Sempre original e sem medo de arriscar, é assim que se apresenta Julie Taymor. Across the Universe (2007), Frida (2002) ou Titus (1999), mostram bem as características que distinguem a realizadora. Em A Tempestade, Taymor volta a trazer William Shakespeare para o ecrã de cinema, depois de Titus, uma adaptação, como sempre, muito alternativa. Este filme, que estreou hoje nas salas portuguesas, encerrou a 67ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza.

Apesar de Julie Taymor ser também encenadora teatral, quem for ver A Tempestade ao cinema não vai assistir a uma peça filmada. Longe disso. Trata-se de um filme interessante, diferente de tudo a que se está habituado, mas dentro do género em que a realizadora costuma trabalhar, que faz o espectador experimentar novas sensações.

Taymor é bastante fiel a Shakespeare nesta adaptação, não se privando, todavia, de “mudar o sexo” à personagem principal. Próspera (ou Próspero da peça do dramaturgo inglês), interpretada por Helen Mirren, era duquesa de Milão mas, atraiçoada pelo seu irmão, foi expulsa da sua cidade, indo viver para uma ilha com a sua filha Miranda (Felicity Jones), onde Caliban (Djimon Hounsou) é o único habitante. Muitos anos depois, o seu irmão e os seus cúmplices passam ao largo da ilha e Próspera, que possui poderes mágicos, usa-os para provocar uma tempestade e causar o naufrágio do barco, trazendo até si os homens que lhe destruíram a vida, com o intuito de se vingar.

A Tempestade não é apenas uma história de traição, vingança e perdão. É também uma história de amor e está recheada de momentos de comédia, em que as personagens de Alfred Molina, Russell Brand e Djimon Hounsou têm especial destaque. São aliás estes três actores que protagonizam aquele que é, para mim, o momento mais divertido do filme, quando Trinculo encontra Caliban no chão e quando, por sua vez, Stephano, bêbedo, os encontra aos dois, que nos faz dar umas boas gargalhadas.

O ponto forte deste filme é o elenco, repleto de actores de excelência, com especial destaque, claro, para a oscarizada Helen Mirren que, mais uma vez, está brilhante na pele da protagonista Próspera, uma mulher magoada, sedenta de vingança e muito poderosa, que protege a sua filha e só quer o melhor para ela. Mirren é, pode dizer-se, a alma deste filme e a sua personagem é a que está mais bem explorada. Ben Whishaw, que encarna o espírito Ariel, tem também um bom desempenho neste filme. De destacar são ainda as interpretações de Felicity Jones e dos três actores que referi acima: Alfred Molina, Russell Brand e Djimon Hounsou.

O filme é muito visual e para tal contribuem os fabulosos cenários naturais do Havai, onde grande parte do filme foi rodado. O trabalho de fotografia, a cargo de Stuart Dryburgh, também está bastante bom. A banda sonora, de Elliot Goldenthal, é interessante, mas não acrescenta muito mais ao filme. Destaco contudo o último tema, enquanto passam os créditos finais, que conta com a voz de Beth Gibbons, vocalista dos Portishead.

De realçar é ainda o facto de A Tempestade ter estado na corrida ao Óscar de melhor guarda-roupa, juntamente com os filmes Eu Sou o Amor, O Discurso do Rei, Indomável e Alice no País das Maravilhas, tendo sido o este último a sagrar-se vencedor.

A Julie Taymor devem ser dados todos os méritos por este A Tempestade, tendo em conta o quão difícil deve ser adaptar Shakespeare ao cinema. No entanto, o filme perde com os diálogos muito clássicos e algo rebuscados (a que o autor obriga, claro). A história em si não foi certamente bem explorada pela cineasta, o que faz com que o elenco de luxo deste filme não tenha sido aproveitado como deveria. Todavia, vale a pena ver a forma como esta realizadora visionária concretizou a adaptação da última obra-prima de Shakespeare e o extraordinário desempenho de Helen Mirren.

6.5/10

Ficha Técnica:

Título original: The Tempest

Realizado por: Julie Taymor

Escrito por: Julie Taymor, William Shakespeare

Elenco: Helen Mirren, Felicity Jones, Djimon Hounsou, Ben Whishaw, Russell Brand, Alfred Molina, Reeve Carney, Bill Conti, Chris Cooper, Alan Cumming, David Strathairn

Género: Comédia, Drama, Fantasia

Duração: 110 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos