Ao longo de cinco temporadas, os Walker tornaram-se quase uma família amiga, com a qual rimos e chorámos, acompanhando todas as vitórias e todos os dramas que lhes tocaram o coração. Cinco anos depois, o último episódio de Irmãos e Irmãs é hoje emitido na FOX Life, chegando ao fim no nosso país. Vai deixar muitas saudades.

Há algo em Irmãos e Irmãos que nos vicia, que nos leva a querer saber sempre mais sobre os Walker e enfrentar lado a lado as suas aventuras. O que se previa, nos primeiros episódios, vir a ser algo interessante de acompanhar, tornou-se, nestes cinco anos, uma série divertida e intensa, verdadeiramente encantadora. Para quem acompanhou na FOX Life, as noites de terça-feira tornaram-se sagradas e não se podia perder um episódio da série que nos preenchia a cada um dos quarenta e cinco minutos passados. O criador Jon Robin Baitz tem aqui todo o mérito, sempre com a notória influência de Ken Olin.

Irmãos e Irmãs ganha, em primeiro lugar, pelas personagens. Não são personagens planas, sem substância, pelo contrário, são homens e mulheres com inúmeros defeitos, com os quais nos identificamos, e isso é absolutamente fundamental para o sucesso da série. É inevitável referir a matriarca Nora, uma Sally Field absolutamente fantástica, que apoia os filhos em tudo e ainda arranja tempo para ter as suas próprias peripécias.

Sarah é a filha mais velha do clã Walker, determinada mas nem sempre segura, assumindo as responsabilidades do pai na empresa de família e lutando também por uma vida amorosa mais estável e duradora. O surgimento de Luc na série e tudo o que dele advém é sem dúvida uma mais valia, não só para Sarah, mas para toda a história, que ganha uma cor diferente. Já Tommy, o segundo mais velho, é o que acaba por merecer menos apreço por parte dos espectadores, afastando-se de Pasadena e da própria série, a certa altura.

Por seu lado, Kitty acaba por ser uma das personagens mais destacadas, vivendo uma vida cheia, mas difícil, sobrevivendo a inúmeros dramas pessoais e profissionais que tem de atravessar. Felizmente tem sempre um sorriso na cara e a nossa simpatia por ela nunca se desvanece. Outro irmão que nos causa uma enorme simpatia é Kevin, o advogado homossexual que sabe bem o que quer da vida e que também ganha imenso com a presença do namorado Scotty, tornando-se este um verdadeiro Walker.

Resta Justin, o mais novo e também um dos mais sofredores da família. Ele atravessa a reabilitação, a guerra, amores perdidos e a verdadeira transformação da sua vida, sendo sempre uma personagem querida e pela qual nos sentimos especialmente protectores, talvez por Nora o ser particularmente em relação a ele. Temos ainda de referir o tio Saul, sempre presente, embora por vezes injustamente posto de lado da acção principal, que é quase um pai para os irmãos e irmãs e um avô para os filhos destes, revelando-se já tardiamente na trama.

Não nos podemos esquecer que tudo começa com a morte do pai da família, cuja verdadeira personalidade apenas se revela à família após a sua morte, logo no primeiro episódio. É o casamento de Nora e William que é colocado em perspectiva ao longo de toda a série, com as traições deste em grande plano, com desilusão atrás de desilusão, e nem na season finale conseguimos perdoar o homem que introduziu no mundo mais um Walker.

Muito mais se podia dizer acerca destas personagens, tão ricas e diversificadas, que no entanto se integram tão bem no panorama geral da série. E uma coisa é falar delas na primeira temporada e outra na quinta: a evolução que todas, sem excepção, sofrem ao longo da série, é absolutamente estonteante. O que cinco anos e uma enorme quantidade de acontecimentos fazem nas vidas dos Walker é o que Irmãos e Irmãs nos mostra de forma original, divertida e dramática, em simultâneo. E com um elenco recheado de grandes actores e enormes interpretações.

Este dramatismo de que a série é constantemente provida acaba por ser algo exagerado, por vezes, mas não ao ponto de deixar de ser credível. Simplesmente nos parecem demasiados dramas, olhando em retrospectiva para os finais de temporada e para o que cada personagem sofreu, com a abordagem de situações como o cancro, as drogas, a guerra, a corrupção, a adopção, acidentes e problemas de saúde… Contudo, são exactamente todos estes momentos que tornam cada um dos Walker uma pessoa diferente, mais vivida, com cicatrizes, mas ainda assim feliz com o que o presente lhe proporciona.

Até porque o humor está sempre presente em Irmãos e Irmãs e não há episódio que não nos arranque uma gargalhada. Seja pela falta de comunicação entre os membros da família ou pela comunicação exagerada de todo e qualquer pormenor que deveria ser mantido em segredo, os Walker sabem fazer rir e é impossível não nos comovermos com esta maravilhosa mistura de sensações.

E se na nossa família todos contam tudo a todos e não há segredo que escape, entre os Walker é multiplicar isso por três ou quatro. Uma chamada telefónica é suficiente para se transmitir uma novidade ou uma simples coscuvilhice, pois tudo acaba por se saber, independentemente de ser ou não uma confidência. Se há algo que a família Walker não sabe fazer é guardar um segredo.

Os maiores momentos de comunhão da série são os quase patenteados jantares em família, na fantástica casa de Nora em Pasadena, seja pelo Natal, pelo dia de Acção de Graças, quando os Walker têm algo a partilhar uns com os outros ou vieram apenas visitar a mãe. Alguns correm bem, com sorrisos e um ambiente harmonioso, mas a grande maioria acaba em discussão, em bocados de comida a voar ou simplesmente numa atmosfera muito constrangedora. São sempre grandes momentos de humor, que despertam o interesse de quem está deste lado a acompanhar as aventuras e desventuras desta família complexa e peculiar.

No final tudo se resume ao próprio conceito de família, ao que ela significa para cada um deles e a forma como a sua evolução não poderia ter sido diferente, unindo-os os laços que os unem. Agora tudo acaba e somos obrigados a despedir-nos de vez dos Walker. Dos seus interesses românticos, dos seus inimigos, das suas casas, dos seus momentos altos e baixos, dos seus segredos. Agora só os poderemos recordar através das cinco temporadas gravadas e imaginar que eles ficaram felizes e unidos, com todos os dramas à parte. Já estamos com saudades.