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Uma Peça Bizarra

A peça Uma Bizarra Salada estreia no São Luiz sexta-feira, no âmbito do Festival de Almada, e junta de novo a Orquestra Metropolitana a Bruno Nogueira, adicionando-lhe Luísa Cruz e a encenação e participação especial de Beatriz Batarda.

A conjuntura actual dá a oportunidade e o mote perfeito para revisitar os textos humorísticos e satíricos de Karl Valentin sobre a crise dos anos 20, que viveu, que tão bem se aplicam aos dias de hoje.

A questão que permanentemente se nos levanta ao longo do espectáculo é “o que é isto?”. A necessidade que sempre temos de inserir as coisas, o que quer que elas sejam, em categorias, corre o risco de sair frustrada com esta encenação. Nas palavras de Beatriz Batarda, a classificação que melhor serve esta iniciativa do teatro São Luiz é a de espectáculo de cabaret, no sentido mais primitivo da palavra, isto é, um pequeno espectáculo feito de sketches, pequenos monólogos, textos satíricos interceptados por canções e pequenas apresentações musicais, tudo isto pontuado, por vezes, pelo improviso.

De facto, os textos de Karl Valentin resultam em pequenos quadros, sendo o maior o primeiro, Fanfarra, com cerca de 38 minutos, e onde a música intervém pontualmente sem uma importância preponderante.

Neste primeiro sketch, a orquestra, Bruno Nogueira e Luísa Cruz integram o elenco. Desde o início, a estrutura de que uma orquestra se faz está a desnudo. As relações interpessoais que nunca vemos nem imaginamos, a forma como todos se posicionam, a hierarquia a que obedecem, tudo o que acaba por resultar num produto musical organizado e limpo, é no inicio descontrolado e confuso.

É nesta demonstração que aparenta naturalidade que os músicos da Orquesta Metropolitana se tornam actores e intervêm de uma forma que não era espectável. Ao longo da cena, dão contributos seguros e bem conseguidos que anulam a sensação preconcebida de uma orquestra por contraponto a dois actores e trabalham para a construção de um grupo e de uma simbiose entre todos os presentes em palco.

Em Fanfarra, Bruno Nogueira encarna a personagem de Karl Valentin, o músico da orquestra que preferiria não o ser, ou pelo menos não fazer nada. É assim que se mantém ao longo desta primeira parte: insistindo no não-fazer-nada e boicotando constantemente o trabalho dos seus pares com conversas absurdas, despropositadas, intermináveis e esgotantes que enredam e paralisam o pensamento de uma Maestro em fúria, Luísa Cruz.

O texto é, até para o público que a ele assiste, contraproducente, e é aí que reside o lado mais satírico, talvez desafiante para os actores, que acertam permanentemente no timing que este tipo de humor perigoso requer. Surpreendente é também a linha ténue entre o que estava previsto e o imprevisto que pode acontecer a qualquer momento e que deixa nos actores a imposição de saber trabalhar com ele.

A parte final da primeira cena representa uma amostra sublime do que Bruno Nogueira sabe fazer a esse aspecto, mantendo a sua musicalidade, e a forma não menos brilhante como Luísa Cruz lhe responde e nos deixa na dúvida sobre o que estava e não estava programado. Num texto em que as palavras constituem o núcleo duro da acção, Bruno Nogueira e Luísa Cruz sabem como servi-las e colocá-las em destaque, mostram como os jogos de palavras e as perguntas-resposta se fazem com comicidade.

O espectáculo, orientado por Beatriz Batarda e com direcção musical de Cesário Costa, pode ser visto na Sala Principal do São Luiz, de 15 a 17 de Julho, sexta e sábado às 21h00 e domingo às 18h30, com preços entre os 10 e os 20 euros.

 

fotografia de André Nacho

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