Esta noite realiza-se a 47.ª edição do Festival RTP da Canção. Ao longo dos vários anos, muitos foram os métodos de votação usados pela estação pública. Televoto, júri nacional, selecção interna ou personalidades convidadas. No meio de várias votações existiram também polémicas em torno das escolhas realizadas.

Recuemos até 1964. Cada capital de distritoo tinha um representante que anunciava as votações. António Calvário ganhava o Festival com a música Oração, que arrecadou 79 pontos dos jurados. Começava assim o festival em Portugal, na altura designado como o Grande Prémio TV da Canção Portuguesa. Em 1967 são realizados três espectáculos, duas semi-finais, com 6 participantes cada e uma final que contava com os 6 finalistas (3 vencedores de cada semi-final). Tudo com o mesmo sistema de votações. Mas no ano seguinte o modelo foi abandonado e regressou a final única, com 10 finalistas em concurso.

Em 1968 instalava-se a polémica: Simone de Oliveira vencera em Portugal com 94 pontos, contra os 49 do segundo classificado. Os portugueses viam na Desfolhada a oportunidade de alcançar um lugar cimeiro no Eurofestival. Contudo Simone de Oliveira ficou-se pelo 15.º lugar em 16 concorrentes. A cena internacional condenou, de forma notória, o regime vivido no país e mais do que da música portuguesa, esta foi uma derrota da censura e do domínio salazarista num país como a sua televisão – a preto e branco.

No ano seguinte a RTP não partipou no Eurofestival e nesse ano apenas 12 países foram a concurso. O VII Grande Prémio TV da Canção realizou-se a 22 de Maio de 1970, depois da Eurovisão, como forma de protesto pela classifcação injusta que Simone de Oliveira obtivera o no anterior.

httpv://www.youtube.com/watch?v=MrW6zP161QI

A 7 de Março de 1974 foi para o ar o XI Grande Prémio TV da Canção, o último antes da Revolução dos Cravos. Nesta edição, para além dos votos de cada distrito, votaram mais 9 personalidades. Os distritos tinham 20 votos para distribuir livremente entre as várias canções em jogo, enquanto que cada personalidade dispunha de 10 votos. À excepção de António Andrade, que distribuiu a pontuação por três canções, todas as figuras que votaram deram 10 pontos à música vencedora: E Depois do Adeus.

Em 1975 o formato de votação mudou. Agora, em vez das votações estarem abertas a todos os compositores portugueses, a RTP convidou apenas um grupo restrito e o júri nacional foi substituído pelos autores das letras e músicas a concurso. Um ano volvido e um novo método de votações é usado. No ano em que o certame mudou de nome e passou a chamar-se Festival RTP da Canção, a votação foi feita pelo público, através de boletins publicados em jornais e revistas que, depois de preenchidos, eram enviados para a produção.

Em 1978 foram a concurso 12 músicas mas os intérpretes eram apenas três. José Cid, Tonicha e Gemini cantaram, cada um, 4 músicas. A votação foi feita por um júri composto por 12 personalidades e no final apenas foi divulgada o número total de votos de cada canção, tendo sido a votação secreta. No ano seguinte o festival foi dividido em 3 semi-finais e uma final. Enquanto que nas eliminatórias votou um júri em estúdio, na final regressou a votação nacional por distrito.

A partir de 1981, o sistema de voto adoptado é o que ainda hoje se utiliza na Eurovisão: cada distrito atribuiu 12 votos à sua canção preferida, 10 votos ao segundo lugar, 8 votos ao terceiro e assim sucessivamente, até 1 voto. Mas em 1986 o formato do Festival foi diferente: os Centros de Produção dos Açores,  Madeira,  Porto e  Lisboa apresentaam 3 originais cada um no Festival da Canção. As canções foram gravadas em estúdio e ouvidas por um júri de 45 funcionários da estação. No final anunciou-se o prémio de melhor interpretação e depois os três finalistas, estando o vencedor entre eles.

Em 1988 não houve Festival da Canção. A RTP pediu a 5 compositores consagrados que apresentassem uma canção cada um. Estas músicas juntar-se-iam ao tema vencedor do Prémio Nacional da Música e o vencedor representaria Portugal na Eurovisão. O processo de escolha da canção vencedora foi feito internamente, não sendo do conhecimento público a posição de cada tema avaliado pelo júri.

Em 1998, em vez do júri distrital, a RTP convidou  5 personalidades ligadas à música para escolher o vencedor entre as 8 canções em jogo. Dois anos depois, Liana vencia o Festival da Canção mas não representou Portugal na Europa. Os fracos resultados obtidos nos anos anteriores foram a justificação para tal.

Em 2001 a RTP selecionou 50 canções originais que foram apresentadas em 5 eliminatórias e selecionadas por um júri. Pela primeira vez na história do Festival da Canção, a final do certame foi emitida em diferido pelo país se encontrar de luto face à tragédia de Entre-os-Rios. Contudo gerou-se uma certa polémica na altura porque, apesar do espectáculo não ser em directo, a RTP emitiu no mesmo dia um jogo da Liga dos Campeões. Neste ano, a votação distrito a distrito não foi do conhecimento público.

Depois de um interregno de um ano (em 2002 não se realizou o Festival), em 2003, 2004 e 2005 a selecção do representante português na Eurovisão foi realizada de outra forma. Em 2003, Rita Guerra foi escolhida pela RTP1 como a representante portuguesa no Eurofestival. Foram seleccionados 3 temas, apresentados numa das galas da Operação Triunfo e durante uma semana o público votou, por telefone, na canção favorita.

No ano seguinte, a RTP entregou uma canção a cada um dos 3 vencedores da Operação Triunfo 2 e os portugueses votaram pelo telefone. Já em 2005 foram os 2B que representaram Portugal na Eurovisão. A escolha recaiu sobre Luciana Abreu e Rui Drummond, num convite feito directamente pela RTP, sem qualquer tipo de selecção do público.

A partir de 2006 a votação para selecção do vencedor foi feita através do voto do júri e do televoto, o que gerou algumas polémicas nos últimos anos. Em 2006 as Nonstop e Vânia Oliveira empataram no final das votações, tendo sido Vânia a vencedora por parte do público. Contudo, tal como ditavam as regras, ganharam as Nonstop, pois o júri era soberano. A decisão causou controvérsia.

httpv://www.youtube.com/watch?v=QvpN18TAYU0

Em 2007 e 2008 as vencedoras foram eleitas somente através do televoto. Sabrina arrecadou 27.94% das votações e Vânia Fernandes 35.0%.

Em 2009 e 2010 as votações foram, tal como em 2006, mistas. No entanto o júri passou agora a ser distrital, tal como acontecia no início. Em 2009 os Flor-de-Lis ganharam sem qualquer tipo de conflitos, apesar de Luciana Abreu ser a favorita do público. Contudo, em 2010 o televoto atribuiu o prémio a Catarina Pereira, mas foi Filipa Azevedo quem ganhou o Festival, depois de feitas as contas totais. A vitória criou polémica e o público no Campo Pequeno, com muito eco para o exterior, fez-se ouvir.

Talvez por isso, este ano haja continuidade do método 50-50 entre júri distrital e público, mas seja soberana a vitória atribuída pelo público. Ou seja, em caso de empate a vitória será para quem tiver obtido o maior número de escolhas no televoto.

Com tantos métodos diferentes será que já alguma vez foi usado o mais indicado? Se a escolha é exclusivamente feita por um júri, o público não pode dar a sua opinião. Se a escolha é feita pelo público então há manipulação de votos. Se as votações forem realizadas pelas duas partes não há consenso. O que está certo e errado? Quem tem razão? Ou será que ninguém tem razão?

Que o Festival já não tem o impacto que tinha outrora todos nós sabemos, mas as votações criam entre os portugueses, ainda hoje, uma certa polémica. É impossível agradar a ‘gregos e troianos’, todos sabemos. Será que a escolha deverá premiar a qualidade ou a potencialidade de uma música? O ideal era premiar as duas, mas por vezes a missão é difícil. E, talvez por isso, Portugal continue só com prémios de consolação na prateleira eurovisiva.