Bem se sabe que se deve evitar a todo o custo cair em clichés e frases feitas acerca de quem quer que seja, mas dificilmente encontramos melhor expressão que “universo próprio” a tudo o que rodeia a música da americana Joanna Newsom. Numa cavalgada que começou triunfal em 2004, com o álbum de estreia The Milk-Eyed Mender, Newsom conseguiu superar-se com Ys em 2006 e apresentou-se em Portugal, pela segunda vez, em Aveiro, Porto e Lisboa com o mais recente Have One On Me, álbum triplo com mais de duas horas, presente em praticamente todas as listas de melhores trabalhos de 2010. No Centro Cultural de Belém, esperava-a uma audiência segura e fiel, que a sua sonoridade (e também o preço dos bilhetes) não convidava a espectadores curiosos, do típico “vamos lá ver no que é que isto dá“. Apesar de não ter esgotado, o auditório ficou com uma compostura invejável, o que ajuda inevitavelmente ao ambiente do espectáculo.

Com alguns minutos de atraso, Alasdair Roberts rompeu por entre o pano fechado sozinho com a guitarra ao ombro, pronto para as honras de primeira parte. E se a simplicidade e pureza do músico escocês começaram por ecoar harmoniosas na acústica do CCB, a meio da sua actuação acabou por se perder o encanto, e o seu folk arrancado das raízes escocesas acabou por cansar ligeiramente, apesar da execução irrepreensível da guitarra e das tímidas tentativas de interagir com o público. Saiu do palco muito desajeitado, atrapalhando-se por entre as cortinas fechadas, sob um forte aplauso, que foi mais de conveniência do que de admiração.

Meia hora depois, já com o palco preparado, Joanna Newsom entra numa corrida delicada e colhe um aplauso imediato de todos os presentes. Graciosa, encaminha-se para o centro do palco, onde está colocada a sua majestosa harpa, e sozinha dá início a um concerto onírico, com ‘81. A harpa é, por si só, um instrumento elegante, ainda mais quando abraçada por um corpo feminino – mas a entrega de Newsom às cordas deste instrumento é tanta que nos parece natural que ela esteja sempre assim, sentada com a harpa encostada a si, quase como se fosse uma parte natural do seu corpo. Esta dedicação transmite-se não apenas de forma estética, mas também na forma primorosa como o som se espalha no ar. Foi assim com ‘81, com Have One On Me e especialmente com Cosmia e Baby Birch. Execução magistral, acompanhada por uma banda altamente competente e por uma voz no limiar do divino.

De facto, começam a faltar palavras elogiosas para descrever um concerto de qualidade tão constante e, usando uma palavra do inglês, para não cairmos na repetição, flawless. Se os momentos com a harpa parecem ser os mais naturais e apaixonados, Newsom não dá margem para críticas quando se desloca ao piano. Easy, uma das canções mais orelhudas e, ora, fáceis do último registo e Soft as Chalk, conseguiram o mesmo impacto que músicas a que o público já está mais habituado. De facto, apesar de ser o último álbum o mais presente na setlist do concerto, com sete músicas em onze, não se notou qualquer alheamento do público a estas canções mais recentes. Aliás, um dos momentos da noite, que colheu um aplauso apoteótico, vem directamente de Have One On Me – a muito upbeat Good Intentions Paving Company contou com um maravilhoso solo de trombone, ao qual foi difícil alguém se manter imóvel. Um pouco por toda a plateia viam-se cabeças a abanar com o ritmo, ou mãos que batiam delicadamente nas pernas. No final, um gigantesco aplauso para o trombonista, merecidíssimo. Ao longo do concerto, Newsom não se cansou de pedir aplausos à sua banda de apoio, que com os seus arranjos ajudou a tornar a noite inolvidável.

Clam, Crab, Cockle, Cowrie seria a sua última canção, a despertar a nostalgia do primeiro álbum. Mas o encore foi inevitável, e foi com a deliciosa Baby Birch que Joanna Newsom se despediu de Portugal. E apesar de as canções em estúdio não conseguirem transmitir todo o fascínio da sua actuação ao vivo, o tal “universo próprio” da americana não se esfarela ao sairmos da sala: continuará a acompanhar-nos, enquanto a memória o permita.