Citando Gonçalo Amorim, responsável pela encenação desta obra de Fiódor Dostoiévski, O Jogador é uma espécie de “labirinto interior entre o amor e o jogo”. Esta obra, escrita em apenas 25 dias, circunstâncias essas ditadas pelo seu editor, foi adaptada por Emília Costa, tendo assim surgido uma peça de teatro em formato blockbuster que pode ser vista em quatro episódios.

Desde logo, quem conhecer a obra de Dostoiévski perguntar-se-à ainda antes de ver a peça se o desafio a que Gonçalo Amorim e a sua equipa se propõem não será arriscado. Definitivamente, não! O primeiro conselho é o de que procurem alguma disponibilidade e marquem na vossa agenda esta ida ao teatro, como se se preparassem para durante dois dias verem um filme dividido em quatro partes, ou uma série composta por quatro episódios. O importante aqui será que o espectador se sinta predisposto a ver ser encenado um texto de emoções violentas, num ambiente predominantemente pesado, com uma pitada de ironia.

Irá encontrar um cenário minimalista, que é o bastante, quando nos deparamos com uma peça cujo conteúdo vale por si só, e qualquer pormenor a mais poderia resultar num exagero. A teia de dramas individuais que se entrelaça neste enredo é algo a que se deve prestar especial atenção, tanto a cada caso em concreto, como ao modo como todos eles se relacionam e possuem pontos em comum. Um história em que cada personagem tem os seus vícios, as suas frustrações, os seus medos, as suas falhas. É sem dúvida uma peça em que o errar humano é uma constante, não sendo seu objectivo julgá-lo ou criticá-lo.

O vício do jogo, esse, é como se fosse o personagem principal de O Jogador. Porém, não será totalmente errado afirmá-lo. Alexei, interpretado por Romeu Costa, figura central da história, faz ecoar o seu pensamento ao longo da peça, onde alterna a sua obsessão pelo jogo com o seu amor quase que infernal por Polina, a quem obedece cegamente. Esta última, interpretada por Carla Galvão, faz transparecer um enorme sofrimento que se vem acumulando ao longo da sua vida com as más decisões que foi tomando.

Imaginemos, assim, uma teia de aranha onde Polina e Alexei se situam no meio e dos quais partem uma série de fios em que em cada nó se situam as restantes personagens. Uma família disfuncional, cujo pai, o General, parvamente apaixonado por uma francesa que apenas está interessada no seu dinheiro, ignora as suas duas filhas adolescentes, aguardando a já eminente morte da tia Baboulinka, da qual espera a herança que os irá salvar a todos. Juntam-se às personagens o Marquês, amigo da família, e ainda o amigo inglês de Alexei.

Analisando a prestação global da trupe, é de destacar todo o ritmo posto no modo como contracenam uns com os outros. Na maior parte das vezes estão presentes em palco muitos actores ao mesmo tempo, estando constantemente a dar a cena uns aos outros, num compasso que chega a ser alucinante. O modo como gerem o espaço permite criar diferentes situações em palco, como se as cenas fossem sequencialmente surgindo num ecrã de televisão ou de cinema. Ao mesmo tempo que contracenam uns, somos capazes de nos deparar simultaneamente com outros a recriarem uma cena do casino. Individualmente, há que salientar a prestação de Romeu Costa, o qual conseguiu pôr em Alexei toda a carga emocional que lhe era inerente, fazendo um excelente trabalho no modo como passava de um estádio de auto-reflexão para o diálogo com outro personagem.

Destaque ainda para a dupla que compõe as irmãs adolescentes, a qual transmite toda a problemática da idade, numa mistura de inocência com alguma promiscuidade. A sua relação pode ser descrita como algo estranha, mas também como sendo cúmplice e de mútua protecção e compreensão. Terá sido, certamente, um grande desafio para as duas actrizes, Iris Cayatte (Natacha) e Raquel Castro (Nadia) pela complexidade da índole das suas personagens.

A música deste espectáculo, a cargo de Paulo Furtado e Rita Redshoes, contribui significativamente para todo o ambiente gerado em cena, pelo modo como dita o decorrer da história e como é preponderante no entendimento do estado de alma de cada personagem. Foi todo um trabalho de improviso por parte dos dois músicos que combinou perfeitamente com o romance, tendo, inclusive, funcionado como discurso interior de Alexei.

No fim, o ambiente é de decadência. Podemos dizer que esta não é uma história comum, com um final feliz. É antes a história do ser humano, deste ser vivo cheio de racionalidade mas tão débil, tão fraco, tão instintivo e primário que se deixa levar pelo vício que lhe assola o pensamento. Nada aqui surge ao acaso. A história será por certo um reflexo do próprio Dostoiévski, em que muito do que foi a sua vida, do qual se sabe o terrível vício do jogo que possuía, está reflectido nesta narrativa. Neste sentido, não temos propriamente uma obra adaptada à contemporaneidade, mas sim uma obra que por si só é e será sempre contemporânea.