Os The Gift estão de volta, sete anos depois, dispostos a conquistar o mundo com um novo álbum verdadeiramente explosivo. Explode faz uma apologia das coisas boas da vida e transporta-nos para uma banda de cara lavada (ou suja de tinta fresca), fortemente influenciada por uma fulgurante viagem à Índia. Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, John Gonçalves e Miguel Ribeiro regressam para mostrar que a música portuguesa ainda tem muito para dar e pode assumir diversas cores e feitios.

A explosão de cores, sabores, sensações, paixões, sons, é audível desde o primeiro minuto de Let It Be By Me, faixa que dá início ao álbum. A voz da vocalista mistura-se com os ritmos descontrolados e confusos da música, exigindo uma grande capacidade de atenção para se conseguir distinguir todos os sons presentes. O meu conselho é que não os tentemos distinguir e apreciemos a sonoridade única da sua junção, bem como o final brusco e cru da canção, surpreendente e deliciante.

Made For You é um hino à esperança, à amizade e ao amor, à confiança nos outros e sobretudo em nós próprios. Numa época em que se fala de redes sociais a toda à volta, o verso “Read books not facebooks” está a ficar na boca de todos, aqui celebrizado pelos The Gift, que misturam de novo uma enormidade de sons e sensações nesta canção. É uma das que mais apetece gritar aos céus, para ti, para ele e para ela, porque nos identificamos verdadeiramente com a necessidade de confiança e a emoção aqui ilustradas.

Segue-se RGB, com um início já conhecido de todos nós. A originalidade prende-se desde logo com o nome da canção, representante das cores primárias: vermelho (magenta), verde e azul – “they make my life full of light flashing“. Estas são associadas ao amor, à alegria, como de resto acontece em todo o álbum, numa letra que parece confundir quem a ouve mas que, ao mesmo tempo, consegue fazer todo o sentido para quem a decifra. Os solos instrumentais são perfeitos e a última quadra marca definitivamente esta RGB como um romance, uma enorme paixão pela vida, que agrada ao ouvido.

Mermaid Song fala-nos de sereias, de vida eterna e de reis, conjugando harmoniosamente as vozes masculina e feminina, em uníssono, bem como os sons electrónicos e ritmos diversos. A letra repete-se, mas sob formas ligeiramente diferentes, o que acaba por lhe dar uma tonalidade engraçada. No entanto, acaba por ser uma das músicas menos interessantes do álbum, uma passagem para o que se segue: uma maratona de The Singles, com cerca de doze minutos.

Com um ritmo agradável e mutável ao longo do tempo da música, começa por ser mais rebuscada, mais incisiva, quase furiosa, mas acalma pouco depois, surgindo mais romântica e confiante. A analogia com os “paper cuts” contribui para esta identificação entre quem canta e quem ouve e para a falada perda do medo. O meio da canção marca a mudança do instrumental, mais à frente marcado por um ritmo forte e egoísta na forma de se mostrar: um “open your eyes” que significa não ter medo e não olhar para trás.

Sentimos que ouvimos três ou quatro músicas numa só, com letras tão diferentes e desligadas, mas ligadas entre si pela relação com o “eu” presente, que pode ser o “eu” de qualquer um. Com referências a bandas e situações da actualidade, a parte final é bastante repetitiva ao nível sonoro, mas agracia-nos com uns versos final que nos deixam apáticos pela sua sinceridade: “I’m feeling fresh now / Can see what’s right and wrong / Stop it now / I just did a 12 minute song“. Doze minutos de balanço positivo.

Primavera é a única canção cantada em português, neste álbum, com a voz de Sónia Tavares em grande destaque. Não sendo original na sua composição, agrada pelo refrão, pelos instrumentais, pelo romance que a rodeia e está implicado na letra. É bonita na sua génese e no que pretende acender em quem ouve, uma espécie de melancolia de quem ama, mesmo não sendo correspondido, mantendo a esperança na felicidade.

Stars will light your way” é o verso que me fica de Aquatica, uma balada no meio de tantas sonoridades, agradável e sensível de ouvir. Traz-nos um “first born son” que deverá conquistar o mundo, um rei que nasceu ou um simples indivíduo que deve encontrar o seu lugar no mundo. Mais uma vez, a vida aqui em destaque. Quanto a My Sun, brilha desde o início com os desejos de “one day” e as possíveis concretizações, “now“, desses e outros desejos, como um sol que nasce para um novo dia. “It’s because your life has just healed me…” – de novo o amor e a vida no centro do bem-estar, numa canção melodiosa, que fica certamente no ouvido.

httpv://www.youtube.com/watch?v=9cSRgEaD0to

Suit Full of Colours apresenta-se como outra das minhas favoritas deste Explode. Podemos dizer que é uma explosão de emoções, de desejos, de amor, na junção de dois mundos. Faz-nos sorrir pela sua simplicidade, pela forma como nos toca, com o “yes” e o “no” como desejo e medo, respectivamente. Pela sonoridade explosiva por si só, que se integra plenamente na tentativa de preservar algo que não se quer quebrar, nem que seja através de uma abordagem diferente do amor.

O “the end is near” presente em The Race is Long parece tentar consciencializar-nos de que faltam poucas músicas para terminar, pois não queremos parar de o ouvir. Ligeiramente repetitiva, esta música tem uma “beauty melody” e uma letra cheia, verdadeiramente recheada de tudo e nada, quase não se ouvindo no centro da explosão sonora. Fala-se de decisões difíceis, de confiança e de sonhos – um termo que ainda não tinha referido, mas se pode anexar a todo o álbum também.

Os oito minutos de Always Better If You Wait For The Sunrise, que são também os últimos do disco, realçando novamente a voz da vocalista, num desejo impossível de recuperar o amor vivido no passado. É poderosa, de uma carga emotiva muito forte, quase levando de nós a respiração. Há desespero e aflição na voz e na letra, em contraste com o início da música, calmo e saudável, que se reencontra algures na mesma. E sabe muito bem compreender isto à medida que se vai ouvindo uma e outra vez.

Explode é o quinto álbum dos The Gift, sete anos depois de AM-FM. Notam-se nele as influências de uma viagem à Índia, tornando-o mais arriscado, totalmente diferente dos anteriores. A verdade é que nunca gostei particulamente deles até ouvir pela primeira vez este trabalho. Explode supera tudo o que os quatro elementos da banda já fizeram.

É um álbum alegre, com as suas crises melancólicas pelo meio (e de originalidade também), cheio de sentidos e sensações, numa grande mistura de sons e cores que nos tocam de uma forma especial. É um trabalho que me faz ficar fã deles, de imediato, por tudo o que consegue captar e transmitir em apenas uma hora de música. A sua beleza é conseguida pelo risco que corre, por surpreender os que ouvem – no fundo, por se tratar de um trabalho original e valorativo da música portuguesa, ainda que maioritariamente cantada em inglês. Os concertos no estrangeiro que o digam.

Muitos podem vê-lo como uma perda de identidade dos The Gift e por estes tentarem dar um passo maior do que a perna. Vejo-o antes como uma tentativa de criar uma nova identidade, através de diferentes sonoridades, o que só fica a perder com algumas músicas menos bem conseguidas. No geral, este Explode é um ‘presente’ quase perfeito, na forma como se identifica com cada um de nós, numa verdadeira explosão de cores vivas e da vida em si. Para ouvir num dia mau ou num dia bom; para ouvir sempre que apetecer.

8/10