Muita tinta tem corrido sobre os reality-shows actualmente em exibição na televisão portuguesa e em especial sobre aqueleque com eles directamente rivaliza, o Último a Sair. Servindo-se de um limbo entre reality-show e série de ficção que o próprio formato criou, a aposta da RTP é, irrefutavelmente, algo de totalmente novo no contexto televisivo, inesperado, causador de discórdia. Um mês depois do regresso em peso dos reality shows às televisões portuguesas, terá sido uma aposta ganha pela RTP?

A primeira unidade de medida para o sucesso televisivo são as audiências. Peso Pesado terá, na sua primeira emissão, beneficiado do facto de não ter concorrência e alcançou os seus melhores resultados, até agora, com um share de 44,8%. Com a estreia de Perdidos na Tribo e Último a Sair na semana seguinte, o fado do programa da SIC mudaria. Desde então, os seus desempenhos a este nível caíram, registando uma ligeira subida nas últimas duas semanas, que não foi nunca capaz de suplantar os números da TVI.

Perdidos na Tribo entra assim na corrida com uma semana de atraso mas impondo-se desde o início. Os números da sua emissão de estreia foram de 41,5% de share, inferiores aos da estreia de Peso Pesado, mas superiores aos valores da emissão da SIC nessa semana, história que se tem vindo a repetir. O share médio do programa, 38,2%, derruba Peso Pesado, com 35,3%, e, com prestações permanentemente inferiores, Último a Sair, com 18,3%.

Entre os dois (verdadeiros) reality-shows tem-se registado uma aproximação: no domingo de 28 de Maio apenas 1,4% separaram as duas estações privadas. Não é uma diferença significativa e que permita tirar conclusões. O que dá que pensar é o facto de o programa concorrente da RTP ter desde cedo uma diferença abissal para conteúdos da SIC e TVI.

O primeiro programa de Último a Sair não foi um sucesso: 17.9% de share. No entanto, a audiência ameaçou crescer nas semanas seguintes, sendo que no domingo 28 de Maio registou o seu pior valor: 15,6%. Este programa, que foge a todas as normas e convenções, parece fugir também às preferências dos telespectadores.

De facto o factor audiências não é abonatório para Último a Sair. Mas será este um factor justo, ou, de outra forma, será este o único factor?

A página oficial de Facebook de Último a Sair soma fãs. Soma, aliás, mais fãs que as páginas de Peso Pesado e Perdidos na Tribo juntas. São 115 159 contra os 37 685 de Perdidos na Tribo e os 29 690 de Peso Pesado. No Youtube, é fácil encontrar um vídeo de Último a Sair com mais de 100 000 exibições, no entanto, os vídeos relativos aos reality-shows dos canais privados não ultrapassam os 5 dígitos. Os três sites oficiais disponibilizam vídeos dos três programas. Seria o factor derradeiro conhecer-lhes o número de visualizações, no entanto, tal não nos foi concedido pelas estações televisivas.

O espectador deste novo formato parece ser aquele que não se fica pela televisão e que possivelmente, em alguns casos, não usa a televisão. Prefere, muito provavelmente, as inúmeras possibilidades que a Internet oferece, entre elas a interactividade. Na página de Facebook do Último a Sair os likes e os comentários sucedem-se a um ritmo que não se verifica nas páginas dos outros conteúdos que aqui comparamos. A par disto, os fãs associam-se e criam páginas para os actores do programa e outros conteúdos relacionados com o mesmo, atingindo uma considerável diversidade de publicações e discussões. Em oposição, os fãs dos programas da TVI e SIC têm em comum a originalidade de criarem páginas com os mesmos nomes: Perdidos na Tribo e Peso Pesado.

O programa escrito por Bruno Nogueira, João Quadros e Frederico Pombares é o típico fenómeno que arrasta massas na Internet e que transforma deixas das suas personagens em falas que se repetem entre amigos, todos os dias. O que não impede o aparecimento de criticas e queixas. Pelo contrário, um programa que não é feito para a massa televisiva, chamemos-lhe a assim, só o potencia.

Se Último a Sair não é líder de audiências, pode orgulhar-se de ser líder no número de queixas à ERC. Peso Pesado tem duas queixas na Entidade Reguladora para a Comunicação Social e Perdidos na Tribo, uma. Último a Sair consegue três e colecciona ainda várias mensagens para o Provedor do Telespectador. Os contactos recebidos por José Carlos Abrantes relacionam-se sobretudo com a linguagem utilizada pelo programa e com dúvidas sobre a pertinência do conteúdo para o serviço público de televisão.

Este tem sido, ao longo deste primeiro mês de exibição um aspecto constantemente desvalorizado por José Fragoso, que sublinha a correcção que o programa sofreu quanto ao vernáculo e simultaneamente a necessidade deste tipo de linguagem na construção das personagens e da sátira. Além de tudo, a proeza do programa, na opinião de Fragoso, é a sua capacidade de arriscar e de se vir a tornar, muito possivelmente, num marco na história do humor na RTP.

No fim das comparações, definir o que é uma aposta ganha fica a cargo das estações televisivas, das suas intenções e objectivos, do seu intento de coleccionar números ou de coleccionar seguidores.

 

*Dados de audiências das galas de domingo colhidos entre 1 e 28 de Maio.