Is This It ser o primeiro álbum dos The Strokes é, de certa forma, um feito inglório. A banda americana deu-se a conhecer ao mundo (não contando com o primeiro EP) com um pedaço de excelência, que deixou a crítica absolutamente extasiada com aquele que foi, para muitos, o primeiro grande álbum do século. O problema surge quando se tenta superar o excelente, e a atenção que a imprensa especializada deu a Is This It foi um presente envenenado, pelo menos a longo prazo. Room On Fire em 2003 e First Impressions of Earth em 2006 tiveram que viver com o trauma do “o primeiro álbum é melhor“. E se, apesar de tudo, foram dois álbuns bem sucedidos, o novo Angles parece vir a sofrer ainda mais – nem a própria banda está plenamente satisfeita com ele.E esta baixa estima pelo quarto registo de longa-duração prende-se principalmente com o processo de gravação, tão conturbado que põe em causa o futuro dos próprios The Strokes.

httpv://www.youtube.com/watch?v=TOypSnKFHrE

Quem denuncia os problemas com Angles é o guitarrista Nick Valensi, em entrevista à Pitchfork. Valensi, o único membro da banda que participa exclusivamente nos The Strokes, vê nos projectos paralelos um problema: “Se há material de sobra e tempo, tudo bem. Mas se andas a tocar material que ainda não mostraste à tua banda principal e estás de algum modo a guardá-lo só para ti,  não sou grande fã disso.”

De facto, depois do lançamento de First Impressions of Earth, a restante banda seguiu caminhos diferentes, tendo Julian Casablancas conseguido uma projecção maior que os seus colegas com o seu álbum a solo, Phrazes for the Young. Foi este álbum que, de certo modo, iniciou as complicações na gravação de Angles: tendo Casablancas obrigações de promoção do seu registo a solo, não conseguiu reunir-se com a restante banda na data prevista, tendo as primeiras gravações sido feitas sem a sua presença. Aliás, Casablancas manteve-se afastado dos colegas durante quase todo o álbum, gravando as suas partes sozinho e enviando-as por e-mail. Esta distância parece, no entanto, ter sido deliberada, e tinha a intenção de aumentar a iniciativa de toda a banda no processo de composição e gravação do projecto: “Quando estou lá, as pessoas esperam que eu diga alguma coisa.“, diz o vocalista. “Acho que foi preciso ficar um pouco calado para forçar a iniciativa.

Quanto ao trabalho concluído com a sua participação reduzida a mínimos, Casablancas não é claro – à pergunta da Pitchfork sobre se gosta do novo álbum, o vocalista dá uma resposta um tanto evasiva: “Hum, sim…é uma pergunta difícil porque acho que o objectivo do álbum era que eu deixasse as coisas acontecerem para que houvessem algumas coisas que eu não faria“.

httpv://www.youtube.com/watch?v=OwxcQvB_vcQ

Nick Valensi é mais duro com o álbum, especialmente quanto à sua gravação: “Foi horrível – simplesmente horrível. Não vou voltar a fazer um álbum como fizemos este. De maneira nenhuma”. O guitarrista lamenta a ausência de Casablancas e confessa que por vezes ia gravar os seus takes sozinho com o produtor. Uma gravação “fracturada” que não quer repetir.

Com Angles a ir para as lojas apenas dia 22 deste mês, os The Strokes já estão a pensar no próximo álbum. Pelo menos é essa a convicção de Valensi: “Estamos a aprender a trabalhar com as canções uns dos outros e aprender a lidar com as emoções que surgem na nossa relação com as canções. Sinto que temos um álbum melhor em nós, e o melhor que temos a fazer é lançá-lo rapidamente“. Julian Casablancas, no entanto, é mais cauteloso: “Penso que irá haver um quinto álbum dos The Strokes. Pelo menos, espero que sim“.

Com dez anos de carreira, os The Strokes vivem um momento decisivo nas suas carreiras. Is This It poderá continuar a assombrar o restante trabalho da banda, e não parece ser Angles o álbum que o conseguirá superar; no entanto, a maneira como for recebido irá determinar o caminho a seguir: se o do quinto longa-duração, esquecendo o complicado parto do último álbum, se o da ruptura total, com os estilhaços da banda a tornarem-se várias carreiras a solo.

Os The Strokes actuam a 16 de Julho, no Meco, no Festival Super Bock Super Rock.