O palco do Jardim de Inverno do S. Luiz Teatro Municipal recebeu Agamémnon – Vim do supermercado e dei porrada ao meu filho no final do passado mês de Abril.

Uma mordida num hambúrguer. Silêncio. Fruto de uma autêntica odisseia de compras (quase) inconsequentes. Frangos, pilhas para o gameboy, cereais com chocolate, cerveja, batatas fritas e um fato de treino amarelo brilhante são apenas algumas das aquisições. Um pai que procura surpreender a família inteira fazendo compras no supermercado, mas que acaba por não comprar nada do que realmente era preciso porque, simplesmente, se esquece.

E o resultado das compras não é o melhor: chapada atrás de chapada, uma carga de porrada. A família é o local onde o protagonista vai descarregar toda a frustração pós-compras-mal-conseguidas.

Subitamente, e na maior das normalidades, surge um convite para um jantar fora. Segue a família toda contente e a sangrar rumo ao Kentuchy Fried Chicken. Este pai desabafa os seus desejos de que a sua família resulte. Nós vamos dar-nos bem! Nós vamos dar-nos bem! Uma tensão entre o que resulta e o que poderia resultar, entre a realidade e os sonhos.

É nesta saída em família que tem início toda uma digressão pelos mais variados temas da actualidade e assuntos. Passando por várias personalidades e povos, pelo papel do costume e da experiência, pela postura de moderação da sociedade, pelo drama de nunca ter criado nada de novo para o mundo e, sobretudo, por uma crítica ao liberalismo económico.

A esperança é indicada como o caminho para se fugir a toda a tragédia que este sistema económico traz ao mundo, uma tragédia que começa onde está o dinheiro e a comida. E onde está o tão famoso antídoto? Onde está a esperança? A esperança pode estar em qualquer parte. O problema é dar com ela. A esperança não é um sonho, é um projecto e materializa-se nos planos que fazemos.

A Humanidade está a perder a sua humanidade, é esta a preocupação deste pai e homem. Vivemos como animais obcecados com o dinheiro e com o lucro e esquecemo-nos de nos dar aos outros.

O texto, vencedor do Prémio UBU 2004 em Itália de Rodrigo García, interpretado por Gonçalo Waddington e pelas crianças Alexandre Pires, Henrique Pires e Martim Barbeiro, numa encenação de John Romão, esconde dentro de um registo cómico um conjunto de questões extremamente contemporâneas e que nos levam a reflectir sobre as mesmas.