Foi no dia de ontem, 13 de Março, que Katie Melua levou o Campo Pequeno numa viagem pelo mundo do blues e pop rock suave, percorrendo músicas de todos os seus quatro álbuns, com o último,The House, a ser o principal motivo do regresso da cantora britânico-georgiana a Portugal.

Por volta das 21h00, as honras de abertura do espectáculo ficaram a cargo de uma das finalistas da última edição do Ídolos, Carolina Deslandes. Conciliar as palavras «inexperiência» e «agradável» pode ser algo difícil de ter em mente, mas foi isso mesmo que a jovem cantora mostrou desde o primeiro minuto que subiu ao recinto do Campo Pequeno. Tímida na interacção com o público, mas forte e confiante a cantar, Carolina Deslandes e a sua banda alternaram, durante meia hora, entre originais e covers bem conhecidos do público em geral, como Angel de Sarah McLachlan e Hometown Glory de Adele.

Unindo a sua voz jazzy ao que pareceu serem ritmos brasileiros utilizados nos seus originais, o trabalho de Carolina Deslandes obteve um feedback bastante positivo pelo público presente. Atenuou assim, em grande parte, a insegurança que esta transmitiu a quem estava na praça de touros e que se tornava evidente pelo diálogo pouco fluído, que acabou mesmo por dificultar a comunicação e a compreensão dos nomes das músicas que a jovem apresentava. Mas o verdadeiro discurso de Carolina Deslandes foi a sua música que, definitivamente, está a ganhar contornos bem definidos e é hoje um esboço quase a virar uma realidade sólida.

Após uma pausa demasiado longa e inquietante, This is The Closest Thing to Crazy marcou o início do concerto de Katie Melua. Ainda com as cortinas fechadas, a primeira parte de um dos êxitos da cantora fez-se ouvir e sentir por todo o Campo Pequeno. Foi assim que, em acústico, e acompanhada por uma viola, o concerto começou a ganhar rumo para aquele que havia de ser uma noite relaxante e agradável.

Saltando entre os vários álbuns, Katie tocou os seus maiores êxitos acompanhados por um conjunto de imagens e animações num grande ecrã ao fundo do palco, sempre em harmonia com os agudos e as palavras melodiosas da cantora, e que depressa envolveram o público numa viagem de sensações. O jogo Space Invaders foi o mote de interpretação que a cantora utilizou para dar vida à música Tiny Alien, uma das músicas preferidas do público. Mas o concerto não foi só de interpretações. Katie usou imagens animadas que relembravam os videoclips para ilustrar músicas como The Flood, o single do último álbum, Red Ballons, If You Were a Sailboat e Happy Place.

Quanto a uma das músicas mais esperadas da noite, The House, que dá o nome ao quarto álbum da artista, o efeito que as imagens e o fumo proporcionaram não podia ter sido melhor. O fumo rosa que envolveu todo o palco e caía como uma cascata acompanhou a música do início ao fim. Katie abriu a porta da casa e mostrou a suavidade e o à vontade na alternância de agudos que tem com a sua música. Tal como Tiny Alien, esta música fez as delícias de todos os presentes que se sentiram ligados ao poder que transmitia.

O espectáculo foi também feito de covers. A cover de Crawling Up a Hill (um blues original de John Mayall) e Kozmic Blues fizeram as delícias do público que, no final do espectáculo, aplaudiu a artista de pé.

My Aphrodisiac Is You trouxe um dos momentos mais inesperados e engraçados da noite. A criatividade de Katie Melua teve, na execução harmoniosa entre a melodia e o visual, o seu auge numa chuva de bolas de sabão em gelo seco.

No já esperado encore, Katie não desiludiu os espectadores e as primeiras notas do Nine Million Bicycles fizeram-se ouvir no recinto, para visível satisfação por parte da audiência que fez questão de acompanhar a artista. O espectáculo terminou com uma das músicas do segundo álbum, Piece by Piece, lançado em 2005, I Cried For You.

Pode-se falar de um concerto de música e não de um concerto com espectáculo. A pouca e tímida interacção que Katie Melua teve com o público não foi suficiente para estabelecer a ligação informal que tanto é requerida neste tipo de concertos. O que faltou nestes momentos de contacto com a audiência, a cantora compensou com a sua música, ajudando em grande nível a quebra e falta de momentos de diversão que esta não conseguiu realizar (falou algumas vezes e lançou uma ou duas piadas que não suscitaram grande reacção).

Foram momentos de música que deram todo o mérito a um concerto que se pode rotular como uma viagem a outro planeta. Embalados pela voz de Katie Melua e pelo ecrã, sempre em grande destaque, que ajudou a criar imagens de apoio a cada palavra transmitida pela melodia, estas foram as muletas que cada espectador utilizou para entrar no mundo da cantora e num mundo pessoal que cada música lhes comunicava.

httpv://www.youtube.com/watch?v=oPYJb6Nwmwk

Hoje, no Coliseu do Porto, espera-se mais um espectáculo com casa cheia, à semelhança do que aconteceu em Lisboa, desta vez com a vencedora do Ídolos, Sandra Pereira, a abrir o concerto.

(As fotos publicadas neste artigo não são da nossa autoria, pois não era permitido fotografar o espectáculo, sem creditação para tal)

*por Marta Spínola Aguiar e César Passinhas