Em 1973, a um ano da revolução que mudaria indubitavelmente Portugal, Fernando Tordo cantava em Tourada: “diz o inteligente que acabaram as canções”. 37 anos volvidos, olhando para o que foi e o que é o Festival da Canção, acabaram-se realmente as canções?

Quando começou, em 1964, o festival tinha a intenção primeira de seleccionar o intérprete e música representantes de Portugal no concurso europeu, que tinha começado também poucos anos antes: a Eurovisão da Canção. Depressa se tornou muito mais que isso.

Nos anos 60 e 70, o Festival da Canção era um acontecimento nacional. Era, além disso, assim, que o governo de Salazar, controlador da única estação televisiva, o queria. Uma transmissão em que mais uma vez se controla o que os portugueses ouvem e em que, num momento de evasão, as pessoas se reúnem para esquecer tudo o resto e prestar duas horas de atenção a música. No entanto, opondo-se à visão do regime, também os autores viam neste evento um veículo da sua palavra liberdade. E assim a vontade dos criativos suplantou, não raras vezes, a do ditador. Para prová-lo ficaram para a história músicas como Festa da Vida (1972), que apela à festa, à união e restituição da celebração, Desfolhada (1969), em que Simone de Oliveira profere versos arrojados à época como “quem faz um filho, fá-lo por gosto” e chama “casca de nós desamparada” ao país, ou a sempre citada neste âmbito Tourada (1973), na qual, para além de criticar a sociedade do início ao fim da música, Fernando Tordo provoca a câmara e o espectador.

A popularidade que o Festival da Canção foi coleccionando, não só por razões políticas, mas também por ser um programa único do campo audiovisual português, faz com que tenha tido para si os melhores letristas, compositores, músicos e intérpretes. Há que não esquecer que, nos primeiros anos de Festival da Canção, os portugueses estão a descobrir as potencialidades da televisão, tendo uma oferta muito limitada, sem qualquer concorrência.

Talvez assim se explique a qualidade inicial da generalidade das músicas concorrentes ao Festival da Canção. Os melhores participam porque sabem que o programa é visto e apreciado; o programa é visto e apreciado porque os melhores participam.

Com a maior estabilidade em democracia, o evento perde importância e com isso qualidade nas canções. Deixa, obviamente de ser politicamente necessário e perde bons letristas que anteriormente o usavam com esse intento. Agravando a situação, a proliferação em Portugal de uma música demasiado pop, demasiado ligeira, conspurca o festival. E os exemplos? Qualquer um os encontrará.

Com a entrada no mercado dos canais privados de televisão, no inicio dos anos 90, a RTP não soube fidelizar os fãs do Festival da Canção. A maior oferta faz com que o espectador mude de canal num único gesto e para isso basta suspeitar que não vai gostar. Para isto contribuíram as constantes mudanças no formato do programa no que respeita à selecção do vencedor. A procura da RTP por um método perfeito fez com que o espectador se desorientasse e permanecesse na dúvida de quem escolhe na realidade o vencedor. Os métodos de votação em constante mudança confundiram os que assistiam ao programa e, pior que isso, desrespeitaram-no. O público que começou a sentir o direito de escolher o vencedor viu, não raras vezes, o júri tomar esse poder para si, como aconteceu em 2006 com a polémica vitória das Nonstop frente a Vânia Oliveira, a escolha do público, ou, numa situação mais extrema, em 2005, quando o canal escolheu os 2B, sem dar a palavra ao público.

A verdade cruel do Festival da Canção: perdeu popularidade, perdeu importância, as pessoas já não se juntam para o ver, já não o comentam, já não fazem dele o evento da semana. A popularidade que perdeu arrastou consigo, não será exagero dizê-lo, perda de credibilidade. Os artistas pensam duas vezes antes de participar e muitos deles desistem. Os melhores, com um futuro promissor na música, nem sequer pensam em fazê-lo. O Festival da Canção já não é a montra de valor e qualidade que se gostaria e que costumava ser.

Há, de ano para ano, uma busca incessante pelo padrão de música que a Europa quer ver como vencedora, sente-se constantemente a necessidade de a criar e de com isso chegar ao topo. Como é prova a história do Festival da Canção, isso distrai-nos. As melhores músicas que tivemos ficaram, na sua maioria, longe do pódio, as piores, algumas delas, nem conseguiram chegar à actuação no palco da Eurovisão.

O Festival da Canção deveria bastar-se a si próprio e não ser uma mera etapa de selecção para um concurso europeu que os portugueses sobrevalorizam ao julgar mais importante que o concurso interno. Se as músicas apresentadas constituíssem o exemplo de boa música, em vez de serem invenções daquilo que julgamos que os europeus gostam, provavelmente continuaríamos sem ganhar a Eurovisão, mas também não sentiríamos dor ou pena ao ver um programa de culto da televisão portuguesa.

Acabaram-se as canções? Espero que não.