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A verdade não existe

Um palco onde a verdade e o teatral se mesclam até não ser mais possível distinguirem-se um do outro. Até 27 de Março, o Teatro Nacional D. Maria II, em parceria com o Teatro da Cornucópia, apresenta-nos A Cacatua Verde.

Toda a peça se passa em Paris, na noite da tomada da Bastilha, noite que mudaria para sempre o entendimento da humanidade acerca de si mesma. É, no fundo, sobre esse entendimento e sobre a ideia de verdade por oposição à mentira, de contradição, que trabalha este texto de Arthur Schnitzler.

Em cena, há uma taberna onde falsos criminosos contam as suas falsas façanhas a aristocratas franceses. Todas as noites acontece este imenso teatro. O dono, Prospère, antigo director de uma companhia de teatro, mudou os seus actores para A Cacatua Verde, a taberna, para representarem os papéis de facínoras, prostitutas, fora-da-lei que tanto agradam aos senhores ricos de Paris. Contactar de perto com essa gente, para eles menor e perigosa, traz a sensação empolgante da iminência e da próximidade com o risco. O agradável prazer que a nobreza tem em sentir-se ficcionalmente em perigo. O que não deixa de ser irónico quando, fora das quatro paredes subterrâneas da taberna, aristocratas poderosos são assassinados pelo povo, apenas como prova do poder das massas unidas e sem necessidade de qualquer outra razão.

É desta linha tensional e ténue entre o teatro e a realidade que vive a peça, neste e noutros pontos, constantemente. Até que ponto o teatro não está impregnado de pura realidade e a realidade de teatralidade?

Assim, a verdade e a ficção convivem e confrontam-se. Dentro d’A Cacatua Verde, o perigo é falso e saboroso; lá fora, realmente existe. Será que há então tanta diferença entre o mundo fora e dentro da taberna? Nos dois mundos o povo se revolta, nos dois mundos o povo mata, nos dois mundos a aristocracia pode pagar a revolta do povo.

É com este dilema que se debate Prospère, no inicio da peça que, diga-se, carece de ritmo e atractividade, mas que acaba por ser um espaço de reflexão, em que o taberneiro se vê a si mesmo entre a vontade de sair à rua com o povo para acabar com o poder aristocrático, e a necessidade de trabalhar para agradar a essa mesma nobreza. Os mesmos que tem vontade de destronar são aqueles que lhe permitem a sobrevivência.

Há na encenação, um mote além do texto de Arthur Schnitzler. Um mote segundo e secundário mas inteligentemente escolhido e que oferece ao público um dos momentos mais líricos de toda a peça: a primeira cena. Ele é a canção Le Temps des Cerises, que vive da contradição que há na necessidade da dor para que haja alegria, no caso específico da Revolução Francesa, a necessidade de sangue para a revolução. O início, pautado pelo velho acordeão de Prospère, em que os actores despersonalizados entoam este cântico é um dos momentos de liberdade da encenação de Luís Miguel Cintra e que criam a aura não só para a peça, mas em especial para a personagem do taberneiro. Como se o que se passa no palco fosse o que lhe passa, naquele momento, instantes antes de abrir por mais uma noite A Cacatua Verde, pela cabeça.

As expectativas começam altas ao se assistir a este momento, mas minutos depois caem. A cadência torna-se monótona. Mais que o que seria desejável. Em toda a arte o silêncio é importante e a sua gestão ainda mais. Em A Cacatua Verde, esse silêncio nem sempre é confortável, às vezes parecer ser desnecessário. A peça sofre de um ritmo sonolento até à entrada de Rita Blanco que, não tendo aparentemente uma personagem de extrema importância para a narrativa, consegue monopolizar a cena por lhe conferir essa anima que é essencial. A partir da sua entrada, o público desperta e tudo e torna mais claro e perceptível. Está de novo em cena uma peça que se quer ver.

Não é a personagem de Rita Blanco que é extraordinária. É uma personagem que se prestaria ao ridículo, se não fosse Rita Blanco a desempenhá-la. A actriz consegue gerir esse equilíbrio perigoso entre o divertido e o ridículo, tarefa em que outros, no mesmo palco, falham claramente. A Marquesa Séverine, personagem que desempenha, é a aristocrata aparentemente estúpida que não sabe o que simboliza a Bastilha, que não sabe o que significa para o povo a liberdade, que não sabe que está prestes a ficar sem cabaça. Rita Blanco consegue atribuir à personagem uma outra dimensão e gerar no público a dúvida: será Séverine somente isto, a superficialidade?

Impressiona na encenação os jogos de luz conseguidos para simular a alvorada. É realmente a luz intensa e penetrante da manhã que atinge uma das cenas de maior tensão. Assim como o final é bem conseguido: lírico e revolucionário. Aí, o único pecado é não se conseguir que o público vibre com ele, que o compreenda como final. A espera pelas palmas finais é constrangedora.

Aos dez minutos pensamos “porque é que não estou lá fora?”; no final, há um ligeiro arrependimento por termos pensado em sair. O final é, como o início, marcado pelo Le Temps des Cerises, desta vez numa versão mais invasiva; marcado pelo velho acordeão, desta vez envergado por um verdadeiro criminoso que não conseguiu parecer actor. A verdade é só mais uma facção da mentira.

httpv://www.youtube.com/watch?v=2RO2ImeFdTs

Le Temps des Cerises, Noir Désir

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