A 83ª entrega anual dos prémios da Academia, realizada no Kodak Theatre, em Los Angeles, tinha tudo para se tornar numa noite mágica, na estreia de James Franco e Anne Hathaway como apresentadores. Mas tal não aconteceu. Muitos foram os problemas que a dupla apresentou ao longo da gala, que não escaparam aos olhos da crítica especializada.

A cena de abertura, original e bem executada, fez James Franco e Anne Hathaway viajar pelo mundo das nomeações para o melhor filme de 2011. Pegar na ideia de deambular pelos sonhos, ao estilo Inception, e parodiar com as cenas dos filmes Black Swan, The Fighter, The King’s Speech, True Grit, parecia prever uma noite de apresentação brilhante, com humor e um forte desempenho da dupla mais jovem que alguma vez chegou a apresentar a cerimónia dos Óscares. Os actores Alec Baldwin e Morgan Freeman também ajudaram, ao darem o seu contributo e aparecerem em certos momentos do sketch inaugural. Acabar esta viagem com uma cena do já conhecido filme Back to the Future fez a plateia aplaudir, de pé, a chegada dos anfitriões, depois de uma entrada tão original. Mas o brilho, no geral, ficou-se por aquele momento.

Falhou a química entre a dupla de apresentadores. “Ele parecia desinteressado e ela parecia demasiado excitada”, escreveu a BBC. Não se sabe ao certo se houve uma intenção por parte da academia para que os dois actores se mantivessem, invariavelmente, naquele registo. Mas o que se viu foi uma Anne Hathaway que, apesar de tudo, conseguiu (de forma tímida) manter a vela acesa. Soltou algumas piadas, mudou várias vezes de vestido e chegou a dançar e cantar, em jeito de brincadeira, para o seu colega, Hugh Jackman, que desistiu de fazer um dueto com ela à última hora. O site do Times chegou a comentar o desempenho da actriz, dizendo que “a sua excitação era enternecedora, mas algumas vezes – novamente, talvez por causa dos nervos – estranhamente agressiva”.

James Franco, à excepção do momento de abertura e do momento em que se juntou a Anne Hathaway, no palco, vestido como Marilyn Monroe (os seus melhores momentos), foi extremamente criticado pela sua presença ao longo da cerimónia de entrega dos Óscares. A crítica é unânime a comentar o seu ar de aborrecimento, e a estação BBC tocou fortemente nesse ponto: “Franco simplesmente parecia aborrecido, como se a apresentação do evento fosse uma necessidade entediante, como tratar do jardim ou lavar a loiça”.

Já o Hollywood Reporter diz que “a 83ª entrega anual dos prémios da academia vai provavelmente ser recordada pela noite em que James Franco não soube actuar como um apresentador”. A Times acrescenta ainda que, “à medida que a cerimónia ia avançando, Franco pareceu retirar-se para uma bruma, com um sorriso troçador e esfregando as mãos.”. A sua apresentação ficou também marcada pela inovação, uma vez que o actor esteve bastante activo ao utilizar o Twitter para comentar e postar fotos ao mesmo tempo que apresentava a cerimónia de entrega dos Óscares.

Tudo isto depois da elevada expectativa que James Franco remeteu para a sua parceria com Anne Hathaway, prometendo que iria ser uma gala divertida e sem pressões da Academia para que utilizassem qualquer tipo de registo.

Apresentar não é, obrigatoriamente, utilizar e abusar do registo humorístico; contudo, esses momentos são necessários e essenciais para o sucesso de uma apresentação. Houve pouca chama, poucos momentos de interacção e a dinâmica que é necessária nas cerimónias de entrega dos Óscares, para entreter a plateia de um dos espectáculos mais aguardados do ano. Se a intenção de escolher os actores James Franco e Anne Hathaway como apresentadores era abranger um público mais jovem e formar uma nova geração de apresentadores para este tipo de cerimónias, ao mesmo tempo que se tentava controlar e demarcar do estilo de apresentação que marcou a cerimónia de entrega dos Globos de Ouro 2011, então o resultado, aos olhos do público e da crítica, não foi satisfatório.

A pouca ênfase dada pela dupla de apresentadores deixou vontade de ver, receber e sentir algo com um toque mais humorístico. E aquilo que era trabalho para os próprios apresentadores, foi arrancado pela velha guarda da indústria cinematográfica de Hollywood.

O actor Kirk Douglas, com 94 anos, demonstrou um enorme sentido de humor e vontade de interagir com o público presente no Kodak Theatre, ao brincar e tecer algumas piadas sobre os actores James Franco, Anne Hathaway, Colin Firth e Hugh Jackman, e ao fomentar o suspense pela tempo em que demorou a pronunciar o Óscar para melhor actriz secundária. Outro momento da noite foi a presença em palco do actor Billy Crystal, que em poucos minutos e depois de algumas piadas deixou saudades dos tempos em que apresentava a noite dos Óscares (ele que já apresentou sete vezes a entrega dos prémios).

Resta à Academia encontrar o candidato certo para um apresentação a meio termo, uma apresentação que se encontre centrada. Mais dinâmica e humorística e não tão contida, como a que os actores James Franco e Anne Hathaway conduziram. E não tão extravagante e polémica como a que o comediante Ricky Gervais apresentou nos Globos de Ouro, ao fazer piadas de tom ofensivo e privado sobre alguns actores. Até lá, é necessário ficar à espera da próxima nomeação.