Um frio de gelar os ossos, uma plateia cada vez mais recheada, a ansiedade de ouvir o canto azul e a expectativa no olhar de cada um. Era assim a chegada ao recinto do Hipódromo Manuel Passolo em Cascais, na sexta-feira, bem como a espera que as luzes se apagassem e se começasse a ouvir os primeiros sons.

Pouco passava das 21h20 quando Adriana subiu ao palco para abrir o concerto do Seal. Com uma apresentação um pouco tímida, a cantora portuguesa rasgou as primeiras notas de Sem Fazer Planos. Aos poucos, o público começou a entrar no ritmo da artista que, a meu ver, peca nas letras das canções de tão pobres que são. Mas foi com o single Cara ou Coroa que Adriana demonstrou que a sua boa voz pode conseguir captar a atenção de uma plateia ansiosa e inquieta pelo cantor britânico.

Após uma pausa de cerca de quinze minutos, a banda do cantor inglês começou a tocar os primeiros acordes da primeira música do último álbum, Commitment. If I’m Any Closer foi o mote de abertura daquele que viria a ser um grande concerto. Com uma energia invejável, Seal entrou no palco do Cool Jazz e fez a plateia abandonar as cadeiras e aproximar-se do palco. Desengane-se quem pensava que este era um concerto para ver confortavelmente sentado; o cantor ajudava o público a combater o frio e pedia, diversas vezes, para as pessoas se mexerem, se aproximarem, dançarem e cantarem.

Com simpatia, humildade e honestidade do início ao fim e um sentido de humor refinado, Seal conduziu aquele que foi, para mim, o melhor concerto que já vi. Entre saltos, danças, comentários e desabafos, o artista cantou alguns dos seus maiores êxitos com a ajuda de todo o público presente. Love’s Divine e Kiss From a Rose foram as músicas chave para nos apercebermos que os portugueses nutrem um carinho especial pelo cantor britânico, que já tinha actuado em Portugal e esgotado o recinto, no mesmo festival, há dois anos atrás.

httpv://www.youtube.com/watch?v=C9k9vuBedYY

Seal nunca deixou de explicar as histórias da sua música. Nunca contou uma história superficial. Nunca manifestou desinteresse em estar no Cool Jazz, afirmando que, no seu penúltimo concerto da tour, aquele era o sítio onde mais queria estar.  Ao longo da noite, aquele parecia, de facto, o melhor sítio para se estar. Seal deixou-se, pois, levar ao ritmo das suas próprias canções e abraçou o espírito do público que o segue há alguns anos.

Comovendo os mais sensíveis, o cantor fez as delícias dos portugueses ao explicar ao público que o seu mais recente single, Secret, é dedicado à sua filha, e não à sua mulher, Heidi Klum, como a maioria pensava. O mesmo aconteceu com a música Silence, do seu novo álbum, que retrata a sua vida pessoal, fundida com o seu trabalho de artista: viajar e estar longe de casa e das pessoas que ama durante meses. Uma realidade próxima de todos nós contada em versos melodiosos.

httpv://www.youtube.com/watch?v=vOuL2AnJPok&feature=relmfu

Do novo álbum, Seal cantou quase todas as músicas, mas não parou de evocar os seus primeiros discos, que fizeram com que a sua carreira, de cerca de 21 anos, se consolidasse. My Vision, Dreaming In Metaphors, It’s a Man’s World, Crazy e Amazing foram, a meu ver, os momentos mais altos da noite, que fizeram com que todos os presentes cantassem em uníssono e marcassem presença no Hipódromo.

Por vezes é isso que faz um concerto: a verdadeira presença do público e a entrega total do artista. Um dar e receber constante e forte. Mais do que a presença em palco, que Seal tem como que um dom natural, o elo de ligação que conseguiu criar com as pessoas foi algo que  nunca vi em nenhum concerto a que já assisti. Só assim se congela uma noite daquelas para sempre na memória do público.

Na verdade, não há palavras para descrever a actuação de Seal. O concerto, que durou cerca de duas horas, nunca chegou a perder o ritmo ou a ser entediante. Enquanto fã do seu trabalho, não queria que alguma vez acabasse. Não queria perder nem um segundo do espectáculo que decorria em cima do palco e no relvado; a energia que transbordava em cada canto do Hipódromo. O jogo de cores, sons e luzes. Não queria que Seal se calasse, se despedisse. Este foi, mais do que um concerto para ver, um concerto para se sentir. Seal consegue, e muito bem, agarrar a plateia e envolvê-la no enorme leque de músicas que compõem a sua vida musical. E melhor que tudo isso, consegue fazê-lo de uma maneira suave e estonteante. Viciante e extraordinária, diria.

Créditos fotofráficos: Rui M. Leal