O palco do S. Luiz Teatro Municipal, aquando da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, recebe A Lua de Maria Sem, peça escrita por João Monge e com música de Alfredo Marceneiro. Maria João Luís, também ela responsável pela encenação do mesmo, e Manuela Azevedo conjugam a palavra escrita e cantada, criando uma peça de teatro e concerto dentro do mesmo espectáculo. O projecto culminou ainda na edição de um livro e CD com título homónimo. Pode ainda vê-lo hoje (Sábado) às 21:00 e amanhã (Domingo) às 17:00.

SINOPSE

O meu nome é Maria e ele será o que eu dele fizer”.

Maria Sem é uma mulher que quer aprender a amar, mas que acaba sempre por pouco sobre o amor saber. Uma mulher a quem “dói tudo, menos a vontade”, expressando pela palavra o que lhe vai no coração, palavras repletas de essência de alma. Palavras escritas e cantadas que se complementam e criam esta personagem com uma unicidade própria.

Nas recordações desfiadas, Maria Sem deixa transparecer os sonhos de um futuro, mas cedo se apercebe que eles nunca tomarão forma na realidade. “Quem és tu para destruir esse sonho só meu?”, pergunta ela à procura de uma resposta que ela sabe que nunca chegará.

A escuridão de Maria Sem é povoada por sentimentos que ela desconhece e por outros com que tem uma estranha e profunda familiaridade. O medo é um deles: “Habituei-me ao medo e não sei como lidar com isso”. Maria Sem não controla o que sente e considera-se eternamente inacabada: “Não tenho mão no que sinto. Sou de um estranho labirinto”.

Silêncios, ecos e música envolvem esta mulher de natureza solitária, mas que não hesita em arriscar para que a solidão sobre ela não vença. Um amor que as circunstâncias não permitiram, um amor não esquecido. “Inventei uma lua nova para te guardar comigo”, sussura Maria para si própria, na ânsia de que o seu amado a escute.

É a saudade que preenche o coração desta mulher. É a saudade que a faz aprender: “Aprendi contigo que a ausência e solidão nem sempre andam de mãos dadas”. Maria sabe que “tudo na vida tem hora de chegada e partida”, desejando estes mesmos momentos.

Entre a luz e a escuridão, Maria procura algo. Uma procura incessante entre as sombras. “Se tu andavas perdido fui eu que te encontrei”.

Com cinco letras, Maria. Era uma lua só minha.”

O PERCURSO DAS ARTISTAS

MARIA JOÃO LUÍS

Nascida em 1964, em Vila Franca de Xira, Maria João Luís começa o seu percurso em teatro em 1985, n’A Barraca. Passa ainda por outros famosos palcos da capital como o Teatro da Malaposta, Comuna – Teatro de Pesquisa, Teatro da Cornucópia, Artistas Unidos e S. Luiz.

Em 2004, recebe o Prémio de Melhor Actriz no Festival de Curtas Metragens de Badajoz com o filme Crónica Feminina, de Gonçalo Luz. Ganha ainda, em 2006, o Prémio da Crítica da Associação dos Críticos de Teatro com a peça Stabat Mater, de Antonio Tarantino, com encenação de Silva Melo.

Maria João Luís é ainda um rosto conhecido do público pela sua participação em vários filmes, novelas e séries.

MANUELA AZEVEDO

Nascida em Vila do Conde, em 1970, Manuela Azevedo é conhecida do público como vocalista dos Clã, fundados em 1992.

Em 1996, nos Prémios Blitz, os Clã são nomeados para Banda Revelação. Na edição do ano seguinte são nomeados para Melhor Banda, Melhor Canção, com Problema de Expressão, e ganham o prémio para Melhor Voz Feminina. Na edição de 2000, os Clã vencem nas categorias de Melhor Banda, Melhor Voz Feminina e Melhor Álbum, com Lustro. Em 2001, ganham o Globo de Ouro para Melhor Canção, com O Sopro do Coração.

O mais recente projecto dos Clã, que será lançado em álbum no próximo dia 26 de Abril, é dirigido ao público infantil e chama-se Disco Voador, levando aos mais novos sonoridades diferentes e histórias com que eles se identificam.

Manuela Azevedo integrou ainda o projecto Humanos e colaborou com vários artistas e bandas portuguesas como Ornatos Violeta, Trovante, Três Tristes Tigres, Virgem Suta e Peixe:Avião.

ENTREVISTA ÀS ARTISTAS

O Espalha-Factos esteve presente na estreia de A Lua de Maria Sem no passado dia 14 de Abril. Após o espectáculo e num ambiente informal, as artistas falaram com a nossa equipa e confidenciaram-nos o processo de construção do espectáculo.

Espalha-Factos (EF) : Como surgiu a empatia entre as duas no início deste processo?

Manuela Azevedo (MA): Foi muito natural. Nós encontramo-nos pela primeira vez aqui no S. Luiz, num café aqui ao lado, para combinar tudo, tendo sido um encontro mesmo muito breve. Mas o encontro mais a sério decorreu na sessão fotográfica, onde deu para verificar desde logo o profissionalismo da João, que iniciou logo a preparação da peça, muito focada na procura do olhar…

EF: E logo aí começou a procura e construção do espectáculo. Como decorreu essa procura? Tiveram muito tempo de ensaios?

Maria João Luís (MJL): Nós tivemos efectivamente muito pouco tempo de ensaio. Na realidade desenvolvemos um género de trabalho que é diferente dos outros tipos de peça de teatro, tendo sido um processo que esteve um pouco mais dependente da música: tivemos que ir para estúdio durante dois ou três dias, gravámos uma maqueta, que foi a base do nosso trabalho, e todo o espectáculo andou por aqui. Foi tudo muito rápido, embora tenha havido um trabalho de preparação para cada coisa.

EF: Como foi o trabalho de actor na construção do personagem, tendo em conta as variadas emoções presentes no espectáculo?

MJL: Tem que ver com a ‘alma’ dos artistas…

EF: Qual reacção esperavam da parte do público? Estavam à espera de uma reacção tão boa?

MJL: Sim, nós já tínhamos feito uma antestreia e tido essa experiência, mas cada espectáculo é sempre uma coisa muito intensa e há sempre da parte dos artistas um medo de falhar… mas assim que tudo começa, dissipa-se.

EF: A Manuela também tinha uma grande responsabilidade que era a de interpretar Alfredo Marceneiro, um dos grandes nomes do fado. Como a encarou?

MA: Eu acho que a melhor maneira de uma pessoa encarar uma responsabilidade é mesmo esquecer-se dela, não num sentido de leviandade… O importante é que a palavra tem que ser servida, e o fundamental é a relação que se cria entre os elementos que estão em palco.

EF: Se tivessem de escolher uma palavra ou expressão para definir este espectáculo, qual seria?

MA e MJL (consenso): Lua e Doem-me os braços de tudo mas não me dói a vontade.

EF: Um balanço final sobre este projecto.

MJL: Foi brutal!