Crítica: Despojos de Inverno

O filme independente Despojos de Inverno, da realizadora Debra Granik, encontra-se nomeado para 4 categorias nesta 83ª edição dos Oscars, designadamente Melhor Filme, Melhor Actriz Principal, Melhor Actor Secundário e Melhor Argumento Adaptado. Frio, dramático e amargo, Despojos de Inverno destaca-se pela narrativa simples e ligeiramente inconclusiva, sem deixar de ser uma obra fantástica pelo retrato que faz de uma parte da sociedade americana.

É um retrato de degradação mas real, visível mais nos gestos e pormenores cénicos que nos diálogos, embora haja uma ou outra frase mais memoráveis. Marcado pelo suspense e angústia, este não é um filme para qualquer um ou que se veja de ânimo leve, requer uma certa sensibilidade e atenção aos detalhes para que dele se possa retirar algo. Custando pouco mais que 2 milhões de dólares, o filme foi rodado em Branson e Forsyth, duas cidades no Missouri.

A história, baseada no livro de Daniel Woodrell, decorre num ambiente montanhoso, numa área rural pouco povoada do Missouri, onde Ree, uma rapariga de 17 anos, vive com os seus dois irmãos menores e a sua mãe mentalmente debilitada, sendo por isso responsável pela manutenção da casa e da família. Vivendo numa atmosfera de grandes dificuldades e sacrifícios, como a falta de dinheiro e comida, as coisas acabam por complicar ainda mais quando Ree é alertada de que, se o seu pai, um traficante de drogas desaparecido, não comparecer no tribunal numa audiência, perderão a propriedade onde habitam. Arrebatada pela hipótese de ver o seu lar desfeito, Ree procede a uma difícil busca pelo paradeiro do pai, pondo a sua própria vida em risco à medida que se vai envolvendo em meios e com indivíduos perigosos.

Despojos de Inverno prima sobretudo pela qualidade com que aborda a crise das relações humanas e a falência do conceito de família: vemos uma família desestruturada relativamente ao núcleo familiar mais comum na sociedade, em que os pais são o grande pilar. Neste caso, verifica-se a ausência física do pai e a mental da mãe. É a filha mais velha, com apenas 17 anos, quem sustenta e luta com grandes dificuldades pela construção de um lar. Existe para além de uma pobreza material, uma grande pobreza em termos de afecto, que Ree tenta combater a todo o custo. Este aspecto é explorado de uma forma excepcional no filme através de diversos gestos e acções levados a cabo pelas personagens. O pentear do cabelo da mãe por Ree ou as tarefas domésticas partilhadas pelos três irmãos são cenas que nos transmitem bem o ambiente vivido sem serem necessários grandes diálogos. Efectivamente, a riqueza do filme não advém tanto da linguagem verbal (os diálogos) mas da linguagem gestual, pois torna o filme visualmente mais poderoso ao aproximá-lo de situações reais.

A relação de Ree com outras personagens do filme é muito interessante, uma vez que apesar de estabelecer com uma grande parte delas laços familiares, a verdade é que não existe qualquer afinidade, verificando-se pelo contrário um forte distanciamento e arrogância entre eles. Apesar de tudo, este filme ensina-nos a ver que mesmo no meio mais adverso é possível que surja a redenção e a união. Debra Granik conseguiu fazê-lo de um modo convincente pois é algo natural, sem recorrer ao típico final feliz e moral da história.

De facto, o realismo é uma das características mais salientes deste filme. Tudo parece ter sido feito para dotar o filme de uma relação próxima com a realidade, isto é, como se cada cena fosse vivida em tempo real. As coisas decorrem naturalmente, como se não houvesse interrupções e grande parte das cenas são por isso demoradas. Para uma maior sensação de experiência do real, contribuem ainda os factos de Despojos de Inverno ser filmado com a câmara ao ombro (modo de filmar muito utilizado em documentários), um tratamento de imagem reduzido e uma quase total ausência de música. Efectivamente, quanto à banda sonora, destacam-se as músicas folk, tradicionais do local, que fazem o espectador aproximar-se ainda mais da cultura daquela comunidade.

No entanto, esta tentativa de o aproximar do real acaba por prejudicar em parte o filme: cenas demoradas tornam o filme parado e consequentemente cansativo, com a sensação de que a história não avança. O filme acaba por ser um pouco inconclusivo por privilegiar muito este aspecto. Mais positivamente deverá realçar-se o excelente trabalho de fotografia: o filme é marcado por um evidente monocromatismo. Cores escuras e frias transmitem a frieza típica das montanhas, acompanhando deste modo a frieza das próprias relações entre as personagens e o desânimo que marca as suas vidas.

Destaque ainda para a fantástica prestação de todo o elenco, com especial atenção para a protagonista Jennifer Lawrence, que para este papel teve de aprender a caçar esquilos, cortar lenha e a lutar. A actriz encarna perfeitamente a personagem ao conseguir a representação perfeita de uma jovem com uma mentalidade desenvolvida e consciente das responsabilidades que as condições de vida impuseram, mas sem perder a aura e a ingenuidade de uma típica adolescente. Ainda que não se compare a outras interpretações concorrentes ao Oscar de Melhor Actriz como a de Natalie Portman em Black Swan, não deixa de ser notável a prestação desta actriz de apenas 20 anos e tal o comprovam os oito prémios que já arrecadou com desempenho desta personagem. John Hawkes, no papel de Teardrop, tio de Ree, está nomeado devidamente para a categoria de Melhor Actor Secundário, pois consegue também ele conjugar duas facetas distintas numa só personagem: uma mais hostil e outra mais sensível na sua relação com Ree. No entanto, uma concorrência poderosa nesta categoria como Christian Bale em The Fighter e Geoffrey Rush em O Discurso do Rei, torna-o num vencedor improvável.

São também louváveis as prestações dos pequenos actores que interpretam os irmãos de Ree, uma vez que este filme marcou a sua estreia na 7ª arte. Na verdade, as crianças são originárias da Forsyth, um dos locais de rodagem, acabando por actuar descontraidamente, o que contribui ainda mais para a naturalidade que o filme transparece.

Em suma, Despojos de Inverno é um retrato perfeito da angústia de uma comunidade real no qual a realizadora Debra Granik conseguiu explorar de um modo extraordinário a dimensão das relações humanas, sendo ainda notável pela ansiedade e incerteza que manifesta. Grande vencedor do Festival de Sundance, este filme surpreendeu ainda no Festival de Berlim e noutros 23 festivais. No entanto, numa competição dura como a corrida aos Oscars, muito dificilmente ganhará em qualquer das categorias uma vez que os concorrentes como Cisne Negro, Indomável ou A Rede Social têm sido muito mais fortemente elogiados pela crítica. Apesar de tudo, teremos de esperar pelo dia 27 de Fevereiro para vermos se o frio de Despojos de Inverno fica afinal marcado pela exultação calorosa de vencer os grandes prémios do cinema.

7/10


Ficha Técnica:

Título original: Winter’s Bone

Realizado por: Debra Granik

Escrito por: Debra Granik, Anne Rosellini (argumento) e Daniel Woodrell (romance)

Elenco: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Shelley Waggener, Garret Dillahunt, Lauren Sweetser, etc.

Género: Mistério, Drama, Thriller

Duração: 100 minutos

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