Tarde, a más horas, mas cheguei. Amigos, já pela tão badalada manifestação, aconselhavam-me a sair no metro dos Restauradores. Confirmava-se: a confusão de pessoas reinava e encontrar alguém era um achado. As mensagens custavam a sair e fazer chamadas era inviabilizado pela sobrecarga da rede naquela zona.

Calcorreei a artéria que liga os Restauradores à praça D. Pedro, passei por trás do TNDM, começando a lutar um pouco contra a maré de gente que às cinco e meia da tarde resolvia abandonar e regressar ao conforto de suas casas, tendo chegado finalmente ao Martim Moniz. Daí, foi só erguer-me nas pontas dos pés e procurar por quem me esperava. Ao lado direito, um mar de gente se concentrava em torno daquele que um dia disse “Independência ou Morte!”. Junto ao IV de Portugal e ao I do Brasil, D. Pedro acolheu à sua volta, dizem os números, cerca de 200 mil pessoas, que tentaram fazer soar o grito do Ipiranga na tarde de 12 de Março. Lutava-se contra a precariedade, contra a geração “quinhentoseurista”, contra o desemprego, a vida instável, contra “o mundo tão parvo em que para ser escravo é preciso estudar”.

“E o povo pah?”. Lá estava, em torno desses que se dizem os Homens da Luta e que entre a festa e o protesto, ali mobilizaram durante aquele tempo miúdos e graúdos, jovens, e outros que há bem pouco tempo ainda o eram. Eram exibidos cartazes com alertas “O país está em apuros” ou “Precários nos querem, rebeldes nos terão”. Tomara a minha memória ter fixado o que de tão original se fez com a crise naquela tarde.

Entre apertos e alguns empurrões, cheguei o mais perto que pude ao centro da luta! Ali, se formou um misto de juventude, com um toque de sabedoria de quem é mais velho. Muitos subiram ao camião onde se encontravam os dinamizadores da manifestação, com os olhares da TV neles focados e os das pessoas desejosas por poderem fazer ouvir a sua voz.

Reclamavam, contestavam, exigiam melhor, pediam um futuro que lhes desse garantias e que não deitasse por terra o que fora investido pela geração dos nossos pais, para nós: uma educação! O microfone e o megafone iam girando pelas sucessivas mãos que os queriam agarrar. As músicas não paravam: “De noite ou de dia, a luta é alegria, e o povo avança é na rua a gritar!”. Qual chuva, qual quê! Essa, o que num instante dispersou, de imediato viu reunir-se de novo a multidão no Rossio.

A tarde estaria a terminar, se a vontade de ficar não fosse tão grande. Poderei falhar redondamente na minha descrição mais sentimentalista daquele momento, mas creio que ali se viveu um espírito de comunhão. Digam, os mais críticos, que se tratou de uma brincadeira que não deu em nada. Eu diria que foi o modo mais “alegre” de se fazerem ouvir, numa tarde que decorreu sem percalços, uma manifestação pacífica, que entre músicas e motes de protesto, deram voz à luta da juventude. Mais digno, não poderia ser.

Assim se subiu de novo a Avenida da Liberdade, alternando-se os habituais temas musicais com  “A Portuguesa”, de mão ao peito. O trânsito de novo foi cortado. O Marquês foi invadido pela gente. Mais luta, mais protestos, mais “Geração à Rasca”, mais “De noite ou dia dia, a luta é alegria”, mais “A Portuguesa”. Em tom emocionado, Jel afirma ter sido o dia mais feliz da sua vida. Não digo que tenha sido o mais feliz, mas foi com certeza um dos dias mais felizes da vida de muitos, porque ali viram a sua geração, que alguns dizem ter um espírito inerte, a fazer por si e pelos que hão-de vir! “E parva eu não sou!”

Fotos de Manuel Reis