Ele canta, ele toca, ele conquista o público com um só sorriso comovido. A fechar a 8ª edição do Cool Jazz Fest, no Hipódromo de Cascais, seis anos depois de também ali se ter estreado em concerto no nosso país, Jamie Cullum ofereceu ao público um grande espectáculo, recheado de jazz, pop e muita diversão, encantando e arrasando por completo o auditório lotado.

A abrir o concerto do cantor esteve uma Luísa Sobral encantadora, vestida de vermelho, a apresentar o seu álbum The Cherry on My Cake. Apesar de o público ainda ser reduzido, Luísa falou de como surgiu Clementine, contou a história de Rose e apresentou o seu novo single, Xico, que promete ser um novo êxito. Num momento imprevisível, encantou ainda com uma versão de Toxic, de Britney Spears, mostrando o seu lado “popstar”; e mais tarde homenageou Amy Winehouse ao cantar Valerie. Se Jamie Cullum a tiver/tivesse ouvido, decerto concordaria de que se trata uma das melhores vozes portuguesas da actualidade.

Após este ‘aquecimento’ simpático, o anoitecer viu finalmente surgir em palco o aguardado Jamie, de fato e gravata, sempre sorridente e vigoroso. Depressa despe o casaco e a camisa para ficar de t-shirt, qual miúdo a quem só apetece apertar as bochechas, como o músico britânico parece sempre, um miúdo. Os 31 anos não o impedem de saltar duas vezes do piano, benzendo-se antes, terminando sempre o salto com corridas enérgicas pelo palco.

Abre o espectáculo com Photograph, seguindo-se I Get a Kick Out of You e Get Your Way, sequência na qual o próprio Jamie revela aos ausentes que “não perderam nada”. “Dancem, atirem coisas, façam o que quiserem, mas divirtam-se”, diz nos primeiros minutos, depois de perguntar, em português, “Tudo bem, Cascais?” e de louvar o vinho e a comida, pois não é em todos os lugares que se encontra a beleza de Portugal. Prossegue com Not While I’m Around, Twentysomething e Come Together, dos Beatles, que o público entoa em uníssono.

Um dos primeiros grandes momentos da noite, deixando a lágrima ao canto do olho, acontece quando um casal se levanta e começa a dançar apaixonadamente ao som dos primeiros acordes de If I Ruled the World, em frente ao palco. Jamie felicita-os no final e continua o espectáculo com Don’t Stop the Music, a canção de Rihanna que só dá gosto ouvir quando é cantada por ele, e que aqui durou quase dez minutos de puro êxtase. Os já clássicos I’m All Over It e Mindtrick completaram esta sequência, que culmina no abandono das cadeiras e na transformação da plateia sentada em plateia em pé, até ao fim das duas horas de concerto.

Mais uma homenagem a Amy Winehouse, com Jamie a cantar baixinho Love is a Losing Game, sem interrupções, num momento também para recordar. These are the Days, All at Sea e What a Difference a Day Made são três canções belíssimas que o público soube acompanhar, arrancando sorrisos comovidos ao próprio Jamie, que de quando em vez se entretinha a ‘roubar’ à sua banda a bateria e a percussão para mostrar que o piano não é o único instrumento que consegue tocar, pelo contrário.

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No entanto, é no piano que Jamie dá o seu espectáculo musical e visual, saltando, tocando em pé, com expressões faciais de verdadeira emoção. O músico sente e vive efectivamente o que toca e canta, tanto nos longos solos como nas músicas em que abandona o piano para cantar em frente à plateia. E cansa-se, como seria de esperar, no final de cada canção que parece dar a vida para tocar, sentando-se numa destas vezes à beira do palco para descansar. O público aplaude, como sempre, rendido ao seu encanto.

Comovido com a cumplicidade que sente relativamente ao público português, Jamie elogia-o pela emotividade, em contraste com o público inglês, mais retraído, recordando a sua última visita ao nosso país: “Parecia que a plateia tinha tomado esteróides, mas depois lembrei-me que vocês são mesmo assim, mostram as vossas emoções, e nós gostamos disso”.

Esta emotividade é evidente ao longo de todo o espectáculo, sobretudo a partir de Mixtape, quando as vozes vindas do público quase se sobrepuseram à voz de Jamie. Atingiu o auge em High and Dry, original dos Radiohead, com o músico a dividir o público em três partes que entoavam sons diferentes, numa grande harmonia com a sua própria voz. Wind Cries Mary, de Jimmy Hendrix, é outra das covers que Jamie escolheu cantar, numa noite em que, dizia, não fazia a mínima ideia do que seria o alinhamento do concerto.

O encore que finalizou o espectáculo não poderia ter sido um momento mais perfeito. Comovido, surge em palco um Jamie sem a sua banda, simplesmente acompanhado pelo piano, na última canção desta sua passagem por Portugal. E que música. “Ternamente”, Gran Torino é ouvida e cantada por todos os presentes no hipódromo, com muito mais tranquilidade do que o rock anteriormente introduzido pelas supostas últimas canções. Ainda bem que regressou para mais uma e ainda bem que a escolhida foi esta canção que comove qualquer um.

Podemos dizer que só faltaram alguns dos seus êxitos, como Wheels e Everlasting Love, para tornar ainda mais perfeitas as duas horas de concerto; contudo, estas encheram bem as medidas. O público a entoar as suas canções mesmo quando Jamie estava ausente do palco, demonstrando todo o seu amor, é algo que sabe tão bem sentir na pele. Não admira que, para ele, sejamos “incríveis”, e que as suas últimas palavras tenham sido “Voltamos quando quiserem, queremos muitas mais noites como esta”.

Com um novo álbum em vista para o próximo ano, a suceder a este The Pursuit, esperemos voltar a estar na rota de Jamie Cullum para mais um grande concerto. Esta sexta-feira, o Hipódromo de Cascais recebeu-o calorosamente e em troca recebeu também um caloroso espectáculo, que dificilmente terá desiludido algum dos presentes. Jamie, por mais pequeno que sejas, para nós és enorme, um verdadeiro senhor. “Obrigado“, e volta depressa!

Créditos fotográficos: Manuel Lino (TVI 24 – IOL Música)