Captura de ecrã - 2011-07-16, 19

Quando o cacto dá flor

A Flor do Cacto é a peça que está em cena este Verão no palco do Teatro Politeama, pelas mãos de Filipe La Féria, que adaptou a comédia clássica à actualidade. Com uma extraordinária modernidade e um humor muito próprio, a peça promete entreter os portugueses em tempo de crise e oferecer uma sensação de frescura que faz falta no teatro.

La Féria dà as boas noites, à porta do Politeama, às pessoas que vão entrando para os seus lugares. Espera-lhes uma comédia, e não um musical como aqueles a que o encenador nos habituou. A Flor do Cacto apresenta uma história previsível e sem grandes complexidades, no entanto mantém o suspense até ao final das quase duas horas de espectáculo e cumpre a função de divertir o público.

A história gira à volta de Júlio Cortês, dentista mulherengo que se apaixona por Mitó, uma jovem tatuadora muito mais nova que ele. O problema é que Mitó quer conhecer a sua esposa e os seus dois filhos, que Júlio não tem, mas inventou, de modo a poder fugir ao compromisso. Assim, Júlio leva Irene, a enfermeira que trabalha para si há mais de dez anos e que está secretamente apaixonada pelo dentista, a passar por sua esposa, de modo a convencer Mitó a ficar com Júlio.

As coisas complicam-se e sucedem-se trocas de identidades, paixões cruzadas e muita animação. Em simultâneo, à medida que Júlio se vai tentando afastar da mulher fictícia para ficar com Mitó, vai-se aproximando cada vez mais de Irene, que sempre vira como uma solteirona frustrada, em lugar da mulher bonita e interessante que vai descobrindo.

La Féria tem a interessante particularidade de procurar dar destaque a todos os actores, mesmo que secundários, atribuindo-lhes um papel importante ao longo da peça: nunca são totalmente apagados, ficando na memória do espectador por esta ou aquela peripécia. É o caso de Victor Espadinha, que este ano completa 50 anos de carreira e aqui interpreta o deputado Henrique Amaral, personagem através da qual é criticada a classe política da actualidade portuguesa. A ele se juntam Bruna Andrade no papel de Rute Cassilda, modelo com uma forma de falar muito característica, e as crianças que interpretam os sobrinhos de Irene, um elenco que vai mudando de peça para peça.

Todos cumprem na perfeição o seu papel, destacando-se sobretudo o humor de Espadinha. Temos ainda em Mitó e Igor, vizinho desta, duas boas actuações, de Patrícia Resende e Hugo Rendas, aos quais é dado grande protagonismo. Mas é em Júlio e Irene que temos os verdadeiros destaques deste elenco, as duas personagens (e os dois actores) que fazem valer a pena assistir à peça.

Carlos Quintas apresenta-se como o galã de sempre, parecendo eternamente jovial, com o à-vontade a que já nos habituou. Quando a Rita Ribeiro, começa por ser uma Irene retraída, com a bata do consultório, mas a pouco e pouco vamos também nós descobrindo a mulher por detrás da enfermeira, bonita, sofisticada e determinada. E a actriz é perfeita, com uma graciosidade que nos leva a pensar que o papel não poderia ter sido dado a mais ninguém.

No teatro há sempre imprevistos – não há cenas cortadas, como no cinema -, e apesar de serem pausas na peça que decorre, os momentos em que os actores se enganam ou desmancham em palco são sempre divertidos de observar. Carlos Quintas e Rita Ribeiro tiveram um destes momentos na exibição da peça e arrancaram algumas gargalhadas e aplausos ao público compreensivo.

Apesar de não estar na sua essência, La Féria não podia deixar de dar à peça um toque musical, incluindo escassos momentos de música e dança, algo forçados, é certo, mas bem inseridos no contexto, e bem divertidos para o espectador. A banda sonora, em compensação, é dinâmica e contemporânea, incluindo versões instrumentais de alguns êxitos comerciais.

De realçar também o cenário, alegre nas cores e formas modernas, num ‘sobe e desce’ que fazia descobrir tanto a casa de Mitó como o consultório de Júlio, para além de outros locais importantes no desenrolar da história. A encenação é minuciosa e subtil, juntando-se-lhe um guarda-roupa bastante interessante, moderno, tudo elementos que ajudam a dar uma certa cor à peça.

O adereço mais precioso é o cacto que dá nome à peça e que Irene cuida com tanto carinho. A flor que vai nascendo no cacto, ao longo da história, funciona como uma metáfora para o amor de Júlio e Irene, que vai também florescendo, aos poucos, sem ele dar por isso e sob o olhar sempre atento dela. E quando o cacto dá flor, estamos perante uma grande peça de teatro, que inclui elementos de comédia, romance e aventura.

O ritmo inicial não nos inspira muita confiança quanto ao que A Flor do Cacto tem para oferecer, mas esta sensação depressa se desvanece. La Féria consegue aqui criticar, divertindo, quase ao estilo da Revista. E apresenta uma peça escrita com muito humor, num espectáculo para todas as idades, que é também um sucesso garantido pelos bons actores que compõem o elenco e pelo carismático encenador, que conta já também com quase 50 anos de carreira no teatro. Aplausos em pé no final, e mais não precisa de ser dito.

Ficha Artística

Direcção Artística: Filipe La Féria

Direcção de Cena: Helena Rocha

Elenco: Rita Ribeiro, Carlos Quintas, Patrícia Resende, Hugo Rendas, Victor Espadinha, Helena Rocha, Nuno Guerreiro, Bruna Andrade

Produção: Maria Ruivo, Catarina La Féria, Margarida Lourenço, João Carlos Martins

Guarda-Roupa: Catita Soares, Helena Resende

Equipa de Adereços: Luís Stoffel, Miguel Quina

Luz: Carlos Martins, Samba Baldé

Som: Ricardo Ceitil, Cátia Caetano, Pedro Jesus

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Carice Van Houten Melisandre Game of Thrones
Game Of Thrones. Atriz considerou “ingrata” a reação dos fãs ao fim da série