Surge cerca de vinte anos depois das primeiras emissões televisivas internacionais, quando nos Estados Unidos já se emitia a cores. O contexto é de ditadura, marcado por um grande isolamento do país. No entanto, a população rejubila perante a possibilidade que se avizinha e são criadas condições para a instituição da primeira rede televisiva em Portugal. Assim emerge a RTP Radiotelevisão Portuguesa –, o primeiro canal televisivo português. Neste aniversário, recordamos uma vida feita de pequenas histórias, que compõem o que a RTP tem significado, até hoje, na vida de milhões de portugueses.

A verdadeira história inicia-se antes, mas é no ano de 1955 que é constituída a sociedade anónima, com capital tripartido entre o Estado, emissoras de radiodifusão privadas e particulares. O Estado foi, inclusive, o grande impulsionador do projecto, vendo na televisão um poderoso veículo de propaganda política e um instrumento de enquadramento da população, nomeadamente na pessoa de Marcello Caetano, na altura Ministro da Presidência de Salazar, que gostava de ser relembrado como “o Fundador da RTP”.

Os primeiros passos da televisão são dados esta noite”, podia ler-se no Diário Popular. Era dia 4 de Setembro de 1956, dia em que se iniciaram as emissões experimentais da RTP.

Às 21h30 foi para o ar a primeira imagem por parte deste pioneiro canal de televisão, a preto e branco, a partir do recinto da Feira Popular de Lisboa, em Palhavã. Surge Raúl Feio, pela primeira vez na história, dentro da caixinha mágica que ainda muito poucos tinham em casa, num dia histórico para o nosso país.

Na Feira, o momento foi vivido com grande entusiasmo, com as pessoas a procurarem os receptores e o pavilhão da RTP. Também diversos pontos do país assistiram ao fazer da história a partir daquele espaço lisboeta em que se concentrava a Feira Popular – um dia que ficou marcado por “um dos maiores acontecimentos do século em Portugal”.

Tratavam-se, no entanto, de emissões de ensaio, de ‘teste’ às possibilidades da televisão. Afirmava Domingos de Mascarenhas, chefe dos Serviços de Produção da RTP, uma semana após o início das emissões experimentais: “Tanto no aspecto técnico como no da produção, as emissões deste período experimental não têm nada que ver com o que, mercê de Deus, se fará no futuro”.

Segue-se então a fase de construção dos novos estúdios, no Lumiar, e das antenas de emissão, bem como da selecção de uma equipa para dar rosto à televisão portuguesa, fechando-se o primeiro período de emissões experimentais. O segundo inicia-se no final do ano, já a partir do Lumiar.

E a grande receptividade do público português continuava a exigir mais e melhor da RTP, acompanhando com interesse as experiências efectuadas. É então que chegam as emissões regulares da televisão pública, a partir do dia 7 de Março de 1957, que hoje conhecemos vulgarmente como o dia em que, oficialmente, nasceu a RTP. Estas emissões atingiam apenas, em 1957, cerca de 65% do território português, sendo que só em meados dos anos 60 foi possível atingir todo o país.

A primeira de todas as emissões acontece cerca das 21h30, iniciando-se com o genérico da RTP e a marcha de abertura. É Maria Helena Varela Santos que abre o programa, com o compreensível nervosismo de uma primeira vez.

São apresentadas as propostas para o canal, que pretendia ultrapassar o limite geográfico e tornar-se verdadeiramente a televisão dos portugueses – e que a partir de agora assumia a finalidade de informar, educar e recrear a população. Era então preciso alimentar a RTP, todos os dias, com uma programação nova e variada, capaz de responder às necessidades dos portugueses.

A história da RTP continua a escrever-se, nos primeiros anos, com a entrada em serviço de novos emissores, a primeira emissão de teleteatro, a primeira transmissão da Volta a Portugal, a primeira grande reportagem da RTP no estrangeiro, a cobertura de acontecimentos internacionais, a utilização de uma unidade móvel para transmitir em directo.

É controlada pela censura, mas vai fugindo indirectamente ao seu controlo, por exemplo através da emissão do Festival da Canção e de músicas como a Desfolhada, de Simone de Oliveira, com os seus versos polémicos para a época. Começa a assumir-se, a pouco e pouco, como entidade jornalística que está no terreno, a cobrir os principais acontecimentos, bem como veículo de entretenimento para a população, que lentamente vai integrando o televisor na sua vida quotidiana.

No Natal de 1968, surge o 2º canal, que hoje conhecemos como RTP2. Em 1970, o televisor deixa de estar apenas ligado à noite e começa a transmitir à hora de almoço, incluindo também na programação uma nova rubrica, o Telejornal.

A 25 de Abril de 1974, é a RTP, tomada pelos militares, que mostra às famílias portuguesas a revolução que está a ocorrer na rua, em directo. É o canal público que acompanha, juntamente com a Emissora Nacional, os principais acontecimentos do dia, pedindo às pessoas para não abandonarem as suas casas e manterem a calma neste clima de mudança.

A 7 de Março de 1980, a RTP começa a emitir a cores, havendo ainda muito poucas casas com televisores que permitissem esta inovação. Acontecimentos e rostos vão marcando todos estes anos de emissão da RTP.

Nos dias de hoje, a rede RTP conta com dez canais de televisão: as já mencionadas RTP1 e RTP2; a RTP Memória, dedicada a programas antigos; a RTP Madeira e RTP Açores, canais das regiões autónomas; a RTP Internacional, dedicada às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo; a RTP África, para as comunidades africanas; a RTP Mobile, para telemóvel; a RTPN, o canal exclusivo de informação; e por fim a RTP HD, que transmite apenas alguns programas em alta definição.

A Rádio e Televisão de Portugal tem-se adaptado aos novos tempos, prosseguindo a sua história como canal generalista de serviço público. Criticada por uns, aclamada por outros, a verdade é que a RTP continua a ser uma estação de referência no nosso país. E nesta comemoração dos seus 54 anos (ou 55, se assim o preferirmos), uma vez mais, o passado é evocado para criar perspectivas e possibilidades para o futuro.

Daqui a outros tantos anos, com a evolução tecnológica e o seu ritmo alucinante, como serão recordados os primeiros momentos televisivos do nosso país? Que outros meios de comunicação terão a possibilidade de captar a história como a televisão o tem feito até hoje? Só o tempo o dirá.