O desenvolvimento tecnológico do séc. XXI e a internet acessível a quase todos trouxeram vantagens incalculáveis às nossas vidas. E prejuízos também, ainda que o saldo seja claramente positivo.

Já a grande parte das editoras de música, por outro lado, não tem motivos para sorrir: a partilha de ficheiros de música encontra-se à distância de um simples clique e as vendas de álbuns originais têm decrescido vertiginosamente. A pirataria é socialmente aceite e os tentáculos das redes de downloads ilícitos superam qualquer tentativa de controlo.

A realidade dificilmente se alterará, mas pode ser contornada. É o chamado “torna um obstáculo numa oportunidade”. Em 2009, Os Azeitonas arriscaram e têm colhido os saborosos frutos da ousadia.

O álbum Salão América, o terceiro da banda (depois de Um tanto ou quanto atarantado (2003) e Rádio Alegria (2007))  não tem existência física (e não se sabe se alguma vez terá), mas é disponibilizado de forma gratuita e totalmente legal através da internet. Conta já com 10 faixas, que rapidamente se alastraram pelas redes sociais, listas de reprodução e vozes de grande parte dos portugueses.

O lucro que a banda não obteve com a venda do álbum (pese embora os donativos que podem ser feitos no site) surge em dose tripla com a quantidade de concertos dados, possível através da exposição mediática que colocou a banda portuense em destaque no panorama da música nacional.

O concerto de encerramento da tournée de 2010 foi “em casa”, no Teatro Sá da Bandeira, a 15 de Dezembro e teve Rui Veloso como grande convidado. O concerto foi gravado (com a ajuda de muitos fãs, que respoderam ao apelo da banda e levaram as suas câmaras) e o DVD oficial desta noite memorável (sim, eu estive lá) tem lançamento marcado para meados de Abril. Já está disponível no Youtube um excerto do que aí vem: é a Anda comigo ver os aviões, música que (dizem Os Azeitonas) não passa nas rádios, mas o que é certo é que é difícil encontrar quem não a conheça. A consonância entre a banda e o público é evidente, mas o que impressionou foi o impacto instantâneo que o vídeo teve no Facebook. Em apenas dois dias o vídeo tinha já sido partilhado por mais de 1500 utilizadores e espalhou-se como um vírus (de facto, assemelha-se a um vírus, pois torna-se difícil “livrarmo-nos” dela, mas por bons motivos).

httpv://www.youtube.com/watch?v=wF7m5M3qaIs

A originalidade de Miguel AJ, Marlon, Nena e Salsa já tinha resultado numa ideia original em 2008, quando lançaram um livro com oferta de CD (o IVA sobre os livros era, na altura, de 5%, ao passo que sobre CD’s de música era de 20%) em vez de venderem o Rádio Alegria como um álbum, o que seria de esperar. No livro constavam, quase exclusivamente, as letras das músicas. E aí reside a piada.

Foi com esse álbum, do qual sobressai o êxito Quem és tu, miúda, que a banda consolidou o seu talento. Continua, com Salão América, a compor hinos à alegria, letras muito bem trabalhadas e com uma atitude incrível em palco, que poderão constatar no DVD Em boa companhia eu vou.

Omar Rodriguez-López (Mars Volta) e John Frusciante (ex-Red Hot Chili Peppers) num projecto conjunto ou Coldplay são exemplos das cada vez mais bandas e artistas que beneficiam com esta estratégia, ao não encararem a internet como um adversário. O futuro da divulgação de música poderá passar pela partilha gratuita. A qualidade será, creio, sempre recompensada.