Quem não se deleita com um bom filme de animação? Seja no antigo 2D, no estilo mais gráfico ou ainda na mais recente e concorrida tecnologia 3D, a verdade é que os filmes de animação, sejam eles mais divertidos, sérios ou até mesmo negros, têm vindo a ganhar um lugar de destaque no universo cinematográfico pelo modo como conseguem fazer rir, chorar e passar de forma inocente mensagens com um carácter mais sério. E o mais recente filme de animação, Rango, decerto já ganhou o seu lugar.

Transportando-nos numa viagem pelo Velho Oeste, Rango conta a história de um pequeno camaleão doméstico assolado por uma crise de identidade que anseia tornar-se num herói, na esperança de assim conseguir alcançar algum sentido para a sua vida.

Quando acidentalmente é abandonado no deserto Mojave, Rango vê-se perdido no meio de Vila Poeira, uma terra prestes a tornar-se fantasma devido aos problemas de falta de água que atravessa. Não conseguindo passar despercebido, o forasteiro consegue dar a volta por cima e convencer as bizarras criaturas que ainda habitam a vila de que é um herói. Rango embarca assim numa aventura onde muito mais que resolver o problema da água, vai descobrir o seu verdadeiro eu.

Pode-se dizer que a estreia de Gore Verbinski, realizador de Piratas das Caraíbas, no mundo animado foi em grande. Embora o filme não esteja deslumbrante, a verdade é que se demarca de outros filmes de animação por toda uma atmosfera alternativa que transparece tanto pelo local, como pelas próprias personagens. O ar do Oeste quis ser transmitido de tal maneira que os próprios actores, durante a fase de gravações da voz, tiveram de usar roupas características para que sentissem verdadeiramente no Wild West.

Contrariando os traços simétricos e redondos típicos da maioria dos animais de filmes animados, cada uma das criaturas do deserto que entra neste filme tem características físicas peculiares, e não sendo atractivas, acabam por funcionar e tornarem-se queridos aos espectadores pelo seu carácter dócil e simpático e temperamento divertido. Isto torna-se numa mais-valia, não só por quebrar com a fórmula tradicional, mas porque sendo uma parte significativa do público composto por crianças, esta passa a ver estas criaturas, normalmente temidas, com outros olhos.

Apesar disso, Rango não é definitivamente infantil. Diálogos complexos, muitas referências ao mundo western e algumas cenas mais violentas requerem um entendimento superior, provando cada vez mais que os filmes de animação são dirigidos não só a crianças como também a adultos. E tal não poderia ser mais acertado, uma vez que a mensagem que veicula quanto à gestão da água é universal. Da perspectiva em que os animais se assemelham ao Homem, o filme alerta-nos para a realidade de que a sociedade não se pode deixar corromper em detrimento do lucro ao ponto de se privar do que é mais essencial. Mas também de um ponto de vista mais realista, vendo os personagens como imagem dos seres que habitam o deserto, o filme é uma chamada de atenção para o facto de a modernização estar a destruir os habitats naturais desses seres.

Rango constitui assim, na minha perspectiva, para além de um retrato do próprio Homem, um apelo a este dado pelos animais. Um apelo ao reconhecimento de que estes não são inferiores e merecem também o seu lugar no mundo. É precisamente este lugar no mundo que Rango questiona, uma vez que nem a função mais básica de defesa, a diluição, consegue cumprir.

Nem para fugir aos perigos do deserto, como as perseguições de uma águia, como para passar despercebido na cidade. No entanto, isto vem constituir uma vantagem para o camaleão, que se adapta às situações graças à sua larga imaginação e mania da representação, acabando assim por se distinguir dos demais.

Rango apercebe-se também que a vida é para ser vivida e não representada, e esta é outra das grandes lições do filme. Só assim descobre de que é feito um verdadeiro herói.

Apesar de tudo, o filme não me deslumbrou: não é extraordinário quando comparado com obras arrebatadoras como UP Altamente, que, além de uma mensagem mais directa, possui um carácter de entretenimento maior. O suspense é reduzido e apesar de ter momentos cómicos, poderia ser mais rico neste aspecto.

Em termos técnicos, no entanto, só poderão ser feitos elogios: qualidade de imagem surpreendente, detalhes de animação fantásticos, trabalho de fotografia excelente. A verdade é que no que toca a esta parte, tudo parece ter sido pensado ao pormenor.

Quanto às interpretações, apenas visionei a versão dobrada, mas considero que as vozes foram muito bem escolhidas. Manuel Marques no papel principal conseguiu adaptar-se à versatilidade de Rango, provando ser ele mesmo um camaleão na arte da dobragem. Também Filomena Cautela conseguiu dar um ar bastante provinciano a Beans (Feijoca, na versão portuguesa, a iguana por quem Rango se apaixona) através de um sotaque quase perfeito.

Em suma, Rango apresenta-se como um filme engraçado embora pouco apaixonante. Mas isso talvez se deva às grandes expectativas que criei quanto a ele. Não deixa no entanto de ser um filme a ser visto, porque se considerarmos que esta é a estreia de Gore Verbinski em animação, o filme é admirável. O realizador prova assim que tem potencialidade para não se diluir na história do cinema, tal é a sua capacidade para se distinguir.



Nota: 7/10

Ficha Técnica:

Título original: Rango

Realizado por: Gore Verbinski

Escrito por: John Logan

Elenco original: Johnny Depp, Isla Fisher, Abigail Breslin, Ned Beatty, Bill Nighy
(versão portuguesa) Manuel Marques, Filomena Cautela, Luís Mascarenhas

Género: Animação, Acção, Aventura

Duração: 107 minutos