As histórias sobre viajantes solitários e aventureiros já não são novas, mas continuam a surpreender o mundo pela forma como nos chegam, retratadas em livro e/ou filme, através do olhar sensível de autores e realizadores. A história do jovem Aron Ralston é uma delas: 127 Horas é um drama que nos transporta para o incidente que mudou a vida de um montanhista para sempre, mostrando a angústia de quem, à beira da morte, recorda a vida que tem levado.

Baseado na autobiografia do próprio Aron, 127 Horas é a história verídica e surpreendente de um montanhista e da sua luta para sobreviver, depois de cair num desfiladeiro isolado no Utah e ver o seu braço direito preso por uma rocha. Nas 127 horas seguintes (aproximadamente cinco dias), Aron analisa a sua vida, recorda as decisões tomadas nos últimos dias, procura racionar a água que ainda tem e tenta desesperadamente retirar o braço debaixo do pedregulho, filmando-se para registar a ‘aventura’ forçada. Aqueles cinco dias, mais do que uma luta para se manter vivo e ser resgatado, são um teste à sua determinação e coragem para conseguir sair dali vivo, com ou sem braço.

Três anos depois do sucesso internacional que foi o seu Quem Quer Ser Bilionário?, Danny Boyle realiza um drama que volta a estar na corrida aos Óscares e a ser um possível vencedor de seis estatuetas. Boyle filma com sabedoria, alternando os planos entre os macros e as extensas e belas paisagens do desfiladeiro, conferindo acção a cenas que ao nível do argumento não a têm necessariamente, dividindo a tela em duas ou três partes iguais para mostrar diversos planos e diferentes reacções do mesmo mundo. O genérico inicial é o primeiro exemplo da boa realização do filme, mostrando o contraste entre um jovem alegre e solitário que se prepara para uma nova aventura e a azáfama das grandes cidades, as pessoas que seguem a sociedade para trás e para a frente, num ciclo vicioso.

A qualidade da realização talvez seja mais evidente quando se coaduna com os monólogos do protagonista, sozinho e perdido num desfiladeiro qualquer, crente que o destino daquela rocha era exactamente prendê-lo ali e obrigá-lo a pensar na vida ao longo de uma morte lenta. Aqui temos de inserir obrigatoriamente o elemento mais louvável de toda a película, o actor que lhe dá vida e alma. James Franco é, sem dúvida, um grande actor. Neste drama, temos um relance de todos os aspectos da personalidade mais profunda da personagem, através de expressões verbais e não-verbais de desespero, tristeza, arrependimento, desejo, dor, ilusão, coragem.

Enquanto habitualmente temos um James Franco em cada filme que faz, mais divertido numa comédia e mais trágico num drama, aqui temos um James Franco com todas essas características, que retratam na perfeição a sinestesia sentida pelo protagonista na situação difícil em que se encontra. Um exemplo da magnificência demonstrada nesta produção é talvez o momento em que Aron se apercebe de que o braço ficou preso e não o consegue soltar: há desespero, surpresa, incredulidade, indecisão, quatro em um, aliados ao silêncio que se faz no meio do deserto. Franco está perfeito para o papel e, mais do que saber interpretá-lo, fá-lo com grande mestria, captando verdadeiramente a aura da personagem.

Não é um argumento fácil de pegar: Boyle podia ter-lhe dado uma abordagem mais trágica e sentimental, mas optou, pelo contrário, por oferecer uma visão realista e sincera dos acontecimentos – ainda que não tenha lido a obra de Aron Ralston, a veracidade da história e da imagem é facilmente identificável. Porque Aron não era uma pessoa simples e receosa; Aron mostrou ter uma coragem para lá de normal, ao sobreviver àqueles cinco dias e ao ter forças, tantas horas e tanto esforço depois, para fazer o que muitos não teriam feito, e que era a única solução para continuar neste mundo. Para além de ser portador de um grau de loucura um pouco acima do saudável – o que o filme mostra bem através do episódio com as duas montanhistas, antes do incidente –, Aron não era um desistente e demonstrou ser racional e corajoso na forma como se ‘safou’ da embrulhada em que se meteu.

É certo que se arrepende de não ter atendido aquele telefonema nem ter dito onde estaria. Arrepende-se também de ter rejeitado sempre a companhia e o compromisso, optando por viver sozinho e livre das imposições da sociedade, delirando com possíveis reencontros, com momentos importantes que perderá; imaginando cenas de um futuro que, acredita, não lhe pertencerá. Recorda o passado e as pessoas que passaram pela sua curta vida – são os devaneios de alguém que, num momento de maior desalento, se sente impotente para continuar. Noutros momentos, porém, consegue rir e brincar com a própria desgraça, procurando distrair-se e resignando-se ao futuro que o espera. São 127 horas passadas disto, condensadas numa hora e meia para nós, que nos oferecem um grande filme dramático e verdadeiramente inspirador.

Outra característica que chama à atenção é a preocupação de Boyle com os pequenos detalhes, com aqueles pormenores que habitualmente escapam aos realizadores, e isso também acaba por conferir ao filme uma tonalidade interessante. A imagem alia-se ao som numa harmonia concedida, em grande parte, pela maravilhosa banda-sonora de A.R. Rahman, também compositor de Quem Quer Ser Bilionário? – é neste aspecto, sobretudo, que encontramos semelhanças com o filme que arrebatou os Óscares de 2009. Rahman é um forte candidato às categorias de melhor banda-sonora e melhor canção: a música acompanha o filme na perfeição, com sons mais fortes nas cenas de maior emoção e leves canções quando o protagonista se encontra mais pensativo.

Há, no entanto, alguns aspectos que seriam talvez dispensáveis no filme, nomeadamente as cenas finais de resgate – porque não é novidade que Aron sobrevive para contar a história. Para quem vê o filme e observa o protagonista a escapar do desfiladeiro, a sensação de alegria e alívio demonstradas são mais do que suficientes para sentirmos a realização e a inspiração pretendidas. Não era necessária esta informação adicional, tal como também não se perdia nada se Boyle tivesse embelezado um pouco menos algumas cenas do filme (como já tinha feito em Quem Quer Ser Bilionário?). No entanto, estes são apenas pormenores no seio de uma boa realização e de um bom argumento, ilustrados por exemplo no momento em que Aron corta o braço para se libertar – são cerca de cinco minutos de agonia por parte do espectador, mas também de grande coragem por parte da personagem que faz o filme.

É inevitável comparar este 127 Horas a O Lado Selvagem, que nos apresentou Chris McCandless como um aventureiro solitário com um fim trágico. No entanto, as histórias assumem contornos diferentes, e apenas podemos assemelhá-las nas características dos protagonistas. Podemos também dizer que, mais do que um filme para ganhar prémios e vender bilhetes, 127 Horas mostra uma história verdadeira e pretende dar uma maior visibilidade a estes pequenos heróis, muitas vezes anónimos, que demonstraram a sua determinação em momentos de maior desespero. Não acredito que, entre os dez nomeados para os maiores prémios da indústria cinematográfica, este 127 Horas saia vencedor (só Franco e A.R. Rahman merecem a distinção) – está longe de ser extraordinário. Mas é um bom filme, arrebatador, que vale a pena pelo argumento e pelas emoções experimentadas ao longo da sua visualização.

8/10

Ficha Técnica:

Título original: 127 Hours

Realizado por: Danny Boyle

Escrito por: Danny Boyle, Simon Beuaufoy (argumento) e Aron Ralston (livro)

Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn, Treat Williams, Kate Burton, etc.

Género: Aventura, Drama, Thriller

Duração: 94 minutos