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Audrey, sempre

Em 1929, o mundo preparava-se para receber um dos maiores abalos económicos de sempre, que no entanto se resolveu com o tempo. O que nunca se chegou a desvanecer foi a marca que Audrey Hepburn, nascida no mesmo ano, deixou no cinema como ícone imortal. Nasceu no dia 4 de Maio. 82 anos depois, vale a pena recordá-la.

A sua beleza era enternecedora. Nunca foi sumptuosa, espampanante, incrivelmente bonita. Manteve sim os traços simples, quase modestos, e foi consensual e naturalmente bela. A sua figura inconfundível talvez tenha sido meio caminho andado para o sucesso: esguia, elegância no andar, grandes olhos, ar quase adolescente.

O cromossoma da beleza de Audrey talvez tenha vindo do pai, empresário britânico, ou do sangue azul da mãe, baronesa holandesa descendente de reis ingleses e franceses, ou ainda dos seus antepassados húngaros. Talvez Audrey Hepburn tenha sido simplesmente uma mistura bombástica.

A alegria que transparece no sorriso que colocou em cada um dos trabalhos não deixa adivinhar a adolescência que realmente teve. Passar os anos 30 e 40 do século XX entre Inglaterra, onde estudou e descobriu a paixão pela dança, e Holanda, para onde se mudou para viver com a mãe, não terá sido fácil para ninguém e para Audrey também não foi. Passou fome. Viu muitos dos que lhe eram próximos serem mortos ou levados pelas forças Nazis. Para sempre lhe ficou na memória a história de uma menina da sua idade que escreveu um diário enquanto estava privada de liberdade num anexo. Mais tarde haveria de ser convidada várias vezes para interpretar Anne Frank e declinaria sempre.

Após a guerra e tempos em que teve de lutar para sustentar a familía, surgiu a oportunidade de seguir em frente. Tentou o ballet, mas tinha-se tornado demasiadamente alta; fez pequenos trabalhos enquanto actriz e modelo em Inglaterra, mas o grande ponto de fuga foi ter com ela sem ser procurado. A figura inspiradora de Audrey Hepburn deslumbrou a escritora Colette quando a viu, por mero acaso, em Monte Carlo em 1951. A romancista estava a escrever a peça Gigi para a Broadway e, a partir desse momento, Audrey era inevitavelmente a personagem principal.

Dali em diante, teria de se habituar ao papel de protagonista, não só na Broadway, mas sobretudo em Hollywood. Os convites choveram e converteram-se em sucessos imortais desde o primeiro momento: Férias em Roma (1953), o seu primeiro filme nos Estados Unidos, é logo nomeado para dez Óscares, sendo que Audrey vence o de Melhor Actriz Principal. Até 1967, depois de lançar o filme Wait Until Dark (1967), a estrela confirmada de Hollywood aproveita a carreira que constrói na indústria cinematográfica.

Filmes como Sabrina (1954) ou Breakfast at Tiffany’s (1961) são sucessos que permanecem ano após ano mas que não transparecem algumas das agruras que a vida trouxe à actriz. Após casar com Mel Ferrer, aquela que dizia, com graça, que “casar é trocar a admiração de muitos homens pela crítica de um só”, abortou duas vezes, uma delas na sequência de uma queda de cavalo nas filmagens de O Passado não Perdoa (1960). A sua vida pessoal não foi, de resto, estável durante muito tempo: teve pelo menos uma relação extraconjugal com Albert Finney, divorciou-se, voltou a casar-se para voltar a divorciar-se. De todos estes enlaces e desenlaces, ficaram para o resto da vida dois filhos: Sean e Luca, suas preocupações centrais. Não as suas únicas preocupações.

Após o afastamento de 1967, teve alguns regressos ao cinema com filmes como Sydney Sheldon’s Bloodline (1977), que lhe dão dinheiro mas não convencem o público nem a crítica. É por esta altura que a sua aparência, por virtude da idade, deixa de ser o que era e Audrey retira-se totalmente das luzes da ribalta. Aí revela-se um ser com preocupações altruístas para lá de toda a imagem e visualidades que cultivava.

Torna-se Embaixadora Universal da UNICEF em 1989 e percorre África em missões de ajuda humanitária. Este é o seu lado menos conhecido, como pouco conhecidas são as suas fotografias desta época, sempre raras e pessoais. Talvez uma mulher que sempre apresentou ao mundo uma imagem de jovialidade, alegria imensa e beleza, não quisesse que o mesmo mundo testemunhasse o seu envelhecimento, de certa forma, momento de fragilidade. Por outro lado, Audrey parecia farta da indústria que nada mais lhe podia dar. Já tinha atingido o sem êxtase de fama e reconhecimento público. Esta foi a altura de uma mudança radical, que embora lhe tenha dado a oportunidade de se oferecer ao outro também a debilitou muito.

Assistir à pobreza e à fome em directo, ao seu lado, não lhe foi fácil, e no fim da vida Hepburn estava emocionalmente esgotada. A sua saúde física, também debilitada, ditou o seu fim. Em 1993, volvidos 64 anos sobre aquele 1929, Audrey Hepburn morre com cancro do cólon.

1929 Trouxe-nos a grande quinta-feira negra, mas também a grande Audrey. As crises económicas vêm, fazem mossa, resolvem-se, deixam-se substituir por outras. As estrelas vêm, fazem mossa, destacam-se, tornam-se ícones.

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