A Flor do Cacto é a peça que está em cena este Verão no palco do Teatro Politeama, pelas mãos de Filipe La Féria, que adaptou a comédia clássica à actualidade. Com uma extraordinária modernidade e um humor muito próprio, a peça promete entreter os portugueses em tempo de crise e oferecer uma sensação de frescura que faz falta no teatro.

La Féria dà as boas noites, à porta do Politeama, às pessoas que vão entrando para os seus lugares. Espera-lhes uma comédia, e não um musical como aqueles a que o encenador nos habituou. A Flor do Cacto apresenta uma história previsível e sem grandes complexidades, no entanto mantém o suspense até ao final das quase duas horas de espectáculo e cumpre a função de divertir o público.

A história gira à volta de Júlio Cortês, dentista mulherengo que se apaixona por Mitó, uma jovem tatuadora muito mais nova que ele. O problema é que Mitó quer conhecer a sua esposa e os seus dois filhos, que Júlio não tem, mas inventou, de modo a poder fugir ao compromisso. Assim, Júlio leva Irene, a enfermeira que trabalha para si há mais de dez anos e que está secretamente apaixonada pelo dentista, a passar por sua esposa, de modo a convencer Mitó a ficar com Júlio.

As coisas complicam-se e sucedem-se trocas de identidades, paixões cruzadas e muita animação. Em simultâneo, à medida que Júlio se vai tentando afastar da mulher fictícia para ficar com Mitó, vai-se aproximando cada vez mais de Irene, que sempre vira como uma solteirona frustrada, em lugar da mulher bonita e interessante que vai descobrindo.

La Féria tem a interessante particularidade de procurar dar destaque a todos os actores, mesmo que secundários, atribuindo-lhes um papel importante ao longo da peça: nunca são totalmente apagados, ficando na memória do espectador por esta ou aquela peripécia. É o caso de Victor Espadinha, que este ano completa 50 anos de carreira e aqui interpreta o deputado Henrique Amaral, personagem através da qual é criticada a classe política da actualidade portuguesa. A ele se juntam Bruna Andrade no papel de Rute Cassilda, modelo com uma forma de falar muito característica, e as crianças que interpretam os sobrinhos de Irene, um elenco que vai mudando de peça para peça.

Todos cumprem na perfeição o seu papel, destacando-se sobretudo o humor de Espadinha. Temos ainda em Mitó e Igor, vizinho desta, duas boas actuações, de Patrícia Resende e Hugo Rendas, aos quais é dado grande protagonismo. Mas é em Júlio e Irene que temos os verdadeiros destaques deste elenco, as duas personagens (e os dois actores) que fazem valer a pena assistir à peça.

Carlos Quintas apresenta-se como o galã de sempre, parecendo eternamente jovial, com o à-vontade a que já nos habituou. Quando a Rita Ribeiro, começa por ser uma Irene retraída, com a bata do consultório, mas a pouco e pouco vamos também nós descobrindo a mulher por detrás da enfermeira, bonita, sofisticada e determinada. E a actriz é perfeita, com uma graciosidade que nos leva a pensar que o papel não poderia ter sido dado a mais ninguém.

No teatro há sempre imprevistos – não há cenas cortadas, como no cinema -, e apesar de serem pausas na peça que decorre, os momentos em que os actores se enganam ou desmancham em palco são sempre divertidos de observar. Carlos Quintas e Rita Ribeiro tiveram um destes momentos na exibição da peça e arrancaram algumas gargalhadas e aplausos ao público compreensivo.

Apesar de não estar na sua essência, La Féria não podia deixar de dar à peça um toque musical, incluindo escassos momentos de música e dança, algo forçados, é certo, mas bem inseridos no contexto, e bem divertidos para o espectador. A banda sonora, em compensação, é dinâmica e contemporânea, incluindo versões instrumentais de alguns êxitos comerciais.

De realçar também o cenário, alegre nas cores e formas modernas, num ‘sobe e desce’ que fazia descobrir tanto a casa de Mitó como o consultório de Júlio, para além de outros locais importantes no desenrolar da história. A encenação é minuciosa e subtil, juntando-se-lhe um guarda-roupa bastante interessante, moderno, tudo elementos que ajudam a dar uma certa cor à peça.

O adereço mais precioso é o cacto que dá nome à peça e que Irene cuida com tanto carinho. A flor que vai nascendo no cacto, ao longo da história, funciona como uma metáfora para o amor de Júlio e Irene, que vai também florescendo, aos poucos, sem ele dar por isso e sob o olhar sempre atento dela. E quando o cacto dá flor, estamos perante uma grande peça de teatro, que inclui elementos de comédia, romance e aventura.

O ritmo inicial não nos inspira muita confiança quanto ao que A Flor do Cacto tem para oferecer, mas esta sensação depressa se desvanece. La Féria consegue aqui criticar, divertindo, quase ao estilo da Revista. E apresenta uma peça escrita com muito humor, num espectáculo para todas as idades, que é também um sucesso garantido pelos bons actores que compõem o elenco e pelo carismático encenador, que conta já também com quase 50 anos de carreira no teatro. Aplausos em pé no final, e mais não precisa de ser dito.

Ficha Artística

Direcção Artística: Filipe La Féria

Direcção de Cena: Helena Rocha

Elenco: Rita Ribeiro, Carlos Quintas, Patrícia Resende, Hugo Rendas, Victor Espadinha, Helena Rocha, Nuno Guerreiro, Bruna Andrade

Produção: Maria Ruivo, Catarina La Féria, Margarida Lourenço, João Carlos Martins

Guarda-Roupa: Catita Soares, Helena Resende

Equipa de Adereços: Luís Stoffel, Miguel Quina

Luz: Carlos Martins, Samba Baldé

Som: Ricardo Ceitil, Cátia Caetano, Pedro Jesus