Audrey Hepburn é uma das maiores divas do século XX, ainda hoje recordada como um ícone do cinema e da moda, um pouco por todo o mundo. Vencedora de um Óscar da Academia, a actriz representou em mais de trinta títulos, entre filmes e séries televisivas, carreira que recordamos aqui em dez das principais produções em que participou. Desde a Audrey princesa à Audrey florista, passando pela Audrey socialite e pela Audrey invisual, revisitamos a Audrey que todos conhecemos, com muitas faces, mas sempre com a beleza que a caracterizou até ao fim da vida.

Férias em Roma (1953)

Audrey é a princesa Anne neste Roman Holiday, embarcando numa viagem pelas capitais europeias. Quando chega a Roma com a sua comitiva, Anne começa a rebelar-se contra os seus deveres reais, fugindo a certa altura dos seus aposentos. No entanto, um sedativo que tomara antes, contra a sua vontade, começa a fazer efeito, e a princesa adormece num banco na rua. É encontrada pelo jornalista americano Joe Bradley, que a leva para o seu apartamento. Quando se apercebe de que a rapariga que dorme no seu sofá é a princesa Anne, Joe promete ao editor uma entrevista exclusiva com ela, vendo uma oportunidade de ganhar dinheiro com a situação. Contudo, aquelas “férias em Roma” com a princesa vão para além do profissionalismo, desenrolando-se um romance apaixonante.

Gregory Peck, que partilha o protagonismo com Audrey, afirmou antes da estreia que “a verdadeira estrela do filme é Audrey Hepburn“, insistindo para que ela fosse creditada com o mesmo destaque que ele. Audrey é, de facto, a mais elogiada por todos, tendo J. F. Kennedy afirmado que era a sua actriz favorita e tendo, ela própria, ganho um Óscar pela sua Anne. Realizado por William Wyler, este Férias em Roma, que causou sensação aquando da estreia, conta com um argumento de John Dighton, pseudónimo do autor Dalton Tumbo, numa história da ‘Cinderela ao contrário’, adaptada ao cinema numa clássica comédia romântica.

 

Sabrina (1954)

Em Sabrina, Audrey veste a pele de uma rapariga jovem e tímida, filha do motorista de uma família muito abastada. Linus e David Larabee são dois irmãos que gerem o negócio da família: Linus é o mais trabalhador, não tendo tempo para mulher e filhos; David, por seu lado, casou já três vezes e pivilegia o prazer em detrimento do trabalho. Sabrina Fairchild viveu toda a vida apaixonada por David, que não dava sinais de corresponder, até ela ir viver para Paris durante dois anos e regressar bonita e sofisticada. Capturando a atenção de David, Sabrina dá por si a apaixonar-se por Linus, contra todas as expectativas, descobrindo que o frio e viciado em trabalho Linus também se está a apaixonar por ela.

O romance entre Audrey Hepburn e William Holden, intérprete de David Larabee, passou da tela para a vida real durante as gravações. Quanto a Humphrey Bogart, que interpreta o papel de Linus, disse acerca de Audrey, nomeada para um Óscar também por este filme, que “é como uma boa tenista, imprevisível, que varia as suas jogadas“. Sabrina é realizado por Billy Wilder e protagonizado por estes três grandes actores do século XX.

 

Guerra e Paz (1956)

Numa adaptação do romance de Leo Tolstoi, a Rússia prepara-se para ser invadida pelas tropas de Napoleão e os condes Nicholas Rostov e Pierre Bezukhov, mais o príncipe Andrei Bolkonsky, encontram-se entre os soldados russos. A vida de Pierre altera-se com a morte do pai, que lhe deixa uma vasta herança. Apaixonado por Natasha, irmã de Nicholas, Pierre acaba por casar com a manipuladora princesa Helena, por Natasha ser demasiado jovem, mas o casamento acaba quando percebe a verdadeira natureza da esposa. Quanto a Andrei, é capturado e posteriormente libertado pelos franceses, regressando a casa para ver a mulher morrer a dar à luz. Pierre e Andrei reencontram-se meses depois e Andrei apaixona-se também por Natasha, mas o seu pai só permite o casamento após o 17º aniversário da rapariga.

Audrey é Natasha neste War and Peace, contracenando com Mel Ferrer e Henry Fonda. Ferrer torna-se posteriormente seu marido e a actriz afirma que “os seus olhos penetraram-me completamente”, relativamente à forma como se apaixonou. King Vidor realiza o drama de guerra e romance, que explora as vidas de duas famílias aristocratas.

 

Ariane (1957)

Neste Love in the Afternoon, o detective Claude Chavasse é contratado para seguir uma mulher suspeita de infidelidade com o libertino Frank Flannagan. Ao confirmar a traição, o marido planeia então matar o amante da esposa, contando a Claude os seus planos e sendo ouvido pela filha deste, Ariane. A jovem alerta Frank para o perigo que corre, criando um passado falso para si própria. Completamente apaixonada, vê Flannagan partir de novo para a América e acompanha as suas escapadelas românticas pelas notícias, mas volta a vê-lo um ano depois, em Paris, contando-lhe histórias das suas próprias conquistas. Frank fica intrigado com aquela rapariga, até um pouco ciumento pelo seu passado, contratando Claude para descobrir mais sobre ela. O detective pede a Frank para não partir o coração da filha quando se apercebe da situação.

No papel de Ariane, Audrey contracena aqui com Maurice Chevalier e com o veterano Gary Cooper, bastante mais velho do que ela. A comédia romântica é também realizada por Billy Wilder, que tece os maiores elogios a Hepburn: “Longe das câmaras, ela era apenas uma actriz. Muito magra, boa pessoa, e por vezes quando estava no local de filmagens passava despercebida. Mas (quando estava perante as câmaras) havia algo nela… absolutamente adorável. Nós confiávamos nela“.

 

Cinderela em Paris (1957)

Funny Face conta a história de Dick Avery, um fotógrafo de moda que trabalha para uma conceituada revista feminina. Depois de uma sessão fotográfica numa livraria, Dick ajuda a empregada da loja, Jo Stockton, a arrumar o espaço. Mais tarde, ao observá-la ao fundo de uma das suas fotografias, fica fascinado com a sua beleza e mostra-a a Maggie Prescott, editora da revista, que concorda com Dick. O fotógrafo oferece então a Jo um contrato para se tornar modelo, que esta aceita relutantemente, apenas porque inclui uma viagem a Paris. Eventualmente, a sua atitude relutante acaba por ser abandonada, apreciando o trabalho e a companhia de Dick.

Stanley Donen realiza este romance musical, no qual Audrey contracena de novo com um homem mais velho, desta vez Fred Astaire, participando em inúmeros números de dança. A sua personagem, Jo, veste-se sempre de preto, como é próprio dos empáticos, num confronto satírico com os existencialistas, mas quando veste a ‘pele’ de modelo transforma-se no que o fotógrafo quiser. A personagem de Astaire baseia-se no grande nome da moda Richard Avedon, que declara que “Audrey estava sempre segura de quem era e de como queria que os outros a vissem“.

 

A História de uma Freira (1959)

Uma freira que tem de ultrapassar diversas dificuldades na sua vida. Gabrielle van der Mal abdicou de tudo para se tornar uma freira: das posses da sua família, dos irmãos, do pai cirurgião que não a compreende, da sua integridade até, sendo integrada nas regras retrógradas da instituição. Algum tempo depois, Gabrielle é finalmente destacada para ir para o Congo, onde trabalha com o Dr. Fortunati, um médico cínico mas brilhante, que miraculosamente cura a sua tuberculose. Quando regressa para a Bélgica, anos mais tarde, descobre que o pai foi assassinado pelos alemães, que invadiram o país. Decide então abandonar a vida religiosa, não se conseguindo manter neutra quanto aos invasores da sua terra natal.

A irmã Luke (como é chamada) de Audrey é um dos seus papéis dramáticos mais elogiados, tendo sido nomeada para diversos prémios internacionais, incluindo o Óscar de Melhor Actriz. Peter Finch é o charmoso Dr. Fortunati, neste The Nun’s Story, do qual a irmã é prevenida: “Não penses nem por um segundo que o teu hábito te irá proteger“, é afirmado no filme. Trata-se de uma produção que lida com o tema da religião de uma forma delicada, com realização de Fred Zinnemann.

 

Boneca de Luxo (1961)

Naquele que é talvez o mais conhecido papel de Audrey, a actriz interpreta Holly Golightly, uma jovem socialite de Nova Iorque. Holly vive sozinha com um gato sem nome, que apanhou da rua, e começa a interessar-se por Paul Varjak, um escritor desinspirado que se mudou para o seu prédio. Também Paul fica fascinado por aquela mulher, que o confunde e intriga, ao mesmo tempo, por ser tão diferente no mundo real e dentro de casa: lá fora é extrovertida, sensual e sofisticada, mas quando está só e resguardada no seu apartamento, Paul observa a sua vulnerabilidade, a sua sensibilidade e a sua personalidade por vezes neurótica. Um romance inesperado e dissimulado acaba por nascer de uma grande amizade, mas a ambição de Holly de ser alguém acabará por ser um entrave à relação entre ambos.

Para a própria Audrey, esta Holly Golightly criada por Truman Capote foi um grande desafio na sua carreira: “A melhor coisa que já fiz, porque foi a mais difícil“. Breakfast at Tiffany’s nomeou-a para um Óscar e lançou uma canção de sucesso, Moonriver, com música de Henry Mancini, que ainda hoje faz as delícias de milhares de espectadores.

 

Charada (1963)

Em Charade, Audrey é Regina Lambert, uma mulher prestes a divorciar-se do seu marido quando chega de Paris e descobre que ele foi assassinado, depois de converter todo o dinheiro deles em notas, agora desaparecidas. Mais tarde, a CIA revela-lhe que o marido era uma das cinco pessoas que tinham roubado dinheiro ao estado americano durante a II Guerra Mundial, e o governo quer-lo de volta. Regina recebe então uma visita Peter Joshua, que conhecera nas férias. Peter, interessado no dinheiro do marido dela, oferece-se para ajudar nas buscas e dá início a uma charada com romance incluído, na qual Regina nunca sabe se pode realmente confiar no homem à sua frente ou se, por outro lado, deve desconfiar dele ao máximo.

O companheiro de aventura de Hepburn neste misterioso filme à Hithcock é Cary Grant, também uns anos mais velho do que ela, mas à altura no que toca ao humor e à jovialidade. Charada é igualmente realizado por Stanley Donen, não incluindo aqui, no entanto, os habituais números musicais dos seus filmes.

 

Minha Linda Senhora (1964)

Numa adaptação do musical da Broadway, este My Fair Lady oferece-nos a personagem do professor Higgins, que aposta com o Coronel Pickering que consegue transformar uma florista de rua, pobre e inocente, numa verdadeira lady. Quando o consegue, Freddy Eynsford-Hill apaixona-se desesperadamente pela rapariga, de seu nome Eliza Doolitlle, e ao ver que Higgins não lhe dá crédito pelas transformações, ela deixa-o por Freddy. Contudo, ao vê-la ir embora, Higgins percebe que se habituou a Eliza e que não consegue viver sem ela.

Não foi fácil para Audrey adoptar a pronúncia do dialecto cockney de Eliza, mas mais uma vez a actriz convenceu tudo e todos, incluindo o realizador, George Cuckor. Do elenco principal fazem também parte Rex Harrison e Stanley Holloway. Quanto à parte musical do drama, Audrey aceitou o papel sob a condição de ser ela própria a cantar, treinando a voz e esforçando-se ao máximo para corresponder às expectativas. No entanto, ironicamente, a produção do filme optou por substituir a sua voz pela de Marni Nixon, o que lhe pode ter custado o Óscar de melhor actriz.

 

Os Olhos da Noite (1967)

Neste último de dez filmes destacados, Audrey é Susy Hendrix, uma mulher que perdeu recentemente a visão e ainda não se adaptou totalmente à mudança. Depois de uma viagem de avião, uma mulher pede ao marido de Susy para lhe segurar numa boneca, para evitar estragar a surpresa à sua filha. Mas o verdadeiro motivo é evitar o parceiro, Harry Roat, de quem quer esconder as drogas escondidas na boneca. Ao descobrir a artimanha, Harry, um assassino psicótico, mata a sua mulher e deixa o corpo no apartamento de Susy e Sam, onde detecta a boneca com heroína. Harry e dois amigos aproveitam-se da cegueira de Susy para fingir que são velhos amigos, ou detectives, num jogo que parece não ter fim.

Se provas de que Audrey se empenhava verdadeiramente na profissão fossem precisas, a preparação para o papel de Susy neste Wait Until Dark diz tudo: a actriz passou várias semanas no centro de reabilitação para cegos de Lighthouse, recusando usar óculos escuros na rodagem, criando a própria cegueira da protagonista. “A minha esperança era poder exprimir a cegueira do interior para o exterior e, de algum modo, convencer o público“, afirmou a este respeito, tendo sido nomeado para um Óscar. Realizado por Terrence Young, o filme é também protagonizado por Alan Arkin e Jack Weston.