O Teatro Aberto estreia esta quinta-feira a nova peça de João Lourenço, denominada Purga. Trata-se de uma história em si mesma forte, pesada, tratada com uma tal simplicidade que nos enche as medidas, se não as supera mesmo. Depois de O Senhor Puntila e o Seu Criado Matti, o encenador volta a surpreender com uma grande peça de teatro, muito bem encenada e com excelentes interpretações.

Escrita pela autora finlandesa Sofi Oksanen, numa história que posteriormente deu romance, Purga passa-se na Estónia, em 1992, após a recuperação da independência do país, que estivera sob o domínio russo. No campo, Aliide, uma mulher com cerca de setenta anos, vive sozinha na casa em que nasceu, cruzando-se um dia com Zara, uma vítima do tráfico humano, que se esconde na sua casa. À medida que as duas mulheres se vão conhecendo, segredos do passado são revelados e Aliide recorda e revê-se, em simultâneo, no que viveu e no que Zara vive nos dias que correm.

Esta coexistência torna-se interessante sobretudo na forma como lhe é dada vida na peça. Aliide é interpretada por duas actrizes, Irene Cruz e Ana Guiomar, em épocas diferentes, acabando por ser a mesma e outra mulher, dados os quase cinquenta anos que as separam. E quando as vemos juntas em palco, numa total ausência de cronologia e lógica, certas vezes mesmo em diálogo uma com a outra, é absolutamente fantástico, para o espectador, poder observar em simultâneo o passado e o presente, o contraste entre o sonho de uma vida melhor e a vida que realmente se teve e se leva.

Ao ver Zara e ao tomar conhecimento da sua situação, Aliide não pode deixar de se rever nela, na inocência perdida por uma vida dura, marcada pela fuga e pela subordinação. Apesar de nos soar sempre um pouco egoísta na forma como lida com a irmã e a sobrinha por amar incondicionalmente o cunhado, que esconde durante anos na cave da sua casa, Aliide acaba por procurar a redenção, no final, arrependendo-se talvez da vida que levou, embora não tenha podido fazer muito para a tornar diferente.

A história do comunismo e da sua implementação ‘forçada’ na Estónia é também aqui acompanhada. De facto, Aliide casa com um membro do partido e escapa ao destino da irmã, numa época em que a aliança era fundamental para se sobreviver. E Martin é uma personagem muito densa, com um grande fanatismo relativamente ao ideal comunista que se revela reversível, ao compreender a verdadeira obra do seu partido.

As interpretações são fabulosas. Irene Cruz regressa com uma frescura que não é qualquer actor que consegue trazer ao palco, numa interpretação feroz da Aliide mais velha. Por seu lado, Ana Guiomar surpreende enquanto Aliide mais nova, com uma grande presença em palco e uma complexidade que consegue captar bem a essência da personagem. Destaco ainda Patrícia André como Zara, que se mostra também uma grande actriz no papel de uma prostituta forçada que consegue escapar aos homens que a controlam.

Com uma enorme carga dramática intrínseca, a peça ganha muito com a encenação de João Lourenço, que a torna verdadeiramente interessante para o espectador. O cenário é muito simples, composto em grande plano pela casa de Aliide, movível ao longo do palco, com a curiosidade de permanecer exactamente igual nas duas épocas históricas retratadas. Um aspecto muito curioso é também a permanência em palco dos actores, por vezes, enquanto se desenrolam as cenas mais importantes num dado momento, em primeiro ou segundo plano, continuando a encarnar as personagens como se estivessem no plano principal.

Este facto contribui para uma certa aura cinematográfica que predomina durante toda a peça. Alia-se a outros factos ainda mais fundamentais na encenação, como a banda sonora e os vídeos, que fazem de Purga quase um filme real, uma história que se desenrola à nossa frente, ‘em directo’, mas que comporta uma série de características inovadoras do ponto de vista do espectáculo.

A música que ouvimos, de quando em vez, a acompanhar as cenas, bem como as duas câmaras que se encontram nas pontas do palco e projectam os rostos carregados das personagens, quando estas se aproximam delas quase numa busca de identificação, conforto, esperança, quase como se de um diário se tratasse… acabam por ser elementos que levam a esta construção material da peça de teatro, que acompanha a sua construção ‘intelectual’, se assim lhe podemos chamar: à medida que as duas horas vão passando, as histórias inicialmente soltas vão sendo interligadas e compreendidas no quadro geral da história de família que ali se nos apresenta.

Um elemento peculiar do guião é, sem dúvida, o alçapão que liga à cave da casa de Aliide, escondido debaixo do reservatório onde as personagens tomam banho, que serve de esconderijo a diferentes pessoas, em diferentes épocas e por diferentes motivos. Este constitui outra das ‘pontes’ entre o passado e o futuro que a história nos oferece: nos anos 40 é Hans, cunhado de Aliide, que ali se esconde durante muito tempo, fugindo ao domínio comunista e às deportações; nos anos 90 é Zara que ali procura escapar aos homens que a pretendem capturar. Também o balde com água faz com que Aliide recorde o passado através da relação com Zara.

Temos então em Purga um campo aberto de recordações, algumas boas, outras más, que Aliide desvenda em poucas palavras, maioritariamente na sua memória, numa história que não cessa de surpreender até ao final. E o título adequa-se na perfeição à peça, não só pela sua óbvia relação com as deportações dos ‘traidores’ para a Sibéria, como também numa óptica de purificação, como a própria autora explicou: as mulheres aqui retratadas sofreram actos de violência e a reacção primária é a de limpeza.

Assim, Purga é em si só uma purificação das personagens, que aqui são totalmente colocadas a nu, retratando-se com simplicidade uma história complexa e verdadeiramente inspiradora. Realço ainda que se trata de uma visão não ocidentalizada dos acontecimentos, o que permite mostrar um lado talvez desconhecido de uma guerra dentro de outra guerra, não só no passado, mas também no presente. E toda a violência que caracteriza a acção leva também a que o espectador se agarre intensamente ao que observa.

E em duas horas assistimos a uma peça bem concretizada, que se entranha em nós, com a qual é impossível não estabelecermos uma qualquer relação de interesse e significância. Recomenda-se e muito a sua assistência. É pena que, muitas vezes, o público português não valorize convenientemente o teatro que se faz no nosso país,  e espero que esta peça não passe despercebida. Na Sala Azul do Teatro Aberto, em Lisboa, a partir de dia 30.

 

Ficha Artística

 

Título Original: Puhdistus

Versão: João Lourenço e Vera San Payo de Lemos

Dramaturgia: Vera San Payo de Lemos

Encenação e realização vídeo: João Lourenço

Cenário: António Casimiro e João Lourenço

Figurinos: Lídia Lemos

Supervisão audiovisual: Nuno Neves

Luz: Melim Teixeira

Apoio ao Movimento: Cláudia Nóvoa

Com: Alberto Quaresma, Ana Guiomar, Carlos Malvarez, Hugo Bettencourt, Irene Cruz, Patrícia André e Rui Neto