esteve presente.

Durante as três tardes de festival actividades não faltaram. Houve animação de rua a cargo dos Serrabecos, banda que actua com máscaras de animais selvagens; workshops de didgeridoo; sets de Dj; malabarismos; rappel, escaladada e tiro com arco e zarabatana; e muitos mergulhos nas águas absolutamente límpidas do rio Zêzere. Só as aulas de ski e snowboard tiveram um preço acrescido. Tratando-se este de um festival de médias dimensões, muitas das actividades decorreram no mesmo espaço: o ambiente gerado foi muito relaxante e agradável.

Olhar para o céu era uma actividade que, embora não estivesse programada no cartaz, também causava boas sensações: de dia, viam-se bandos de parapentes; à noite, um céu estrelado muito raro. A oferta alimentar nas roullotes não era muito diversificada nem saudável, mas o parque de campismo dispunha de um mini-mercado com produtos bem mais aconselháveis.

Nas duas primeiras noites o palco foi inaugurado, respectivamente, pela Orquestra de Sopros Música Nova e pela Escola de Música Boa União. Embora não se tratando de um estilo de música apropriado para um festival deste género, a verdade é que estas orquestras têm, efectivamente, valor e apesar de ninguém estar aos saltos, as músicas tocadas (medleys de Rolling Stones e António Variações, por exemplo) ficam registadas no ouvido. Este festival era uma montra e foi uma excelente ideia dar oportunidade aos artistas do concelho para se promoverem.

É difícil escolher os melhores concertos deste Festival Serra da Estrela. Os estilos foram diversos (desde o reggae até ao folk), as bandas do cartaz têm um espaço importante no panorama nacional e cada concerto teve alguns momentos especiais.

O concerto dos Virgem Suta, no dia 25, estava a ser morno, mas bastou serem tocadas músicas como Dança de Balcão, Brinde a vós ou Linhas Cruzadas para a plateia ficar eufórica. No encore, Tomo Conta Desta Tua Casa teve direito a invasão de palco (e está tudo dito quanto à festa proporcionada). Sean Riley & Slowriders exibiram toda a sua boa forma e Marcelinho da Lua, sem surpresa, conquistou com os seus hits.

Oquestrada (no segundo dia) foi, sem qualquer dúvida, uma aposta ganha: cumplicidade com o público de início ao fim, dança e muitos abraços. Já os Teratron resultam muito melhor em concerto do que seria de esperar ouvindo o álbum: um som muito pujante e uma história misteriosa que, embora difícil de compreender na íntegra, tem excertos completamente arrebatadores. A presença de Adolfo Luxúria Canibal em palco impõe respeito. “Eu tenho alegria dentro do meu coração“: Os Pontos Negros confessaram que foram muito criticados por este verso, por ser uma terrível banalidade, e explicaram que, nos dias que correm, “ter alegria no coração” em estado puro  não é assim tão vulgar. Eles não precisam de provar que sabem construir boas letras.

Para o último dia estava reservado o melhor: Gabriel o Pensador. Os mais velhos poderão dizer que já passou o auge da carreira, mas as músicas do poeta social mantêm-se (infelizmente) completamente actuais e a sua presença em palco é brilhante. Carrega verdade no semblante e interage com o público na dose ideal. Chamou dois fãs ao palco em Rap do Feio e 2345meia78 e estatelou-se no chão em Resto do Mundo, enquanto descrevia a vida numa favela. Foi um enorme privilégio ter um artista deste calibre neste festival (muitos jovens do interior do país nunca teriam a oportunidade de o ver noutra ocasião senão esta). O concerto de Gabriel o Pensador foi precedido por Freddy Locks e Kumpania Algazarra: o primeiro dedicou músicas a quem acredita no amor e na verdade e insurgiu-se contra os corruptos; já a vigorosa banda (que “incendiou” a noite) sugere a festa para ultrapassar a crise de valores. Uma noite carregada de música de intervenção de qualidade.

Depois de dois anos de interrupção, por falta de apoios, esta foi a primeira vez que o Festival Serra da Estrela decorreu nas margens do Rio Zêzere. Naturalmente, espera-se que nos próximos anos aumente a fasquia do cartaz e as dimensões do evento. Só pode haver óptimas perspectivas, tendo em conta que este primeiro patamar foi já consideravelmente elevado.