Foi num acolhedor café-concerto no Teatro Viriato, na passada Quinta-Feira, que Nuno Prata apresentou a Viseu o seu mais recente trabalho, Deve Haver. Surgiu acompanhado por Nicolas Tricôt (ex-Clã) e António Serginho.

É muito difícil dissociar Nuno Prata dos Ornatos Violeta (foi baixista da banda) e as semelhanças com o projecto Foge Foge Bandido, de Manuel Cruz, estão bem evidentes na versatilidade (começou com uma guitarra ao peito mas foi ao baixo que dedicou mais tempo do concerto), no ritmo das músicas (com participações brilhantes de um xilofone), alguns efeitos electrónicos e instrumentos tão originais como uma garrafa de água a servir de reco-reco.

Nuno Prata descreve a crise e a forma como a encaramos. Foi através da ironia em Cala-te e Come, do aparente conformismo em Figuras Tristes e da crítica aos tantos analistas e demagogos da nossa sociedade em Pobre de mim (“falando de barriga cheia \ é sempre possível qualquer ideia.”) que Nuno Prata mostrou à plateia exemplos de música de intervenção erudita, leve e despretensiosa e nos pôs a trautear com boa-disposição a nossa própria desgraça. Também o habitual queixume teve lugar a melodia. É, aliás, o single: Essa Dor Não Existe (Tu Isso Sabes, Não Sabes?)

Parco em palavras entre as músicas, deixou transparecer algum nervosismo. Os curtos “muito obrigado” com sorrisos envergonhados provam, definitivamente, que Nuno Prata não é pessoa de conversas de circunstância.

Refrão-canção (a letra é apenas uma frase – “vamos repetir até à exaustão este estúpido refrão, até que justifique uma canção” – e a música consiste nos sucessivos bis) deu-nos especial liberdade de interpretação. Um elogio à persistência? Ou uma crítica a quem repete, vezes sem conta, frases ocas à espera de obter razão?

Numa das poucas interrupções de apresentação do novo álbum, surge Hoje Quem?, que mais parece o posfácio da Metamorfose de Kafka. Momento mágico no hall do Teatro Viriato.

Desengane-se quem acha que o novo álbum de Nuno Prata negligencia os sentimentos afectivos. Deve Haver dá a imagem de alguém verdadeiramente determinado e sem medo de encarar o fim. Resignação de Se acabou, acabou e Já nada me importa arriscava  a melancolia, eficazmente combatida com o xilofone e um irreverente kazoo.

Tempo ainda para mais algumas obras de arte de Todos os Dias Fossem Estes/Outros (2006), que precederam insistentes e sentidas palmas ao fim de cerca de hora e meia de concerto.

Consistentes, maduros e lúcidos: o concerto, o álbum e a banda.