Capitão Nascimento é agora Coronel. Mais maduro, mais calculista, o “anti-herói” do corpo de forças especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro encontra-se, agora, perante um cenário bastante diferente do que se deparou há 13 anos atrás, no primeiro capítulo de Tropa de Elite. Desta vez, José Padilha, o realizador, madurou a narrativa para transformar a ação numa complexa mensagem ideológica anti-sistema. Agora, Nascimento não só vai encontrar o inimigo dentro de si, como o vimos anteriormente, mas também naqueles que menos esperava, os homens grandes do sistema. Agora, a luta não é contra o traficante e o mero corrupto. Agora, o inimigo é outro.

Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro surge nos cinemas portugueses já com uma recente história de sucesso. No Brasil, tornou-se no filme de maior sucesso e com maior assistência de sempre, com mais de 11 milhões de espectadores, batendo o recorde anterior mantido pelo filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, desde 1976. Mas esse sucesso não se justifica apenas pelo legado deixado pelo seu antecessor. Esta sequela é uma amostra bastante calorosa e séria de um pensamento que imerge na mentalidade brasileira. Uma mensagem ideológica que tenta alertar para a discrepância existente entre a responsabilidade de ser a lei e o oportunismo de abusar desse poder. Uma mensagem que aponta o dedo à corrupção como a ovelha negra do estado democrático.

 

Este novo capítulo das forças especiais da PM, o Bope, é portador de uma narrativa um pouco diferente da antecessora. Assumindo posições bem mais tradicionais, tanto tecnicamente como narrativamente, José Padilha “livrou-se” um pouco de algumas particularidades que fizeram de Tropa de Elite um filme muito pessoal e original. Em primeiro lugar, a história começa in medias res, com a aparente morte do Coronel Nascimento, lembrando um pouco o clássico Casino. O narrador continua a ser na primeira pessoa, com um uso soberbo do“voice-over. Porém, é fácil de compreender que a estrutura, em que é lançada a narrativa, surge bem mais padronizada. Não que isso retire a originalidade e a qualidade desta mesma, apenas se torna numa linguagem menos pessoal do que no filme Tropa de Elite, mas bem mais “legível” para o público comum/mundial.

Além do mais, o tom ativo de ação que víamos em Tropa de Elite foi substituído por um tom mais dramático, acentuando a questão política e ideológica. Acima de tudo, a criação da personagem Diogo Fraga, um deputado ativista interpretado por Irandhir Santos que representa o papel com bastante qualidade, é uma das fontes da grande transformação. A um filme cuja premissa seria a força, a ordem e a violência, foi introduzido um eixo ideológico e social, acrescentado ao sentido moralista (porque no fundo já havia um eixo moral nas inseguridades do capitão Nascimento, agora coronel).

A nível técnico é visível um certo “domar” da câmara. Em Tropa de Elite, o movimento solto da câmara, herdeiro da cultura do “cinema directo” (como vimos também no clássico Cidade de Deus), era bastante visível como uma constante técnica. Agora que o filme aborda a historia de uma forma bastante mais tradicional, a câmara está bastante mais presa, libertando-se apenas quando é necessário, nomeadamente nas cenas de acção.

Mas esta abordagem um tanto “americanizada” é completamente justificável num trabalho bastante mais sóbrio e, no meu ponto de vista, bastante mais intervencionista do que o trabalho anterior. Em Tropa de Elite 2, os ingredientes que esperávamos ver, a acção, a ordem, a violência e a (i)moralidade, são conjugados por forma a rescrever uma mensagem bastante explícita. Desta forma, o terceiro ato funciona como uma verdadeira dissertação acerca do estado atual da segurança pública da nação brasileira. Fraga e Nascimento são construídos de maneira  a que a suas crenças sociais sejam divergentes mas que, no final, a sua necessidade por justiça e pela defesa dos direitos humanos fale mais alto. A construção emotiva das duas personagens, principalmente a de Nascimento, interpretado novamente por Wagner Moura que, mais uma vez, faz uma excelente interpretação, é a chave para a oposição de significado entre as duas personagens. Oposição esta, que torna mais intensa a mensagem final de José Padilha.

Mas tudo isto não seria possível, caso não se tivesse construído o filme de uma forma, digamos, mais convencional (alguns dirão mais comercial). Todavia, não podemos, como já referi, considerar isso uma desvantagem. A verdade é que Tropa de Elite 2 é superior ao primeiro filme em quase todos os sentidos (talvez não o seja em termos de ação). Para mim, é um filme que se faz vale como voz de intervenção, apontando o dedo a um problema grave da sociedade, não só brasileira, mas também mundial.

Um filme para ver com a mente aberta e não encarar apenas como um filme de ação.

9.5/10

 

Ficha Técnica

Título original: Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro

Realizado por: José Padilha.

Escrito por: José Padilha e Bráulio Mantovani..

Elenco: Wagner Moura, Irandhir Santos, André Ramiro, Pedro Van-Held e Seu Jorge.

Género: Drama, Ação.

Duração: 116 minutos

 

** Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico**