Possuidora de uma voz invulgar para uma mulher caucasiana, dotada de um virtuosismo musical notável, chamou-me à atenção com Back to Black e levou-me à hipnose absoluta com o mais inocente Frank. Falo-vos de Amy Winehouse.

Acho que, como a maioria dos fãs portugueses, fiz o percurso inverso entre os dois álbuns, atraído pela sua genialidade através de Rehab, smash-hit da sua carreira.

Massificou, de alma e coração, uma canção que soava a retro mas explodia de vigor, diferenciando-se no panorama actual e impulsionando carreiras como as de Adele e Duffy, sucessoras neste estilo tão pop-dark, ou ainda a da delicodoce Gabriella Cilmi, sweet version de Amy e que acabou por degenerar para sons muito mais comuns.

A sua voz, retumbante como um trovão, tanto era o impulso de força em cada música, como se confundia no meio dos instrumentos, num arranjo harmonicamente perfeito, isto nos melhores dias.

Amy partiu demasiado cedo, metade do que já foi, apagada nos palcos e rejeitada pelos que eram fãs. As suas últimas aparições, resultado de sucessivos rehabs falhados e falta de vontade para a recuperação são espelho disso, com os fãs de costas voltadas para a diva e a respirarem fundo em cada nota minimamente afinada a sair da sua boca, como que hipnotizados com a possibilidade de um possível comeback, ao melhor estilo Mariah Carey ou Britney Spears.


Mas Amy nunca foi dessas, nunca pôde ser comparada a ícones pop, nem na música nem na atitude, tão rasgadamente independente dos selos comerciais, tão pouco recomendada pelos pais, e até rejeitada pelas Nações Unidas. Tão ‘inconvencional’ nos sucessos que produziu, tão longe do estatuto ‘brilhante’ das princesas pop, mais próxima da figura de uma decadente rainha soul.

É com tristeza, e alguma revolta até, que recebemos a notícia da sua partida, resultado das suas escolhas, mais nefastas para si do que para qualquer outro, e o calar de um grito de diferença num mundo musical demasiado dividido entre o que se pode e não se pode ouvir, entre o que parece bem e mal.

Amy, um pouco à semelhança de todos os outros no infame Clube dos 27, superiorizou-se a este limite, sendo uma artista ouvida por todos os públicos mas nunca reduzindo a qualidade da sua produção musical.

Há quem diga que esta morte era inevitável e as várias notícias já publicadas anteriormente a darem-na como certa, confirmam-no – basta pesquisarmos os termos ‘Amy Winehouse morreu’ num motor de busca para aparecerem notícias deste género já em 2008 ou 2009 – porém, ninguém pode dizer que era uma morte esperada, por mais que seja agora comum dizê-lo, Amy já havia estado pior, parecia-nos.

A fragilidade da sua figura, longe da imponência do início de carreira, guardava ainda a essência de um timbre incomum e a esperança, de todos nós, os que gostavam dela, de a ver impor-se junto a lendas como Aretha Franklin ou Nina Simone. E custa muito não poder dizer que ‘Fica para a próxima’.