Fado, Fátima e Futebol. Se outrora seria este o típico quadro português, no presente talvez esta trilogia se tenha tornado insuficiente para descrever aquilo que somos hoje. Mas os genes permanecem e tem-nos ditado a história que o Fado como estilo musical, tão nosso e tão português, jamais será abandonado.

Pelo contrário, novos artistas o têm recriado. As letras continuam a inspirar-se na alma do povo lusitano, na saudade, nas ruelas de Lisboa, no Tejo que no “mar salgado” desagua, no amor e no ciúme. As melodias, essas, são compostas, agora, não só pela tradicional guitarra portuguesa, como também pelo som de um contrabaixo ou de um piano. Rejuvenesceu-se o Fado que renasce das cinzas depois do esquecimento em que foi deixado após o 25 de Abril. Conotado com o Antigo Regime, o Fado perdeu-se por momentos na História. Mas não por muito tempo.

Foi no ano de 1999 que a lenda do fado, para sempre imortalizada como a voz que deu a conhecer o inédito da cultura portuguesa ao mundo, seria recordada num musical que valeu a Filipe La Féria o prémio de melhor espectáculo do ano 2000. Amália, o Musical, esteve em cena vários anos e andou em digressão por países como o Brasil, França e Estados Unidos, sendo um caso de sucesso. Todavia, a paixão de La Féria pelo Fado veio a traduzir-se no recente projecto FADO – A História de um Povo, que está em cena no Salão Preto e Prata do Casino do Estoril já desde o passado mêsde Julho.

O musical conta com a participação já habitual de Alexandra no papel de Amália Rodrigues, Gonçalo Salgueiro, Henrique Feist, Paula Sá, bem como Liana, que desempenhara também o papel de Amália em jovem, e ainda Flávio Gil, Jorge Silva, Luís Matos, Sofia Cruz, Luís Caeiro, Tiago Correia e José Geadas.

A História do Fado começa, neste musical, associada à forte ligação que o povo português possui com o mar. A partir daqui, as divas do fado vão-se sucedendo pelo palco. Este estilo musical, que no início se encontrava fortemente ligado às classes mais pobres de Lisboa, foi-se propagando pelos estratos sociais mais altos e mais letrados que se lançaram também eles na composição de letras, concedendo ao fado uma outra reputação. Com isto, viajamos com a corte portuguesa até ao Brasil, que tentava escapar às invasões francesas no nosso território, trazendo a Portugal e aos portugueses o desgosto e o desânimo generalizados. Por esses bairros como a Madragoa, e lá para os lados do Castelo, pela Alfama e pela Mouraria, chorava-se o triste destino do país desgovernado.

O fado como expoente máximo da cultura nacional rapidamente adquire importância. Do mais reles ambiente em que era cantado, o fado era agora o hobbie de muitos fidalgos e de outras gentes que tal, que o cantavam em tabernas e salões. Eram os tempos do Fado Vadio. E se do Fado Vadio falamos, falemos portanto da Severa. Amante do Conde Vimioso, Maria Severa Onofriana era uma prostituta que cantava o fado pela Mouraria e que morrera vítima de tuberculose. Será talvez ela a primeira a deixar o seu nome na História dos artistas que cantavam o Fado.

Mas pela história nos vamos deixando envolver, e para o século XX damos o primeiro passo. Muitos nomes para trás ficaram, é certo. Mas a todos é o mérito devido, tendo cada um o seu lugar especial. E se pela República passamos discretamente, sendo-lhe feita uma particular homenagem por um jovem soldado que lembra o nome de muitos que naquela derradeira Batalha de La Lys, fatal para Portugal, morreram, rapidamente entramos pela ditadura dentro e somos confrontados com a censura implacável. O Fado é tudo menos tema de política ou retrato de problema social. Do Fado Castiço, veio-nos o maravilhoso exemplo de Hermínia Silva, que levou grande ovação do público.

Mas com um espaço curto e uma história longa, não nos demoremos mais até chegar ao que consideramos a era da modernidade do Fado. Amália Rodrigues é aqui novamente lembrada, como não poderia deixar de ser, ditando ela o fim de todo o espectáculo, e deixando-se em aberto o que o futuro reserva para as novas gerações de fadistas que se têm seguido.

A compilação, em quase duas horas de música, com Fados de todo um passado e presente será, talvez, uma árdua tarefa. Se por um lado os elementos cénicos usados do lado do público eram divertidos e originais, o palco apresentava um aspecto, na sua maioria, minimalista e simples, não correspondendo, muitas vezes, ao que entre os espectadores era feito. O som, muito alto para quem se encontrava nas filas da frente, nem sempre era o melhor e alguns momentos de playback parecerem ter sido uma realidade. Todavia, tal não se deu em momentos musicais, mas sim em diálogos.

A interacção com o público poderia ter sido superior se os fados cantados fossem dos mais conhecidos. Porém, a escolha do que pelas entranhas já andava escondido foi uma excelente opção pelo reavivar das memórias de outrora. Belos fados foram ali cantados, destacando-se,  as vozes de Alexandra, Liana e Paula Sá que reúnem grande mérito pelo espectáculo que fizeram. Alexandra pela sua já tão forte e destacada presença em palco, Liana pela sua voz doce e amável, e Paula Sá pela sua fantástica teatralidade associada a uma voz potente mas bonita. Do lado masculino, há que realçar o elenco mais jovem que com a inocência e a pureza das suas vozes trouxeram grande alento ao espectáculo.

Um musical que fala de nós, da nossa gente, da nossa música e do nosso Fado. O tempo passa sem que nos demos conta e somos facilmente envolvidos pelo espaço, pelos cenários que nos fazem rodar constantemente a cabeça de um lado para o outro, pelas músicas que nos falam  ao coração e pelo encanto da História de um Povo que é o povo português.