Malick coloca as questões, o espectador partilha com ele as dúvidas e cabe a cada um encontrar as suas próprias respostas. A Árvore da Vida faz pensar, mas é muito mais que isso. Trata-se de um filme de uma beleza inexplicável, que arrepia, emociona e faz passar por sensações que nunca se imaginariam possíveis no cinema.A vida, a morte, a natureza, o bem e o mal, o amor, a família e, acima de tudo, Deus (ou apenas a fé), fazem deste filme tudo o que ele é. A Árvore da Vida é um filme obrigatório para todos. Mesmo o mais céptico ou o mais crítico não conseguirá ficar indiferente às sensações experimentadas nesta visualização.

Depois de Noivos Sangrentos (1973) ou A Barreira Invisível (1998), Terrence Malick está de regresso com esta obra-prima. E, desta vez, não se tem de esperar meses para assistir ao filme. Depois da estreia mundial, a 16 de Maio, no festival de Cannes, onde se sagrou vencedor da Palma de Ouro, o filme chega hoje às salas de cinema portuguesas depois da antestreia nacional, na passada segunda-feira (23 de Maio), na Cinemateca Portuguesa.

Desengane-se completamente quem espera que este seja mais um filme comercial como aqueles a que Brad Pitt e Sean Penn são normalmente associados. Terrence Malick quis marcar a história do cinema com algo nunca antes visto (pelo menos desta forma), um filme sensível e poderoso, e tão grandioso que é quase impossível falar sobre ele.

A Árvore da Vida é a história impressionista de uma família americana nos anos 50. Acompanha o crescimento de Jack (Hunter McCracken/Sean Penn), o mais velho de três irmãos, da inocência da infância até à desilusão da vida adulta. O jovem mantém uma relação complicada com o seu pai (Brad Pitt), tão diferente da sua mãe (Jessica Chastain). Jack vê-se como uma alma perdida no mundo moderno, procurando respostas para as origens e sentido da vida, questionando sempre a existência da fé e de Deus. Através da imagem de marca deste realizador, vemos o quanto, tanto a natureza em bruto, como a graça espiritual, dão forma à Vida.

A realização, de Terrence Malick, a montagem e, claro, a fotografia (a cargo de Emmanuel Lubezki) são realmente brilhantes. Os cenários e as imagens são deslumbrantes em todos os momentos do filme. Esta forma de filmar faz com que se sinta tudo o que se vê, como se lhe tocássemos. É dada uma enorme atenção a pequenos detalhes, que acabam por significar muito. A água da mangueira que molha os pés da mãe de Jack ou a borboleta a pousar na sua mão são bons exemplos de todo o contacto com a Natureza nas suas formas mais simples e belas.

O argumento, também de Malick, tem Deus e a fé no centro da história. Aliás, o filme coloca questões a essa entidade divina através da personagem principal. Com uma mãe religiosa que ama e respeita Deus e a Natureza, Jack começa por desenvolver a mesma simpatia e crença, a mesma fé que Mrs. O’Brien. Conviver de perto com a morte e com injustiças, e com um pai demasiado rígido, violento, que exige demasiado dos filhos e que não consegue exprimir o seu amor pela família, o adolescente dá por si a alimentar um grande ódio, e o conflito com Deus surge, inevitavelmente (“porque é que eu tenho de ser bom se tu não és?”). As perguntas feitas por Jack irão perturbar e levar a uma grande identificação por parte do público. A presença do divino é também evidente na forma de filmar, onde muitos dos planos acabam por “ir dar” ao céu, às nuvens, às alturas. Muitas escadas (que mais uma vez remetem para cima) surgem também ao longo de A Árvore da Vida.

O filme é um recordar de tudo por parte de um Jack adulto. Tudo, da forma mais profunda possível, indo até à formação do Universo, ao início do planeta, de todas as formas de vida. Todas essas cenas são de uma beleza e grandiosidade assombrosas. E é aqui que a Natureza se assume como um Deus, ou como parte dessa divindade, em A Árvore da Vida (onde já no título ela está presente). Esta árvore, que na realidade aparecerá no filme, acompanhará todo o crescimento de Jack e dos irmãos.

O argumento deste filme insere uma série de dualidades que vão sendo identificadas ao longo dos seus 138 minutos. Como já referi acima, encontra-se o bem e o mal, nos seus diversos sentidos, a vida e a morte, as próprias diferenças entre o pai e a mãe das crianças, a dúvida acerca de Deus ser bom ou mau… São as dualidades que potenciam as perguntas que Malick coloca e que o próprio espectador quer ver respondidas.

A banda sonora é parte fulcral desta experiência que é A Árvore da Vida. Alexandre Desplat faz um trabalho incrível e a simbiose música/imagens é perfeita – arrepia, no melhor sentido possível. O elenco, que muito provavelmente irá trazer a este filme um tipo de público à espera de puro entretenimento (mas que espero que saia positivamente surpreendido), tem um desempenho digno de mérito. Brad Pitt sai-se muito bem como Mr. O’ Brien e Jessica Chastain adequa-se perfeitamente à sua personagem quer pela sua imagem frágil e doce, quer pela simplicidade que consegue colocar em todos os seus actos ao longo do filme. As crianças têm também prestações de destaque, em especial, claro, o jovem protagonista Hunter McCracken. Sean Penn, apesar das suas curtas “aparições”, é de extrema importância para todo o decorrer do filme e o seu desempenho é bastante bom.

Apesar de todo o brilhantismo e do grande mérito que este filme tem e merece, tudo o que se relaciona com Deus pode ser questionável e polémico, e pode haver quem não goste desta abordagem da vida. No entanto, parece-me que nem mesmo esses poderão ficar indiferentes a este trabalho de Malick.

É de filmes como este que o cinema actual precisa, é necessário pensar, executar e fazer sentir. A Árvore da Vida é uma experiência única, que cada um irá sentir à sua maneira e que ninguém conseguirá traduzir em palavras, tal é a sua beleza e dimensão. Não é, claramente, um filme simples, leve. Ele questiona, mas não nos dará as respostas, essas teremos de ser nós a descobrir, por muitas vezes que o vejamos. Terrence Malick trouxe com certeza um dos melhores filmes do ano e, porque não dizer, de sempre.

9/10

Ficha Técnica:

Título original: The Tree of Life

Realizado por:  Terrence Malick

Escrito por: Terrence Malick

Elenco: Brad Pitt, Jessica Chastain, Sean Penn, Hunter McCracken, Fiona Shaw, Tye Sheridan, Laramie Eppler

Género: Drama

Duração: 138 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos