Já está nos cinemas portugueses um dos grandes candidatos aos Óscares deste ano. O Discurso do Rei transborda toda a classe e elegância britânica e, com certeza, ganhará a simpatia de todos os que o assistam. Contra as expectativas, o filme de Tom Hooper (até então muito pouco conhecido, principalmente no que toca a longas metragens) é o mais nomeado para os prémios da academia, em 12 categorias, incluindo a de melhor filme, melhor actor principal, melhor realizador ou melhores actriz e actor secundário.

Este drama histórico relata a dificuldade de Albert Frederick Arthur George (Colin Firth), futuro rei George VI e pai da actual rainha Elizabeth II de Inglaterra, de falar em público. O problema revela-se ainda mais complexo devido à gaguez do protagonista, que já tentara de tudo para a superar. É quando a sua mulher Elizabeth (Helena Bonham Carter) encontra um novo especialista em problemas de fala, Lionel Logue (Geoffrey Rush), que tudo parece começar a tomar um novo rumo. Contudo, perante a morte de seu pai, o rei George V, e a possibilidade do seu irmão mais velho Edward, natural sucessor ao trono, vir a abdicar, e ainda com a iminente chegada da segunda guerra, tudo se complica, já que a necessidade de falar publicamente aumenta exponencialmente.

A direcção de fotografia, a cargo de Danny Cohen (que provavelmente vê aqui realizado o melhor trabalho da sua carreira), está fabulosa. Colin Firth surge muitas vezes em planos “desconfortáveis”, que reforçam ainda mais a angustia da sua personagem. O guarda-roupa da época é deslumbrante e a banda sonora, de Alexandre Desplat, é muito interessante, provando que todos merecem as nomeações da academia para as suas categorias.

O elenco é de luxo e faz com que este filme seja muito mais do que uma biografia banal. Colin Firth é, para mim, o mais forte concorrente ao Óscar e tudo aponta para que o ganhe. Interpretar George VI é, provavelmente, o maior desafio para o actor e o seu desempenho é fenomenal. Com uma gaguez perfeita (perdoem-me o paradoxo) e uma fragilidade que deixa qualquer um enternecido, Firth encarna um homem que, apesar de todas as suas fraquezas, se revela cheio de coragem, e cujo o microfone é o seu principal “inimigo”. Também a interpretação de Geoffrey Rush merece especial atenção. Lionel Logue é a minha personagem de eleição em O Discurso do Rei e tal deve-se, em grande parte, a Rush. Claramente, o actor não conseguirá bater Christian Bale (The Fighter) na luta ao Óscar de melhor actor secundário, no entanto, há que lhe dar todo o mérito pela sua excelente interpretação.

Helena Bonham Carter, também ela na corrida pelo Óscar de melhor actriz secundária (mas que me parece longe da vitória), interpreta uma rainha Elizabeth muito elegante, delicada e carinhosa, deixando a excentricidade que lhe é característica totalmente de parte, e vem provar, mais uma vez, a sua qualidade como actriz. Guy Pearce é muito credível como o apaixonado e irresponsável Edward. Apenas é difícil vê-lo como irmão mais velho de Colin Firth, já que o este é sete anos mais velho que Pearce. Por sua vez, Tomothy Spall, que é Winston Churchill, é o ponto fraco do elenco, surgindo com uma interpretação demasiado exagerada em O Discurso do Rei.

Apesar de se tratar de uma interessante história que prende o espectador, o argumento, de David Seidler, não traz nada de novo. De qualquer forma, os diálogos são bons e o filme está recheado de momentos de humor muito bem conseguidos, que, no meio de todo o drama de George VI, arrancam sorrisos aos espectadores. O típico humor britânico, leve, elegante e inteligente. São Colin Firth e Geoffrey Rush que protagonizam a maior parte desses momentos. É também essa relação entre rei e terapeuta, muito curiosa e peculiar, que será uma das responsáveis por despertar as emoções de quem assiste, criando grande empatia com as personagens.

Este filme vem provar que, apesar de toda a insegurança e das adversidades que possam surgir, todos têm “uma voz”. Apesar de não ser um filme tão fora do comum como se possa esperar perante as 12 nomeações aos Óscares, não deixa de merecer todos os elogios que tem recebido e, porque não, o prémio da academia para melhor filme. O Discurso do Rei reúne qualidades capazes de ofuscar os seus pontos fracos. É um filme para ver e rever, onde as quase duas horas de filme passam sem se dar por isso.

9/10

Ficha Técnica:

Título original: The King’s Speech

Realizado por: Tom Hooper

Escrito por: David Seidler

Elenco: Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Derek Jacobi, Michael Gambon, Guy Pearce, Claire Bloom, Timothy Spall

Género: Drama, Histórico

Duração: 118 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos