A aula-show de José Miguel Wisnik, no passado sábado, foi uma verdadeira conversa de botequim. Não como aquela que é descrita no samba com este mesmo nome, em que o típico malandro brasileiro trata o garçon como seu mordomo sem ter, no final das contas, sequer dinheiro para lhe pagar, mas porque naquele Jardim de Inverno se esteve, descontraidamente, a ouvir samba e a falar sobre samba.

O móbil maior da conversa, Noel Rosa. O compositor e músico que, entre os anos 20 e 30 do século passado, ousou transformar o samba na canção brasileira por excelência e, mais que isso, num motivo agregador cheio de identidade nacional. O centenário sobre o nascimento deste brasileiro despontou a vontade na Embaixada do Brasil e na Casa da América Latina de realizar uma conferência sobre esta personalidade, vontade essa que o teatro S.Luiz acolheu, conferência essa que José Miguel Wisnik transformou em espectáculo.

A principio as notas biográficas na quantidade certa: Noel Rosa, nascido numa classe média-baixa, tinha a cultura da classe mais elevada, vivia no meio onde os pobres e os “menos-pobres” coexistiam: Vila Isabel. Por ser este local de coexistência harmoniosa, Vila Isabel vai tornar-se, até ao fim dos dias do músico, tal como o samba, a alegoria da integração. O seu período de criação, assim como a sua vida, acaba cedo. Aos 27 anos morre de uma tuberculose que não se esforçou para curar. O curioso está no facto de, num período inferior a 10 anos (1929-37), Noel Rosa ter produzido cerca de 200 sambas, ter completado um ciclo de criação e ter mudado a forma de ver o samba.

Em seguida, como nasce o samba. A mescla de culturas de que o Brasil é exemplo está também no samba. Entre os anos 20 e 30 opera-se uma junção da polca europeia e do maxixe vindo de África. Assim nasce o samba do início do século XX. É portanto o tipo de música que materializa a união do respeitável e do reprimivel num só.

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A apresentação desta história teórica só se pode completar com a interpretação de sambas da época que demonstram bem a sobreposição dos dois sons. José Miguel Wisnik como o “auxilio luxuoso” da viola e da precursão toca alguns dos sambas maiores de Noel Rosa, clássicos do cancioneiro brasileiro.

O ambiente cultural, mas simultaneamente descontraído, com a audiência a cantarolar as músicas, deixa que Wisnik solte alguns factos curiosos acerca da matéria, diga algumas graças e trate o tema com humor, o que só adiciona intimidade e não deixa de ser oportuno. Conjuntamente, sente-se o que o samba retrata o amor, a malandragem, a saudade, e tudo isto, entre outras coisas, a identidade nacional brasileira.

O próprio hino brasileiro e o samba Com que Roupa, de Noel Rosa, encerram uma proximidade tal na sua métrica que foi preciso alterar a melodia da música para evitar confusões com o hino nacional. Apesar de escrito anos antes, o hino nacional brasileiro já revelava, como se vê, mesmo antes de ser sublimado por Noel Rosa, uma afinidade com esta música-indentidade-nacional que o samba é. Este exemplo, a adicionar a toda a história de formação e construção do samba ao longo do tempo, mostra-o como património natural e inevitável do Brasil.

Mais que uma música alegre, aparentemente inconsequente, o samba trata temas incontornáveis da realidade brasileira da época da forma leve que caracteriza o seu povo. Assim, fez daqueles que vivem com pouco para comer, na rua, arranjando-se aqui e ali, ao acaso, desenrascando-se, o típico malandro brasileiro que Noel Rosa eleva, de uma forma séria, mas quase humorística, a figura símbolo da nação. Todos os fragmentos de que vive esta personagem fazem de si uma unicidade para o povo brasileiro, presente também no samba, que sai do morro para conquistar a cidade, abrangendo todas as classes sociais.

Para o compositor, este não é um estereótipo com carga negativa. Pelo contrário, a herança letrista de Noel Rosa “estiliza a malandragem”, nas palavras de Wisnik, ao criar versos como “meu cortinado é um vasto céu de anil”. A este lirismo, junta-se a ironia, o humor, a crítica e a auto-crítica: “A minha terra dá banana e aipim/ meu trabalho é achar/ quem descasque por mim”. Tudo isto coloca esta figura entre o inserido e querido e o vagabundo e bandido.

A riqueza de Rosa, tão explorada ao longo da noite, foi demonstrada através de inúmeras músicas em que as palavras são cantadas como seriam ditas, ou em que somos acercados do objecto cantado e o visualizamos, ou em que nos distanciamos dele quando a melodia obriga as palavras a arrastarem-se em temas passionais. O samba abarcou deste autor todas estas três possibilidades e ousou cruzá-las.

Não sendo exactamente uma antecipação dos próximos espectáculos que o S.Luiz organiza com JP Simões e Couple Coffee, esta noite parece entrar numa linha quase cronológica com estes próximos concertos: primeiro o samba, depois a bossa. Uma escolha inteligente deste teatro a sair das fronteiras da música portuguesa, mas em português.

Uma verdadeira aula onde, para além de aprender, se sentiu, ouviu e comemorou o samba e a essência brasileira em Noel Rosa.