Há cem anos, Portugal dava os primeiros passos no mundo do cinema. Manoel de Oliveira já era nascido e a República Portuguesa tinha acabado de ser instaurada. No nosso país, estreava-se a primeira longa-metragem de ficção, Os Crimes de Diogo Alves, poucos anos antes da criação de uma verdadeira indústria cinematográfica. Cem anos depois, podemos conhecer toda a história na exposição Cinema em Portugal: Os Primeiros Anos.

Inaugurada em Dezembro do ano passado, a exposição temporária foi prolongada por mais cinco meses, podendo ser vista até ao próximo dia 2 de Outubro. Cinema em Portugal: Os Primeiros Anos está patente no Museu da Ciência da Universidade de Lisboa, na Rua da Escola Politécnica, numa organização conjunta entre a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República e a Cinemateca Portuguesa.

Mais de 300 itens, entre imagens, documentos, posters e objectos, compõem a exposição, que pretende dar a conhecer, aos visitantes, “a História de Portugal através da história do cinema que era exibido e feito”. As declarações são de Tiago Baptista, um dos responsáveis pela mostra, que falou à Agência Lusa aquando da sua inauguração. Esta história de que fala vai desde o final do século XIX, com os primórdios do cinema no mundo e a sua chegada a Portugal, aos anos trinta do século XX, com a apologia do cinema sonoro.

À entrada, um dos grandes nomes do cinema é recordado através de um aparelho revolucionário na época, um dos primeiros transmissores da imagem em movimento: trata-se de uma réplica do Kinetoscópio de Thomas Edison, que transmite um filme mudo em película. Também os irmãos Lumière têm direito a uma presença na mostra, com um raro projector Lumière, de finais do século XIX.

Cinema em Portugal: Os Primeiros Anos inclui igualmente uma réplica de uma sala de cinema dos anos 20 e 30, na qual são exibidos alguns filmes mudos portugueses, incluindo o já referido Os Crimes de Diogo Alves, do realizador João Tavares, e Douro, Faina Fluvial, de Manoel De Oliveira. No mesmo espaço, o espectador toma conhecimento dos seus ‘mandamentos’, que incluem levantar “sempre que uma senhora deseje passar” e frequentar “o cinema pelo menos uma vez por semana”.

Documentos e folhetos oferecem aos visitantes outra realidade: apesar do mutismo dos filmes, as salas de cinema da época não eram espaços silenciosos. Protestos contra o projeccionista e piropos às mulheres faziam parte de uma ida ao cinema, um dos poucos locais em que os dois sexos podiam conviver livremente. Daí que os mandamentos servissem apenas de orientação para os espectadores de cinema, que viam mais aquele espaço livre como pretexto para rituais sociais do que propriamente para visualizar o que a tela exibia.

Manoel de Oliveira já era desse tempo. O realizador merece destaque na exposição com um núcleo exclusivamente dedicado à rodagem do seu primeiro filme, Douro, Faina Fluvial, com revistas e fotografias detentoras de referência à curta-metragem documental. Foi em 1931 que o realizador mais velho do mundo em actividade iniciou a sua carreira, completando assim este ano 80 anos de realização, de entre os seus quase completados 103 de vida.

A exposição revisita também os primeiros estúdios portugueses, após o pioneirismo de Aurélio da Paz dos Reis: a Portugália Film, fundada em 1909, em Lisboa; a Invicta Film, sediada no Porto, destacando-se nos anos 20, ou a Tobis Portuguesa, já nos anos 30. É a época inicial do Estado Novo, quando o cinema começa a ser utilizado com fins políticos. Mas é também a época do cinema sonoro, que exigiu mudanças radicais nas mentalidades e um período de transição para o cinema se adaptar às novas exigências.

O que fica para a história são as grandes produções que marcaram o início do cinema sonoro no nosso país. A Severa (1931), de José Leitão de Barros, torna-se o primeiro filme português totalmente sonoro, seguindo-se êxitos como a comédia A Canção de Lisboa, em 1933, realizada por Cottinelli Telmo. Cartazes destes e de outros filmes cobrem as paredes da sala em que se encontram expostos quadros e documentos relativos aos primeiros passos que Portugal deu na história do cinema.

Entre as peças expostas, nomeadamente fotografias e revistas da época, começam lentamente a desenhar-se as tendências do cinema moderno, com a diversificação de géneros e técnicas, o nascimento das ‘estrelas’ e de uma verdadeira indústria cinematográfica, que leva à massificação do cinema enquanto bem.

Um mapa mostra as salas de cinema existentes em Portugal nos anos 20 e 30, e um estúdio de cinema da época é reconstituído num outro núcleo, dando a conhecer os clássicos espaços de rodagem. Os primeiros aparelhos de cinema em casa, também presentes na mostra, reflectem a transmissão da ‘moda’ para os domicílios, permitindo a cada qual não só ver, como também fazer os seus próprios filmes. Muita coisa mudou desde os tempos dos irmãos Lumière e é esta evolução que a exposição temporária procura oferecer aos visitantes.

Cinema em Portugal: Os Primeiros Anos regista não só a história do cinema, como também a própria história portuguesa do virar do século, com a instauração de um novo regime e de uma nova forma de encarar o mundo. O cinema português, no entanto, nem sempre é valorizado cá dentro, pelo que esta pode ser uma boa oportunidade de demonstrar a sua relevância, pelo menos ao nível documental. Até 2 de Outubro, as portas continuam abertas para todos os que quiserem conhecer um pouco mais acerca do seu país.