Uma saia esvoaçante ao som do violino. Cadeiras preenchem o palco num jogo de simplicidade complexa. Um candelabro imponente mas tímido. Três unidas irmãs, Olga, Macha e Irina, com essências tão diferentes, a quem a vida abafou como uma erva daninha, desfiam recordações de uma vida longínqua em Moscovo. Uma vida diferente que é necessário pressentir, procurar e sonhar.

Uma cidade pequena onde tudo é visto como desnecessário e supérfluo, onde a pequenez e a solidão conduzem à vontade de uma partida para a terra natal, apesar de várias tentativas falhadas de se enquadrar numa nova vida naquela mesma terra. Uma melancolia constante. O não pertencer a um sítio, a um espaço, o nunca estar bem onde estamos. O choque entre o indivíduo e a sociedade, um choque entre o eu e o outro.

Uma sede de luta, vida, trabalho que dá azo a várias discussões sobre a importância do trabalho para a construção de uma sociedade diferente, já que é por não conhecermos o trabalho que somos pessoas tão tristes. Crenças que o tempo faz questão de alterar com a experiência de uma vida que nos toca a nós.

Palavras onde o drama se esconde sorrateiramente nos risos da comédia, num registo de desabafo tão audível como um grito. Um palco onde a vida se passa em cenas simultâneas na criação do sofrimento de uma família.

Porque é que o homem se farta na vida? Porque ela é difícil, cheia de mistério e infeliz. Porque ela se transforma a cada minuto à frente dos nossos olhos e nós muitas vezes perdemos o poder de criá-la de acordo com os nossos sonhos. Resta o sonho de que amanhã estaremos livres e quão agradável isso é! Foram-se todos embora. Não restou ninguém! Ficamos sós com as nossas esperanças. A metáfora do sonho destruído pela passagem do tempo. Para Moscovo!

A insensatez da alma humana que procura sempre a diferença entre o que é agora e o que era então, mesmo na perda eminente de tudo, até dos próprios objectivos que norteiam a nossa existência. Cada personagem encerra em si mesmo um drama e debate-se com os seus conflitos específicos Esquecemo-nos de tudo: Esqueço-mo de tudo. E a vida passa e nunca mais volta. A vida que não volta atrás, vidas que perdem a sua energia, valores e princípios.

A crença num destino que nos escapa, em decisões que têm de ser tomadas mesmo contra nós mesmos. A impossibilidade de se confrontar com a realidade e de alterar. Porque é que o sonho não se torna motor de futuro? A dúvida que persiste. Apesar de tudo, quando o próprio destino se encarrega de boicotar os seus planos é necessário persistir nos sonhos que sempre orientaram a nossa existência.

A cidade está a ficar vazia e as pessoas a ficarem parecidas umas com as outras. As sombras começam a tornar-se presença constante. Tudo tem o seu fim. E aqui estamos nós a despedir-nos. É preciso viver! Uma pergunta se mantém: Para quê sofrimento?

Nós ficamos sozinhas para começar a nossa vida de novo. Para Moscovo!

httpv://www.youtube.com/watch?v=RnjyQJaMnYE

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Passados cem anos após a primeira exibição da peça em Moscovo, a Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II recebe em palco As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, entre 14 de Abril e 22 de Maio, numa co-produção com a Ao Cabo Teatro, uma estrutura criada em 2000 com a vocação de apoiar criadores independentes sem meios próprios de produção.

Desde 1955, data da estreia em Portugal pelo Teatro d’Arte de Lisboa, a peça As Três Irmãs já passou pelos mais diversos espaços e grupos: Grupo de Iniciação Teatral da Trafaria (1977), Teatro Nacional D. Maria II (1980, com nomes sonantes da representação em Portugal como Catarina Avelar, Lígia Telles, Fernanda Alves e Henriqueta Maya), Teatro da Cornucópia (1988), Companhia de Teatro de Almada (2002), S. Luiz e Teatro da Garagem (2009).

A encenação fica a cargo de Nuno Cardoso, que trabalhou o texto de Tchekhov a partir da tradução de António Pescada e completa assim a trilogia de Tchekhov, após ter apresentado Platónov em 2008 e A Gaivota em 2010. Para o encenador, “As Três Irmãs é um texto doente, sobre pessoas doentes, que se convencem que estão saudáveis, ou que a saúde vai existir, se não for para elas, para os seus filhos. É um texto sobre a extinção, sobre a falência enquanto condição humana”, centrando-se nos mecanismos pessoais de falência, de fuga, de delírio e de desejo como mote do seu trabalho criativo, organizado em quatro actos e cada um deles em um tempo diferente.

Durante cerca de três horas e meia, Daniel Pinto, Isabel Abreu, João Grosso, José Neves, Luís Araújo, Manuel Coelho, Maria Amélia Matta, Maria do Céu Ribeiro, Micaela Cardoso, Sara Carinhas, Sérgio Praia, Tónan Quito e Vitor d’Andrade dão vida às personagens, que mostram os seus dramas num palco marcado pela falta de uniformidade e preenchido de cadeiras, todas elas provenientes de peças anteriores.

Os figurinos de As Três Irmãs são da responsabilidade da equipa de criadores, João Branco e Luís Sanchez, mais conhecidos como Storytailors, que têm vindo a colaborar com o encenador desde 2007. O trabalho de pormenor é bem visível nos figurinos da peça, destacando-se sobretudo nas fardas militares que predominam durante o espectáculo. Os criadores apostam ainda nas personagens femininas, em cores fortes como o vermelho ou azul ou mesmo o preto e o branco, em peças que contribuem para demarcar o perfil das personagens.

O som do violino é uma constante, evocando as tradições musicais de leste. Um som triste e melancólico que cria no público e nas personagens o sentimento de saudade, que marca toda a peça. Também a guitarra aparece, contudo mais ligada a um registo cómico. Os sons de cariz militar contribuem ainda para acentuar o ambiente que circunda toda a história. O desenho de som de As Três Irmãs é de Rui Dâmaso.

A iluminação é também ela um dos pontos fortes da peça, estando ao cargo de José Álvaro Correia. A luz, na maior parte do tempo reduzida, criando um ambiente de casa escura e triste, acompanha o percurso das personagens e dá conta do seu humor. De destacar o jogo de sombras, que por duas ou três vezes preenche o palco da Sala Garrett.

Com bilhetes que variam entre os 7,5 e os 16 euros, As Três Irmãs está em cena de Quarta a Sábado às 21:30 e Domingo às 16:00. Para Moscovo!