Não só de estreias vindas de Hollywood se faz o cinema que chega às salas nacionais. Nesta semana, França é um dos países que se faz representar com o filme Hadewijch, de Bruno Dumont.

O filme, que data de 2009, ganhou o Prémio Internacional da Crítica no Festival Internacional de Cinema de Toronto, concedendo ao realizador mais um entre os vários prémios que tem recebido nos últimos tempos. O filme que, para o realizadorm é “uma catarse, uma metáfora para o interior da alma”, foi ainda selecção oficial do San Sebastián Film Festival, do New York Film Festival e do London Film Festival.

O filme foge à grande maioria dos cânones a que o espectador português que vai ao cinema se familiariza com as produções norte americanas. Hadewijch é uma história diferente, com uma densidade e uma mensagem que só o filme como um todo é capaz de fornecer. Longe de ser um filme light, Hadewijch é sobretudo um filme para reflexão, onde o espectador não é chamado a fazer parte da acção mas sim a reflectir sobre ela.

De uma forma muito geral, aquilo que o filme abarca é a questão da fé e de a podermos encontrar onde menos esperamos. Céline é uma jovem que se vê obrigada a abandonar o convento onde se preparava para ser freira e a ter de procurar no mundo exterior a presença de Deus. Uma grande lição estaria preparada para esta heroína pouco convencional.

O início do filme mostra-se demasiado pesado para o espectador, com um ritmo muito lento. A ausência de falas e cenas demasiado prolongadas podem levar quem assiste ao filme a dele desistir. Contudo, à medida que nos aproximamos do clímax final, o espectador sente maior apelo de se ligar à história que se desenrola na tela devido ao maior dinamismo da própria acção e da maior interacção entre personagens.

Dumont apropria-se de uma forma radiante da temática da religião e conduz o próprio espectador a uma reflexão contínua ao longo de todo o filme. O que é a fé? Como exercê-la? O Cristianismo e o Islamismo entram em síntese e o espectador sente que, mais do que uma religião em específico, o que caracteriza o ser humano é a própria fé.

À excepção da protagonista, as restantes personagens apresentam pouca densidade. É Céline que parece contagiar tudo o que gira à sua volta, como um elo de ligação entre histórias que de outra forma nada teriam em comum. Um bom desempenho da actriz Julie Sokolowski é certamente um dos pontos positivos a destacar.

Se este filme está longe de ser uma obra-prima do cinema francês, a verdade é que não deixa de ter uma tarefa importantíssima e que cada vez é mais rara nos filmes que chegam às salas de cinema nacionais: a capacidade de nos levar a reflectir. Por mais que o filme possa passar ao lado a quem a ele assiste, o espectador nunca sairá da sala sem pensar sobre a temática da religião e as suas implicações.

Aconselhado para todos aqueles que precisam de abandonar os filmes de pipoca e que precisam realmente de algo sobre o qual reflectir.

7/10

Ficha Técnica

Título original: Hadewijch

Realizado por:  Bruno Dumont

Escrito por: Bruno Dumont

Elenco: David Dewaele, Julie Sokolowski, Karl Sarafidis, Yassine Salime

Género: Drama

Duração: 120 minutos