Se o centralismo das decisões políticas e económicas é tão contestado, a cultura começa a marcar a diferença.
Trinta e nove degraus, a peça baseada na série de John Buchan e agora apresentada em português pela produtora Statement, estreou em Coimbra no dia 20 de Janeiro tendo mantido um registo de itinerância pelo país. À capital só chegou dia 3 de Maio, mais precisamente ao Teatro Villaret que contou, naquele dia, com “tantos amigos na plateia” como referiu Paulo Costa (um dos produtores).

Com uma duração de aproximadamente 1:45h, esta peça assume quatro actores em cena – Inês Castel-Branco, João Didelet, Rui Melo e Joaquim Horta – que não estão de parabéns.

A adaptação portuguesa não faz jus à qualidade de representação de outras adaptações que, essas sim, têm merecido variados prémios.

A curiosa e importante característica desta obra é o facto dos actores ao longo da trama irem mudando de personagens
e procurando a sua versatilidade enquanto profissionais da arte de Talma. Aquilo que é conseguido com talento, através do transporte do público entre realidades e quadros dramáticos distintos, não é atingido nesta adaptação.

Inês Castel-Branco brinda-nos à chegada com um sotaque que pensamos ser francês, que depois entendemos ser alemão, mas concluímos não passar de um mau setubalense. A pouca qualidade continua com Rui Melo. Este actor, que a par com Didelet deveria fazer o maior número de trocas de personagens ao longo da peça, parece dar vida sempre ao mesmo. Todas as suas interpretações têm os mesmos trejeitos faciais, e as mesmas formas de “puxar a gargalhada”. Notoriamente inspirado em Herman José, e em personagens como Nelo, Rui repete a estratégia que usou em Produtores (2008, Teatro Tivoli) e torna-se cansativo pelo uso ad nauseum dos mesmos recursos.

João Didelet e Joaquim Horta estão ao mesmo nível – artísticos q.b.. O primeiro valendo-se das suas formas mais redondas e da sua baixa estatura e o segundo da sua técnica de representação televisiva.

Paradoxalmente, o humor tem características muito próprias e não pode ser pensado a brincar. A sua escrita requer um
cuidado incrível e cada pormenor tem de ser analisado minuciosamente. Quando assim não é surgem brincadeiras como a de Inês Castel-Branco ao traçar a perna para um lado e para o outro, num movimento exagerado e sem qualquer objectivo.

Na estreia houve ainda outros momentos que deixaram muito a desejar. No original, a personagem interpretada pela atriz vai passar uma noite com a interpretada por Joaquim Horta enquanto Rui Melo se encontra a fazer de proprietária da estalagem que os albergará. A dado momento a personagem de Melo refere que acenderá a lareira do quarto. O que na peça americana resultaria num non sense de uma ventoinha ligada com umas fitas vermelhas a ondular ao sabor do seu vento, nesta, em nada resulta. Ninguém “acende a lareira” e a (suposta) piada fica em suspenso. Este tipo de incoerências, que até podem passar despercebidas ao público em geral, estragam a peça aos amantes da arte de fazer humor e, sobretudo, da arte de representar.

Em suma, uma intriga bem-humorada que tinha tudo para ser uma confortável comédia, perde pela interpretação e pelas diversas incoerências da adaptação. No entanto, e como na maioria dos menos bons trabalhos artísticos, haverá sempre quem goste. Lembremo-nos apenas que quatro palhaços também põe uma grande plateia a rir e não é por isso que podemos apelidar o seu trabalho (na generalidade) de artístico.

Esperemos que a Statement nos apresente melhores resultados nos próximos trabalhos.