17º Super Bock Super Rock: o resumo e as impressões de 3 dias de sol (e lua!), rock n’roll e muito pó. Arctic Monkeys,  Arcade Fire e The Strokes passaram por lá de 14 a 16 de Julho na Herdade do Cabeço da Flauta (Meco). Sabe mais aqui.

First things first: o local do evento já foi criticado e re-criticado, as suas condições (ou falta delas), quanto ao trânsito para chegar ao festival, à (muita) poeira devido ao terreno ser arenoso, ao som pouco “afinado”, às falhas técnicas durante os concertos, às filas para tomar banho no campismo, as poucas casas de banho – há quem diga – e outros dramas festivaleiros são bem conhecidos. A verdade é que, mais refilões ou menos, cerca de 90 mil pessoas estiveram no SBSR deste ano (portugueses, espanhóis, ingleses, italianos, franceses…), provavelmente arrastados pela vontade de ver os grandes nomes que o cartaz deste ano ofereceu.

 Dia 14: Arctic Monkeys & a euforia

Foram os senhores da noite, trouxeram alegria e um pezinho de dança à multidão do primeiro dia. Não desiludiram porque cantaram “aquelas músicas”, I Bet You Look Good On The Dancefloor, When The Sun Goes Down, Fluorescent Adolescent e, ainda as novas, Library Pictures (no ínicio), Brick By Brick, Don’t Sit Down Cause I’ve Moved Your Chair, entre outras, que deram azo a muita cantoria, dança, gritaria e até algum cenário de mosh. Não podiam deixar de voltar para um encore mais que esperado. Termina Alex Turner com a belíssima 505. Menos positivo foi talvez a distância que mostraram, não comunicando muito com o público, tirando o elogio de que “todos pareciam muito bonitos vistos do palco”, o que foi, sem dúvida, um momento enternecedor.

Ainda assim foram, para muitos, os melhores da noite, preparada competentemente pelos portugueses Sean Riley & The Slowiders, que apesar da falha de som, o vocalista Afonso Rodrigues, mostrou-se um artista de grande valor, muito profissional, e ainda deu “free hugs” a algumas sortudas da plateia, para matar o tempo de espera; The Walkmen  foram competentes mas nem tanto brilhantes e os Beirut deram um bonito concerto, mas sem grandes exageros, dado tocarem um tipo de música folk mais calma e contemplativa. The Kooks estiveram mesmo bem e com uma simpatia contagiante, já que, lado a lado com os Arctic Monkeys, foram os “príncipes da noite”, muita juventude trouxeram à multidão que os ouvia e cantava com eles temas conhecidos, tais como Seaside, Ooh La, Naive, She Moves In Her Own Way, entre outros.

 Dia 15: Arcade Fire & o êxtase geral

 

Tão aguardados foram neste festival, que os bilhetes individuais logo esgotaram. Os Arcade Fire voltaram a encontrar os seus fãs portugueses e sentiu-se o amor com uma pitada de saudade no ar, já que se teve de cancelar o concerto de Novembro (culpa da cimeira da NATO e do Obama, dizem eles, num tom jocoso) e aguardavam o regresso desde 2007, quando estiveram também no SBSR. A espontaneidade, a entrega, a emoção e a simpatia e interacção com publico, tudo esteve neste concerto e ninguém (conhecendo ou não) conseguiu ficar indiferente a este estado quase espiritual de fazer música (e boa, diga-se!).

Inteligente alinhamento. Optam por abordar menos o novo álbum The Suburbs, não que o público não conhecesse, porque conhecia, mas porque não há dúvida que os anteriores trabalhos da banda propiciam mais o ambiente de culto e êxtase geral na plateia que conhecia e bem temas como o primeiro Ready To Start, e os restantes Keep The Car Running, Crown of Love, Intervention, We Used To Wait, Month of May, as diversas versões de Neighbourhoods, Rebellion (Lies), cantaroladas e vividas com emoção de sobra, para compensar as falhas de som, que se mantiveram por todo o festival.

Nada se pode comparar a uma multidão ao rubro que canta com Win Butler os temas Wake Up, que já fez parte do encore que terminou com Sprawl II (Mountains Beyond Mountains). O que impressionou foi a continuidade: o facto do público continuar a cantar sem parar desde o fim oficial do espectáculo até ao encore chegar. Isto valeu o elogio maior, de entre tantos,em que Butler diz que os portugueses deveriam ensinar outros públicos, pelo seu bom desempenho. Arcade Fire deixam saudades e a promessa de voltar.

Não se pode deixar de referir o concerto não menos emocionante, talvez menos efusivo mas igualmente incrível, dos veteranos Portishead. Beth Gibbons esteve óptima, de voz e emoção. Deram um concerto memorável em que os grandes temas não falharam, nem o agradecimento final e os efeitos bem ao seu estilo. Os portugueses The Gift foram bem coloridos e animados, cantaram sobretudo temas do novo álbum Explode, como se esperava deles, e  Rodrigo Leão deixou a música harmoniosa e a voz de Ana Vieira iluminar a noite daqueles que esperavam os cabeça de cartaz. O talentoso David Santos, do projecto Noiserv, actuou para uma plateia calma e que, notoriamente, gostou de o ouvir. Ainda assim, de registar a existência de uma parte do público que apenas desejava “marcar lugar” junto ao palco, tanto no concerto de Noiserv como de Rodrigo Leão e até em The Gift (menos neste caso dado o tipo de música ser diferente…), por se aproximar mais do principal concerto da noite. Atitudes dessas há sempre, mas não são de todo merecidas da parte que refere aos artistas que poderiam ter sido mais agraciados.

Dia 16: The Strokes & o “blackout” 

Salvo algumas excepções e outras opiniões, seriam a banda aguardada da noite. Muito se tem ouvido falar do relacionamento pouco harmonioso da banda de Julian Casablancas, será que foi por isso que o concerto podia ter sido melhor? Provavelmente sim.

Cantaram as músicas que todos queriam ouvir, elogiaram desde logo a brilhante actuação de Slash, que Julian disse ser o melhor guitarrista do mundo. Teceu ainda elogios a Portugal, às mulheres bonitas, à comida, ao bom tempo, ao público que ficava “cada vez melhor” no decorrer do concerto, tudo se agradece e até aqui tudo bem… Os problemas foram mais a nível de toda a aura que a banda emanava: má coordenação, pausas para comentários como “I’m sorry, I’ve forgot we were doing a show” e um alinhamento pouco equilibrado, já que acabaram numa repentina Take it or leave it, quando podiam ter escolhido a Last Nite (que cantaram logo no começo), que certamente causaria maior euforia.

Na falta de luz no palco, houve um improviso breve que mostrou o “jogo de cintura” dos Strokes e foi ponto a seu favor, apesar de tudo. O encore não se deu e esta foi a desilusão maior da noite. Ninguém queria acreditar que tinha acabado assim o festival e, de facto, podia ter sido diferente… Ao menos o público delirou nas óbvias Modern Age, Is This It, Reptilia, Juicebox, Someday, Hard To Explain, You Only Live Once– aqui falhou a memória a Casablancas na letra da canção – e até na nova Under Cover of Darkness, do álbum Angles, foi muito bem recebida. Muito se saltou, dançou e berrou as letras um pouco por todo o lado, levantando ondas de poeira, apesar de todos secretamente esperarem algo mais destes jovens nova iorquinos.

Competentes e menos esquecidos estiveram os anteriores nomes. Os portugueses X-Wife, muito honrados por serem os primeiros a abrir o palco principal, Brandon Flowers, que cantou êxitos seus a solo e acabou em grande com Mr. Brightside dos The KillersElbow seguiram-se, após 10 anos longe de Portugal, há que destacar a simpatia pelo público português e a sua entrega em palco (apesar de serem os menos conhecidos da noite). Actuaram ainda os grandes senhores do rock, Slash e Myles Kennedy, que brindaram o público com clássicos como Sweet Child O’ Mine dos Guns N’ Roses e guitarradas a rigor. Diga-se de passagem, bem podiam ter sido eles a fechar o último dia do Super Bock Super Rock, que esteve longe de ser uma Paradise City, talvez se assemelhasse mais com o tema Welcome to the Jungle, que Myles e Slash revisitaram também.

Para o ano há mais Meco, sol e rock n’ roll e o pó está prometido.

*créditos: fotografias no interior do artigo por Rita Carmo, via revista Blitz.