Estreou esta semana nas salas de cinema nacionais Hop, um dos poucos filmes que remete para o imaginário infantil da Páscoa – uma simbiose perfeita entre o real (live action) e as figuras animadas (computer generated image).

A história fala-nos de C.P., um Coelho da Páscoa que, ao ver-se obrigado a assumir o negócio da família, viaja até Hollywood com o objectivo de realizar o seu sonho: tornar-se baterista. Na sua jornada encontra Fred, um jovem desempregado que, por azar, atropela C.P. e, ao albergá-lo, prepara-se para enfrentar um role de aventuras. Esta produção da Universal Pictures, ao estilo de Alvin e os Esquilos, mostra ser divertida e capaz de agradar a jovens e a crianças.

Na lista de personalidades que emprestaram as suas vozes aos personagens do filme, encontramos Herman José, Luís Franco-Bastos, Pedro Ribeiro e Rui Porto Nunes, entre outros. Numa pequena sessão de entrevistas que antecedeu a antestreia, os nomes acima referidos relataram ao Espalha-Factos um pouco da sua experiência da dobragem do filme, que para alguns deles foi algo totalmente novo.

A opinião foi unânime: este género de trabalho agradou a todos, na medida em que, ao mesmo tempo que exige grandes níveis de concentração, deixa igualmente espaço para a boa disposição. Em termos criativos há pouca liberdade para inovar, uma vez que estão presos não só ao guião original como também à sincronia com a imagem.

O convite, a todos feito por José Jorge Duarte, não se traduziu no trabalho em equipa. Cada qual trabalhou individualmente a sua personagem, moldando a sua voz o melhor possível à original. Todavia, como referiu Luís Franco-Bastos, tal facto “não tira a magia” do momento. O trabalho já desenvolvido por Luís no que concerne à exploração das capacidades da sua voz, afirma, “facilitaram a tarefa”. Ainda assim, acrescenta que a sua personagem, C.P., deveria apresentar uma voz o mais semelhante possível com a humana, por isso limitou-se a usar a sua.

Herman José recorda a sua participação em Toy Story 2, como tendo sido a primeira ave a que deu voz. Há vários anos a fazer rir Portugal, Herman sente-se orgulhoso por saber que é o público mais jovem quem melhor consegue mobilizar, frisando o fascínio que esses sentem pela sua linguagem e pelo estilo que usa, comprovado pelas audiências do seu actual programa na RTP, Herman 2011, que diz abranger as faixas etárias entre os 4 e os 14 anos.

Durante a entrevista, Herman teve a oportunidade de tomar contacto pela primeira vez com os restantes colegas que, como ele, dobraram as vozes das personagens de Hop para português, achando “interessante ver como as vozes de todos, no produto final, combinam tão bem”, lembrando a precisão e a concentração exigidas para a realização deste trabalho. Com um pedido especial para que o efeito fosse o mais próximo do genuíno, Herman brinca com o facto do seu perímetro se aproximar muito do da sua personagem.

Quanto a Rui Porto Nunes, actor da série Lua Vermelha e apresentador do Curto Circuito, deu voz a Fred, que diz no filme estar a atravessar aquela fase própria da adolescência, sob a pressão dos pais, em que se pergunta o que se quer fazer e para onde se quer ir – algo que faz parte do crescimento de toda a gente.

Relativamente ao registo original de Fred, Rui diz que cada qual tem as suas características específicas, e por isso não tentou seguir fielmente o de James Marsden, referindo que por vezes tal tentativa pode resultar no ridículo. Foi, portanto, fundamental todo o trabalho realizado em estúdio, onde José Jorge Duarte tentou orientar os convidados. Questionado sobre o repetir da experiência, Rui Porto Nunes diz ambicionar muito voltar a fazê-lo, “nem que seja dar voz a uma gaivota”.

Seguiu-se o radialista Pedro Ribeiro que recorda, entre risos, que pediu para “não gravar ao mesmo tempo que o Herman”, sob pena de não conseguir dobrar uma frase sem ser a rir. Apesar de já ter passado pela experiência em Dia de Surf, em que fez de repórter, Pedro afirmou que o mais difícil foi sem dúvida conseguir que as falas ficassem sincronizadas com a imagem, conjugado com o facto de ter de cantar. Referiu ainda o trabalho de actor desenvolvido, exigido pela necessidade de fazer passar algumas emoções próprias da sua personagem, e para as quais não estava preparado. Todavia, Pedro Ribeiro refere com contentamento que faz isto essencialmente pelos filhos e pelo orgulho que estes depositam no pai.

Perante a pergunta sobre como achavam que reagiria o público português ao acolher de uma tradição como a da vizinha Espanha, em dobrar filmes que não de animação, o consenso foi obtido: não seria bem aceite. Os portugueses estão habituados a ver o original, com as respectivas legendas, rejeitando com facilidade experiências dessas, assim o recordou Pedro Ribeiro com o exemplo da série Friends. Herman José relembra que a dobragem fora, em tempos, usada pelas ditaduras, para que muito do que era realmente dito fosse traduzido em algo menos perigoso para o regime. Hoje, tal ideia não faria sentido.

(com Pedro Zambujo e Hugo Luz)