Depois do sucesso obtido com Moon – O Outro Lado da Lua (2009), Duncan Jones presenteia os fãs de ficção científica com O Código Base, onde a acção não falta, mas a reflexão também não. Jake Gyllenhaal volta a brilhar no ecrã, na pele do protagonista, Colter Stevens, e é também ele que vai levar o espectador a perder-se e reencontrar-se na sua história e, mais ainda, a solidarizar-se com ele.

Directamente de Hollywood e podendo, em alguns pontos, fazer lembrar A Origem, O Código Base, não sendo tão extraordinário como o filme de Nolan, não deixa de surpreender pela positiva. Trata-se de um grande filme, com um argumento original, que prende a cada minuto, em que o terrorismo assume um papel secundário ao lado das questões éticas que se levantam e que são de muito maior importância.

O capitão Colter Stevens (Jake Gyllenhaal) é um condecorado soldado que acorda no corpo de um homem desconhecido e descobre que está envolvido numa missão para encontrar o bombista que causou a explosão de um comboio de Chicago. Numa missão que para ele era totalmente desconhecida, apercebe-se de que faz parte de um programa experimental do governo, chamado O Código Base, que lhe permite viver a identidade de outro homem nos últimos oito minutos da sua vida. Com um segundo alvo, que ameaça matar milhões de pessoas na baixa de Chicago, Colter têm de reviver o incidente vezes sem conta até recolher todas as pistas e resolver o mistério de quem está por detrás dos atentados, evitando o próximo ataque.

A excelente realização de Duncan Jones, aliada ao interessante argumento de Ben Ripley, fazem com que O Código Base se distinga de entre os filmes deste ano. A inevitável repetição dos mesmos acontecimentos diversas vezes não cansa, como se poderia fazer esperar, e isso não ocorre precisamente porque ela é necessária para que o filme aconteça. A cada tentativa de Colter surgem novos dados, novos acontecimentos, que deixam o espectador cada vez mais compenetrado nos desenvolvimentos da história. A experiência de morte, por que tantas vezes Colter passa, é sentida na sala de cinema de uma forma muito intensa e esse é um ponto que destaco.

Inicialmente, o filme poderá parecer confuso, já que quem assiste partilhará da ignorância do protagonista. A verdade vai-se descobrindo ao mesmo tempo que ele a descobre. Esta forma de contar a história que Duncan Jones adoptou prima pela originalidade e resulta bem, já que a curiosidade do espectador vai aumentando à medida que se vê também ele envolvido na trama. Contudo, as muitas repetições, onde se acrescentam sempre novos factos e novas tentativas de descoberta, poderão fazer com que se perca o fio à meada, podendo mesmo levar a algumas incongruências. O final é outro dos pontos menos fortes de O Código Base, que não deixa, apesar disso, de merecer muitos elogios.

Mais ainda, este thriller de ficção científica levanta questões éticas fortes, que poderão assemelhar-se à questão da eutanásia, duma forma muito mais alternativa. A personagem Colleen Goodwin, interpretada por Vera Farmiga, depara-se com um dilema: seguir a sua consciência ou obedecer a ordens superiores. Questões como o direito à vida, ou, neste caso, à morte, estão acima de qualquer outra temática, neste filme. Será que salvar o mundo está acima de morrer de forma digna e partir em paz? É sobre isso que o público será obrigado a reflectir e a envolver-se na história.

Os cenários claros, onde a luz abunda, de quando o soldado vive repetidamente os oito minutos de vida de outro homem, contrastam com os locais claustrofóbicos e sombrios onde se encontra quando volta a si, o que demonstra bem a paradoxal sensação de liberdade ao viver as repetições e a impotência que sente ao voltar a si. A relação que o protagonista estabelece com Christina Warren (Michelle Monaghan) é outro dos elos que poderá aproximar o espectador.

A banda sonora, de Chris Bacon, é mais um dos pontos fortes de O Código Base, bem como o desempenho dos actores. Jake Gyllenhaal volta a receber um papel ao seu nível e a sua interpretação é excelente. A angústia que Colter sente, o caos que vai na sua cabeça e a sua força e persistência são muito bem expressados pelo actor. Destaco ainda a prestação de Vera Farmiga, cuja personagem é de extrema importância no desenrolar de O Código Base.

Não sendo prefeito, o filme de Duncan Jones não deixa em nada de merecer grandes elogios e deve ser visto no cinema pelas experiências que proporciona. E há que reconhecer o excelente trabalho de Gyllenhaal, de volta aos bons papéis. O Código Base exige que o espectador seja um elemento activo do início ao fim e isso faz falta em muito do cinema actual.

8/10

Ficha Técnica:

Título original: Source Code

Realizado por:  Duncan Jones

Escrito por: Ben Ripley

Elenco: Jake Gyllenhaal, Michelle Monaghan, Vera Farmiga, Jeffrey Wright

Género: Ficção Científica, Thriller, Acção, Mistério

Duração: 93 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos